É que a gente era engajado…

maio 30, 2014

Dois garotos conversam sobre futebol em 2026

– Enzo…
– Que foi, Theo?
– Quando será que o Brasil vai receber outra Copa?
– Ih, vai demorar, cara. Tivemos uma copa 12 anos atrás. Por que você tá perguntando isso?
– Ah, porque tô vendo as notícias lá do Marrocos, onde vai ter a Copa este ano. Todo mundo celebrando, fazendo a maior festa, na maior expectativa. Imagina como vai ser quando tiver aqui de novo!
– Puxa, Theo, verdade! Imagina como deve ter sido aqui em 2014!
– Engraçado que eu procurei na internet e não achei muita coisa sobre a festa. Só uns protestos, uns negócios lá que eu não entendi.
– Pergunta pro seu pai como foi. Ele não tinha uns 30 anos quando teve a Copa? Ele deve lembrar como foi.
– Boa, Enzo! Vamos lá no bar perguntar pra ele!
– Oba, vamos!

(…)

– Pai.
– Que foi, menino?
– Como é que foi a Copa aqui no Brasil?
– O que você quer saber?
– Ah, tudo. O povo fez muita festa? A gente recebeu bem os outros torcedores? O país se pintou de verde e amarelo?
– Ué, filho, que pergunta! Em toda Copa o Brasil se pinta de verde e amarelo!
– Sim, mas a Copa é sempre em outro país. E quando foi aqui, a festa foi maior?
– Ah, filho, claro que sim. Foi uma coisa inesquecível! Faltando um mês para começar a Copa, tinha espetáculo pirotécnico todos os dias, com fogos em verde e amarelo. Todas as casas estavam pintadas com as cores do Brasil. Eu disse TODAS, sem exceção. Os desconhecidos se cumprimentavam na rua, se abraçavam, dizendo que a gente ia finalmente ter outra Copa aqui.
– Que legal, pai! E você, seus amigos, como ficaram?
– Eufóricos, Theo! Eu sempre ouvia as histórias de quando o Brasil sediou a Copa em 1950. Meu avô foi em dois jogos no Maracanã. Disse que foram os dias mais animados da vida dele. Falou da festa da torcida, da animação, da empolgação com o time. E eu não via a hora de vivenciar aquelas mesmas histórias!
– Ficou muito ansioso, seu Alberto?
– Claro, Enzo! A última semana antes da Copa eu passei praticamente em claro. Fiquei quase sete dias sem dormir direito, só pensando na Copa. Ficava mexendo no álbum de figurinhas, nos cards, nas revistas e pôsteres falando da Copa, via os DVDs…
– Ué, pai. Nunca vi nenhuma dessas coisas em casa.
– Não? Ah, filho… é que… bom, a gente perdeu na mudança…
– Ô, Alberto. Toma vergonha na cara, para de mentir pros meninos.
– Fica quieto, César!
– Quieto, nada. Não tem vergonha de ficar enrolando as crianças?
– Tomanocu, César. Vai cuidar da tua vida!
– Meninos, tudo isso aí que o Alberto tá contando aí é lorota, mentira!
– Como assim, seu César?
– Seu pai é um mentiroso de mão cheia. Ele foi contra a Copa no Brasil. Chegou a participar de manifestação de rua pedindo para não ter Copa do Mundo aqui. Ficava o dia inteiro na internet metendo o pau na Copa.
– Como assim?
– É, verdade. E quer saber do que mais? Essa foi a Copa mais sem graça que tivemos aqui desde que eu me conheço por gente. Tinha muito menos casa com bandeira, rua pintada e povo vestindo a camisa da seleção do que este ano, para você ter uma ideia.
– Sério?
– Sério mesmo. E sabe por quê? Porque teve um bando de chato que ficou falando que não tinha de ter Copa aqui, colocaram um monte de defeitos no país. Chegaram a falar que o Brasil não tinha condição de organizar o evento!
– Ué, mas o Marrocos não é muito mais pobre? Por que lá o povo tá feliz?
– Pra você ver, garoto. Aqui, o brasileiro torce pra tudo dar errado.
– Mas como alguém pode ser contra uma Copa no próprio país? Eu li uma matéria falando que o Marrocos vai faturar o dobro do que gastou!
– No Brasil também foi assim, garotos. Faturamos muito mais do que gastamos, mas ninguém pensou nisso na hora. Só ficou falando que não ia ter Copa.
– Caramba! Isso é verdade, pai?
– É… bem… filho, é verdade, sim…
– Como assim, pai? Você tem a oportunidade de ver uma Copa do Mundo, contar pros filhos, pros netos e foi contra?
– Ah, Theo. É que a gente pensou que tinha de investir em saúde, educação…
– Ué, mas o Brasil não ganhou mais dinheiro com a Copa? Não dava para investir assim mesmo?
– Ah… filho… é que naquela época a gente era engajado…
– Engajado. Hahahahahahaha.
– Ô César, não enche o saco. Você já atrapalhou demais. Some, vai!
– Puxa, pai. Se você pensava assim naquela época, então o senhor deve ter participado de várias manifestações contra os gastos com o Carnaval e a Festa do Peão, né?
– É, bem…

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Sobre jabuticabas e vira-latas

abril 2, 2014

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Não lembro quantos anos tinha quando ouvi, pela primeira vez, alguém falar que a jabuticaba existia apenas no Brasil. Só me recordo que o autor da frase o fez com certo orgulho, como se isso nos tornasse um país melhor (e como se não houvesse milhares de frutas endêmicas aqui e alhures).

É um orgulho inexplicável, a não ser que a pessoa em questão seja tarada por jabuticabas. Mas o fato é que ouvi essa conversa muitas vezes. Até que um dia a fruta se tornou vetor de outro argumento, tão esquisito quanto: o famigerado “é uma jabuticaba”. Se algo só existe no Brasil, basta incluir na expressão: “_______ é uma jabuticaba”.

Essa analogia é feita geralmente com conotação altamente negativa. O grande problema é que esse artifício deixou de ser um adereço argumentativo para se tornar um argumento por si só: algo é ruim porque só existe no Brasil. Ponto.

O argumento (ou a falta de) se tornou uma espécie de bíblia para uma espécie típica de nossas terras: o cidadão vira-lata. Para ele, o Brasil existe apenas para colecionar acontecimentos negativos e situações tragicômicas. E, desta forma, fazer sua população passar vergonha perante o mundo.

Como reconhecer um cidadão vira-lata

O cidadão vira-lata adora reclamar de tudo, mas para ele não basta criticar: é preciso enfatizar que o problema em questão é uma prova irrefutável do quão desmoralizado é o país. A rua está esburacada não porque o prefeito é um mau administrador ou porque a chuva foi forte demais, mas porque o Brasil é uma porcaria.

A linha de raciocínio deste personagem está escorada em um tripé de resmungos e constatações depreciativas, a saber:

1  Nada que exista somente no Brasil pode ser bom. Se fosse realmente algo positivo, existiria em outro país;

2 – A falta de parâmetros com outras nações não é impeditivo para decretar que somos a pior delas, em quaisquer aspectos;

3 – Quando alguma coisa ruim ocorre em outro país, pode ser uma exceção. Se acontecer no Brasil, certamente é regra.

 

Uma característica bem perceptível é a opinião preconcebida e imutável. Não adianta apresentar pesquisas, respeitadas internacionalmente, mostrando que o Brasil ocupa uma posição intermediária no ranking de corrupção, por exemplo. Para ele, somos o maior antro de ratos do mundo e se a pesquisa não chegou a essa conclusão é porque foi mal feita. Certo está ele, claro.

Talvez por isso o vira-lata goste tanto de telejornais policiais. Nosso personagem os assiste para manter bem alimentadas suas opiniões depreciativas. Ele precisa sustentar esse pequeno ódio dentro de si e se regala satisfeito a cada chacina, a cada assalto, a cada comentário selvagem do Datena ou do Marcelo Resende.

Ao cidadão vira-lata, o que importa é a opinião e danem-se os fatos. Se alguma informação vai ao encontro de seu pensamento, ele rapidamente o colhe, dissemina e os carimba com seus bordões preferidos de descontentamento. Se o fato é verdadeiro  ou não, é um detalhe.

“Ai, que absurdo”

Um exemplo urge ser lembrado. Recentemente, o Facebook foi varrido por postagens “informando” que Suzane Richthofen – condenada por planejar a morte dos próprios pais – havia sido designada para presidir a Comissão da Seguridade e Família da Câmara dos Deputados. “Só num país de merda como o Brasil isso poderia acontecer” foi o comentário recorrente. O fato de Suzane não ser deputada e estar presa na Penitenciária de Tremembé (SP) não significou nada para essas pessoas. Claro, nenhuma delas quer correr o risco de checar a informação e descobrir, para sua profunda tristeza, que a notícia não tem o menor fundamento. Vira-latas adoram boatos, não estrague sua alegria contando-lhes a verdade.

Para esses nossos amigos, não é preciso nem uma má notícia para endossar a imagem negativa que faz do país. Recentemente, fui testemunha de uma manifestação explícita de vira-latice, que me deixa pasmo até hoje. Em conversa com um casal de conhecidos, comentei sobre a série de vacinas que minha filha vinha tomando na época. Um comentário trivial, mas que mereceu um aparte insólito:

“Odeio vacina. É um absurdo. A gente fica com essa marca horrível no braço, que todo mundo enxerga de longe. No mundo inteiro, reconhecem a gente por causa disso. É a marca do brasileiro”.

Sim, meus amigos: a pessoa em questão conseguiu transformar algo absolutamente positivo (a imunização contra doenças mortais) em um motivo de vergonha. Consigo imaginá-la caminhando pelos corredores de um aeroporto, sendo ridicularizada por exibir uma horrenda e gigantesca chaga no braço direito.

Esse exército de descontentes atribui todos os problemas do país a outros. Eles nunca são responsáveis pelo que acontece na sociedade, mesmo fazendo parte dela. São sempre vítimas. Mal percebem que sua atitude é justamente uma das raízes de nosso atraso, porque incute o fatalismo, a sensação de que nada irá melhorar, porque é nosso destino ser uma nação miserável e problemática. Choram pitangas em vez de agir para tentar mudar o que consideram ruim.

Para eles, o Brasil não é um país feito de coisas boas e ruins, como todos os outros. É apenas um arremedo de nação, que coleciona vexames e infortúnios. E tendo como único consolo o sabor inigualável de uma jabuticaba.

Meu dia de torcedor coxinha

junho 17, 2013
"Nossa, vou postar minha foto no Instagram agora mesmo!"

“Nossa, vou postar minha foto no Instagram agora mesmo!”

Antes de mais nada, é preciso dizer: sempre sonhei em assistir a um jogo de Copa do Mundo, seja aqui ou no exterior. Quando era criança, simulava como seria o mundial em terras brasileiras, selecionando os estádios, criando sedes e subsedes.

O tempo passou. O Brasil, a Fifa e a Copa do Mundo mudaram. Para melhor e para pior em muitos aspectos. Uma destas mudanças afetou diretamente quem curte futebol no Brasil. Ingressos caros, torcida domada, patriotismo artificial etc.

Nem por isso me furtei a assistir a uma partida. A primeira providência foi ver a Copa das Confederações, importante sob vários aspectos, especialmente como teste, dentro e fora dos campos. Sem falar que talvez seja difícil ir a um jogo da Copa do Mundo, por vários motivos.

Por isso, assisti no último domingo a México x Itália, no estádio do Maracanã. Não foi apenas o Fábio trintão, casado e pai de família que viu o jogo no estádio. Foi também o jornalista que quis ver tudo com seus próprios olhos: se o estádio ficou legal, se o público é mesmo elitizado, se ver o jogo na arquibancada está sem graça e se a estrutura oferecida é o que prometem. E, claro, era também a criança realizando o velho sonho.

Impressões de um coxinha honorário

Um torcedor coxinha que se preze tem de levar a patroa ao estádio. Afinal, é futebol para a família. Evidentemente, nunca levei namorada, ficante ou pretendente para ver jogos comigo. Ela certamente fugiria de mim horrorizada antes dos cinco minutos de partida. E quem vai ao estádio torcer por seu time pode imaginar a razão.

Fomos eu e Érica para o Rio de Janeiro no dia do jogo. Logo de cara, um aspecto positivo. Descemos no aeroporto Santos Dumont, já informados de que os organizadores pensavam em criar um ponto de retirada de ingressos ali. Havíamos agendado a retirada no hotel Windsor Guanabara, no centro da cidade, e precisaríamos pegar um metrô. Se houvesse uma fila grande, perderíamos tempo precioso. Havia notícias de que no Galeão as pessoas levaram mais de três horas para pegarem seus tíquetes.

Mas o posto no Santos Dumont realmente estava aberto. A fila era minúscula e pegamos o ingresso em menos de 10 minutos. O único senão foi uma funcionária, desatenta, que nos disse que precisaríamos mostrar um comprovante de residência para provarmos que éramos residentes no Brasil. Claro que isso não era necessário.

Paulistas e palmeirenses

IMG_0914Pegamos o ingresso, fomos para o hotel e largamos nossas coisas lá. Fui para o jogo com minha camisa azul do Palmeiras (sim, a que homenageia o velho Palestra Itália). Mas, só para não ceder totalmente ao sistema, torci para o México.

E aqui entra um fato curioso: os palmeirenses foram em peso ao Maracanã. Mais de 6 mil pessoas saíram de São Paulo para ver a partida. A maioria, torcedores do alviverde, como foi possível perceber visualmente. Em alguns momentos, havia mais pessoas com camisas do Palmeiras do que da seleção brasileira ou mesmo do Fluminense e Botafogo.

No metrô, tudo tranquilo. Três estações foram destinadas como pontos de partida para o estádio (Maracanã e São Cristóvão, na Linha Verde, e São Francisco Xavier, na Linha Vermelha). Havia recomendações para descer em um determinado ponto, de acordo com o seu setor no estádio. Mas não havia impedimentos para que se escolhesse outro caminho. Como bom coxinha, segui o roteiro preestabelecido.

Descemos na Estação São Cristóvão e foi então que eu e Érica quase deixamos de ir ao Estádio. Havia ali um grupo de manifestantes protestando contra os altos gastos com a Copa das Confederações. Nosso coração balançou. Embora não sejamos contra a realização dos torneios, sabemos o quando houve de autoritarismo e intransigência na organização, fora os gastos abusivos. E defendemos o direito de protestar, ainda mais em um momento em que as autoridades usam de violência para calar os opositores. Mas fraquejamos e fomos ao Maracanã.

No Estádio

Para entrar, tudo tranquilo. Mesmo com muita gente um tanto confusa (a grande maioria jamais havia visto um jogo no Maracanã. Talvez sequer em qualquer estádio), os voluntários e funcionários trabalharam bem. O único problema foi no acesso aos deficientes, por onde alguns desavisados (inclusive nós) tentaram passar.

Como estamos em um estádio moderno, em um torneio da Fifa, todo cuidado com a segurança era pouco. Havia detectores de metal e o procedimento para a entrada era o mesmo exigido nos aeroportos. O policiamento era intenso, mas não ameaçador. A imagem truculenta ficou com os soldados destacados para impedir que os manifestantes chegassem perto. Lá fora, havia agentes das polícias Civil e Militar, além da Força Nacional, Tropa de Choque e Guarda Municipal, ameaçadores.

Ao entrar, nos deparamos com aquilo que havíamos lido tanto nos últimos dias: o abusivo preço dos lanches e bebidas. Cachorro-quente a R$ 8, um latão de Brahma custando NOVE DILMAS (a Budweiser era R$ 12)! Pegamos uma lata de Coca, uma cerveja e uma garrafa de água. Morreu em R$ 21. Mas coxinha que é coxinha paga com gosto, afinal, é um ambiente familiar.

E era mesmo. Muitos casais, crianças e famílias inteiras foram ao estádio em peso. Muitos, de fato, nunca haviam visto uma partida de futebol em um estádio. Estavam ali para conhecer o Maracanã, seja para visitar um cartão postal, seja para saber como ficou após a reforma. Sem falar nos turistas e nos (poucos) mexicanos e italianos que foram de fato torcer por sua seleção.

“E você, Fábio? O que achou?”

Novo estádio é bonito, mas não é mais o Maracanã

Novo estádio é bonito, mas não é mais o Maracanã

Que não é mais o Maracanã. Sem discurseira contra o futebol moderno, sem reclamar da realização da Copa, sem saudosismo. É lindo, moderno, confortável. Mas não é mais o Mário Filho. Mesmo quem não tenha visto um jogo no velho Maraca sabe disso. Hoje é um estádio padronizado, muito parecido com os outros desta Copa. Uma arena, enfim, com todo o simbolismo que essa palavra traz. Não lembra em nada o velho estádio.

O público que foi ao jogo também não. E por isso pude presenciar algumas bizarrices. A primeira delas foi ouvir de torcedores sentados logo atrás de mim uma reclamação: “Porra, o telão tá com defeito”. Sim, amigos: os caras queriam era ver o jogo por um dos quatro gigantescos e modernos telões, instalados em setores estratégicos. Olhar pro campo durante a partida deve ser coisa de ralé, mesmo.

Veio o intervalo e resolvi dar um mijão. Foi então que constatei algo que me deixou estarrecido: O BANHEIRO EXALAVA UM INTENSO AROMA DE EUCALIPTO! Não, meu amigo, não era cheiro forte de desinfetante barato. Era um aromatizante fino, algo que nunca senti nem em shopping center. Achei aquilo tão bizarro quanto aparecer um anão trepando com a mulher barbada, ambos devidamente nus, em um comício político. Saí de lá tão atordoado com o cheiro quanto com a inusitada constatação.

Durante a partida, mais curiosidades. Como se sabe, todos ficam sentadinhos no novo estádio. Os assentos são fixos, você não pode simplesmente sentar em qualquer lugar. Couberam a mim e à Érica as cadeiras 1 e 2 da fileira L, no bloco 229 do nível 2. Mas houve momentos de resistência. Alguns gaiatos tentaram sentar nas escadas, mas foram convencidos a saírem de lá.

De resto, é o que se imagina. A maior parte das pessoas mal olhava para o estádio. Eles ficavam conversando, quase nunca sobre futebol. Os assuntos variavam entre a última viagem para Ilhabela, as vicissitudes amorosas de si e de outrem e amenidades diversas. Érica, que sempre se emputece com quem vai ao cinema para não assistir aos filmes, se impacientou: “O pessoal vem aqui para tudo, menos para ver um jogo de futebol, né?”. Puxado.

Deslocado

A verdade é que me senti um estranho no ninho. Ninguém gritava, ninguém vibrava. As pessoas se animavam apenas em alguns momentos de ataque das duas equipes ou em algum lance do Balotelli, a grande vedete da partida. Nos momentos em que me levantei e xinguei o juiz e os bandeirinhas (uma atitude saudável de qualquer torcedor comum), me olharam como se eu estivesse fazendo um strip tease e balançando a pança na arquibancada. Os olhares de reprovação foram fulminantes.

O único momento verdadeiramente futebolístico foi quando flamenguistas e vascaínos entoaram alguns dos cânticos típicos das torcidas locais, nada que qualquer carioca não saiba. Mas valeu pela disputa entre as duas grandes torcidas do Rio. Quando a Itália marcou o gol da vitória, foi puxado o coro: “Uh, terror, Balotelli é matador”. Legal, mas nada demais.

Na saída, tudo azul novamente: todos saíram rápida e tranquilamente do estádio, sem incidentes. No metrô, mais uma prova da elitização do público: 90% das pessoas que pegaram o transporte público seguiram para a zona sul. Pouco antes de chegar à estação, vimos novamente os manifestantes, que cantavam o hino nacional. E aqui, um momento interessante: em nenhum momento eles hostilizaram os torcedores. Muito pelo contrário: chamaram a todos a também protestar. “Vem pra rua”, diziam. Quase ficamos novamente. Mas havia um avião a pegar e uma filha a esperar. E muita história para contar.

“Brazuca”, um nome que ainda vai pegar

novembro 10, 2012

Após uma votação rápida e tosca, ficou definido que a bola oficial da Copa do Mundo de 2014 se chamará BRAZUCA! O nome, tão criticado pelos brasileiros, derrotou outros ainda piores, como Bossa Nova e Carnavalesca(!). Os brasileiros, quase de forma unânime, declararam que venceu o nome menos pior.

E, de fato, Brazuca é um nome estranho, ao menos para nós brasileiros. Por ser uma expressão comum entre os surfistas (assim foi há muuuuuuuuuuuuuitos anos), seu uso por quem não é do métier soa extremamente forçado. É como o nerd que tenta parecer descoladão ou o tiozão que se esmera em se apresentar como um ser antenado com a juventude de hoje. Ao fim e ao cabo, “brazuca” é uma coisa Evandro Mesquita demais para ser proferida hoje em dia de forma impune.

Eu, assim como a grande maioria, detestei o nome, justamente pelos motivos acima. Mas depois de alguns dias, refleti um pouco a respeito e cheguei à conclusão: Brazuca não é tão ruim assim.

O principal fator que me fez reavaliar o tema foi o fato de estarmos falando de um torneio internacional, e não do Campeonato Brasileiro. Vamos ver a coisa do ponto de vista de um estrangeiro, que ignora a existência do Evandro Mesquita. O termo é sonoro, admitamos. Talvez ainda mais que Jabulani, nome da bola na Copa da África do Sul, em 2010, e que caiu no gosto de todos.

E podemos analisar a escolha do nome para a bola oficial da Copa anterior. Salvo engano, significa “celebrar” ou “celebração”, em um dos 11 idiomas falados na África do Sul. Tenho certeza que as outras etnias devam ter odiado a escolha.

Vamos aplicar o mesmo raciocínio da internacionalização do torneio para um nome que muita gente cogitou para a bola: Gorduchinha. Tratava-se de uma homenagem ao grande locutor Osmar Santos, que causou sensação do final dos anos 70 ao início dos 90, quando teve a carreira abreviada por um acidente de trânsito. Ele fez história ao criar expressões como “É fogo no boné do guarda” e “Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha”.

Quando a ideia veio à baila, achei sensacional, uma bela homenagem a um gigante do rádio brasileiro. Mas enfim, é um nome que não faria sentido algum para uma Copa do Mundo, não é mesmo? Acho que encontrarão formas mais bacanas de homenageá-lo sem transformar a Copa do Mundo em uma sequência de assuntos internos.

Acho que Brazuca, afinal de contas, é um nome que vai pegar. Esqueçam o Peterson Foca e apenas torçam para que os gringos não façam trocadilhos pobres com “bazuca”.

Outros textos

Confira o passeio à Patagônia Argentina, no blog Viajante em Tempo Integral

O fim de uma era

janeiro 4, 2012

É o fim de uma era. Não só para os palmeirenses, mas para qualquer pessoa que ama o futebol, que vibra com a raça de alguém que entra em campo com VERDADEIRO amor à camisa.

É o fim de uma era para aquele cara que xinga o goleiro desgraçadocuzãofilhodaputa que defendeu o pênalti do seu ídolo, mas que no íntimo sempre admirou o algoz. Para quem está cansado de ídolos de barro ou fabricado por marqueteiros.

É o fim de uma era para quem se indignou com atleta fazendo videozinho dizendo que quer voltar a jogar no mesmo clube que deixou para ganhar uns trocados a mais. Para quem acha o cúmulo jogador fraudar documento para dar a impressão de que recebeu proposta do exterior.

É o fim de uma era para quem sempre admirou os atletas autênticos, que falam os maiores absurdos quando estão com a cabeça quente, mas sempre admitem seus erros. Para aquele que é capaz de ver um jogo entre duas equipes que detesta apenas para ver um único jogador.

É o fim de uma era para o torcedor, de qualquer clube, que sempre sonhou em ter no seu time um atleta, surgido nas categorias de base, subir ao time principal e lá permanecer até o final de sua carreira, apenas e tão somente por ser seu time de coração!

MARCOS, NÃO É SOMENTE O PALMEIRAS QUE SENTIRÁ SUA FALTA, É TODO O FUTEBOL BRASILEIRO! Obrigado por tudo, inclusive pelas falhas!

Relato de uma família devastada pela fome na África

agosto 5, 2011

Após oito meses sem escrever nesta bodega, resolvi retirar as teias de aranha. No entanto, ainda não decidi no que transformar este blog. Até mesmo porque a falta de tempo para escrever o inviabiliza um pouco. Em breve (espero), terei uma resposta sobre o que fazer com este espaço. Até lá, envio um texto enviado pela assessoria de imprensa da Acnur (Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados) do Brasil. Bom pra você que se acha perseguido por Deus porque tomou um pé da namorada ou sujou o terno novo ao cair em uma poça de água.

O refugiado Abdulahi Haji Hassan olha para os rostos exaustos e confusos de sua família e contempla o dano que a seca e a fome provocaram em suas vidas. Madey, seu filho de dois anos, se apóia de forma apática no seio da mãe. Fama, sua filha de quatro anos, está coberta da poeira da caminhada de 27 dias pelo deserto – a família saiu de sua casa, no sul da Somália e caminhou até a fronteira com o Quênia.

Caminhar em direção ao refúgio não era uma questão de escolha. O sustento da família dependia dos rebanhos de animais. Suas 70 cabras e 30 vacas adoeceram e morreram uma a uma, à medida em que a pior seca negava água e alimentos aos animais. O rebanho era, em muitos aspectos, considerado parte de sua família e sua perda foi catastrófica.

Quando a última vaca morreu, todos sabiam que as crianças seriam as próximas. A mãe de Abdulahi lhe disse que deixasse o vilarejo. “Eu não quero que suas crianças morram de fome”, disse. “Vá a qualquer lugar onde possa conseguir ajuda e eu vou rezar para que você chegue lá a salvo”.

A família Hassan está entre os 1,3 mil refugiados somalis que chegam diariamente aos arredores dos campos de Dadaab, no nordeste do Quênia, incluindo Dagahaley. A capacidade do Acnur (Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados) para acomodar as pessoas recém-chegadas melhora a cada dia, mas a manutenção de uma cidade de 400 mil refugiados é assustadora. Recursos extras são necessários para proteger os vulneráveis, fornecer abrigo e garantir as necessidades de saúde.

Para aqueles que fogem da Somália, a primeira, e talvez a mais dolorosa missão, seja a jornada em si. A família Hassan organizou sua expedição junto com outras sete famílias. Eles levaram consigo tudo o que tinham; uma carroça feita a partir de um antigo eixo de carro, um saco de milho moído e um grande recipiente plástico contendo água.

Eles descansavam durante o dia e caminhavam durante a noite. Depois de uma semana, o tempo parecia duplicar. “Todas as noites que você viaja são iguais. Não existe noite boa ou noite ruim. Existe somente a noite”. disse Abdulahi. “Você pensa na situação de seus filhos, com qual deles você deve se preocupar. Eu me preocupava mais com o menor, é claro”. As crianças comiam pequenas porções de milho e água enquanto os pais na maioria das vezes ficavam sem nada.

A vida, o Belle e tudo o mais…

novembro 11, 2010

(escrito ao som dos discos “Dear Catastrophe Waitress”, “The Boy With the Arab Strap” e “Fold Your Hands…”)

Foto: Ale Vianna/ News Free/ AE

Acho que já escrevi aqui – ou no velho blog O Monoglota – a sensação que tive ao ouvir Belle & Sebastian pela primeira vez, lá pelos idos de 1999/2000. Peguei o “Tigermilk”, primeiro disco da banda, em uma locadora de CDs. Fiquei aturdido com o som. Logo nas primeiras canções, era possível observar uma série de referências musicais que eu conhecia, mas toda aquela informação junta formava algo totalmente novo para mim. Era um som que eu jamais havia ouvido antes.

 

Não demorou muito para que eu ficasse fissurado pela banda. Comprava discos, camisetas, procurava informações na internet. Tentei driblar ao máximo minhas limitações com o idioma de Shakespeare, agravada pelo fortíssimo sotaque escocês dos cantores da banda.

Fiquei fascinado por aquelas baladas agridoces e melancólicas, além das letras que falavam sobre solidão, amor e a sempre atual sensação de inaptidão com as relações humanas. Não demorou para que Belle & Sebastian (ou simplesmente B&S) se tornasse a minha banda favorita em atividade.

Percebia-se com facilidade, então, que muito do que havia naquelas letras dizia respeito a mim e a como me sentia em relação ao mundo. Eu me via como um outsider, um peixe fora d’água, mesmo que estivesse rodeado de amigos.

O tempo passou e a vida foi caminhando, como tem de ser. Me formei, comecei a trabalhar como jornalista, enfrentando os perrengues de sempre. Mas continuava sendo um outsider, ouvindo Belle & Sebastian como se fosse um guru, alguém que me desse a mão e me dissesse o que fazer.

Minha procura por informações sobre a banda me fez entrar para uma lista de fãs. Ali, fiz muitos amigos espetaculares, com quem convivo até hoje. E em torno das pessoas desta lista, conheci outras e mais outras e, depois de muito tempo, me senti parte de um grupo, uma comunidade, uma turma.

Os anos se passaram e, mais uma vez, o mundo foi dando voltas. Tomei um susto ao ouvir o sexto disco do Belle & Sebastian, “Dear Catastrophe Waitress”. Senti a banda mudando, não parecia a mesma que eu havia conhecido anos atrás. A impressão se fortaleceu com o disco seguinte, “The Life Pursuit”, muito superior ao anterior e que solidificaria os novos rumos musicais. Era a banda amadurecendo.

 Demorou para eu perceber que a banda não era a única a ter mudado. Minha vida havia voado, como se carregada pelo vento, e passou por alterações profundas. Aprendi muito sobre como lidar com o mundo e as pessoas. Em alguns casos, me recusei a aprender. Mas não podia mais alegar inocência.

E tudo só serviu para tornar ainda mais forte os elos que tenho com o Belle & Sebastian. Porque ela não se tornou uma banda de uma época, que perderia sua relevância com o passar do tempo. Também não faziam aquele tipo de som tido como “atual”, mesmo quando imutável. A banda havia crescido, como eu também cresci.

Ao final das contas, ainda sou um adolescente escondido em um corpo de adulto. Continuo tendo muitas dúvidas, medos e angústias do passado. Mas hoje me sinto muito mais forte para resistir, por conta de tudo que passei e vivi. E percebi que, desde aquele dia perdido no final do século XX em que ouvi “The State I Am in” pela primeira vez, o Belle & Sebastian tem caminhado comigo, crescendo, falhando e insistindo da mesma maneira, quase que de forma sincronizada.

Tudo isso passou pela minha mente enquanto ouvia cada canção executada pela banda no maravilhoso show do Via Funchal, neste dia 10 de novembro. Dancei com as músicas dos discos mais recentes, vibrei ao ouvir as belíssimas faixas do disco recém-lançado, “Write About Love”. E me senti levitando ao ouvir as canções dos primeiros álbuns, que tanto me marcaram.

O show, que tinha tudo para ser espetacular, ganhou contornos ainda mais especiais. Primeiro por ter sido a primeira vez que eu os via ao vivo, pois havia perdido a antológica apresentação de 2001. E em segundo lugar porque eu passei o show todo ao lado da mulher da minha vida, que tem compartilhado todas as minhas vitórias e derrotas há seis anos.

Era também a nossa história que estava sendo cantada ali, naquele palco. As mesmas músicas que eu havia apresentado a ela logo que nos conhecemos e notamos nossas afinidades. A mesma música que escolhemos para ser tocada em nosso casamento, entre tantos outros momentos.

Na noite de 10 de novembro vi mais que um show. Presenciei a vida a passar diante dos meus olhos, como ocorre com as pessoas que encaram seus últimos momentos. No entanto, ao contrário do que diz a tradição, para mim a existência está apenas começando.

Os textos, as metas, os prazos…

setembro 28, 2010

Não foi com um grande susto que entrei no meu blog e vi que meu último texto foi postado no dia 23 de julho (e um texto descaradamente corrido, diga-se). Ou seja, quase dois meses. Se desconsiderarmos o anterior e levar em conta apenas os textos escritos com um mínimo de decência, acrescente aí um tempo ainda maior.

Curiosamente, não me faltaram ideias nesse meio tempo. Durante a Copa do Mundo, tinha tantos assuntos a respeito do torneio que cheguei mesmo a pensar em transformar o Ora, Pílulas! em um blog temático (ou mesmo criar outro). A falta de tempo para escrever (e minha incapacidade para criar um template apresentável) se encarregou de atravancar tudo.

A Copa passou, mas a vontade de escrever não. Já pensei em escrever sobre a disputa presidencial, mas desencanei quando vi que ia escrever, em alguns momentos, com a bile (ou bílis, como queiram). E também houve a falta de tempo, esta conhecida.

Mas nunca pensei em abandonar este espaço. E percebi que o intervalo foi bom para maturar algumas ideias. Que estarão aqui em breve.

Já começo a preparar alguns textos. Como não consigo postar a cada dois ou três dias, a exemplo do que acontecia antes, pretendo aproveitar os intervalos (pretendo postar aqui uma vez por semana) para escrever mais textos longos. Sempre haverá espaço aqui para pequenos comentários ou imagens que valham a pena. Mas os glóbulos do meu sangue estão cheios de notícia, não há como fugir.

Até daqui a pouco!

Pedagiômetro

julho 23, 2010

A ideia da Associação Comercial de São Paulo ao criar o “impostômetro” – indicador que mostra quando o governo arrecada com impostos – pelo visto, pegou. Uns gaiatos resolveram criar uma espécie de “resposta” e lançaram o “pedagiômetro”, mostrando quanto as concessionárias conseguiram arrecadar este ano nas estradas paulistas.

Gostei tanto da ideia que resolvi inclusive deixar o índice aqui, correndo. Mas como não consegui, você pode saber mais sobre o “pedagiômetro” clicando aqui

Morumbi derrubará a Pauliceia da Copa 2014

junho 20, 2010

Há muito tempo queria voltar a escrever sobre a escolha do estádio do Morumbi como sede paulista para a Copa de 2014. Muito tempo se passou e os fatos correram e atropelaram uns aos outros. Agora, só se fala na decisão da Fifa/CBF de que o estádio não abrigará nenhum jogo da Copa. Evidentemente, o assunto não será esquecido tão cedo, pois a repercussão continua grande. E, como não poderia deixar de ser, a imprensa esportiva tem criticado furiosamente a Fifa e a CBF pela decisão. Com isso, acho pertinente fazer algumas rápidas, mas importantes observações acerca do chororô generalizado que surgiu na imprensa paulista desde então.

A primeira delas é que choveram críticas à eliminação do Morumbi. E a principal alegação dos defensores do estádio é que, por causa disso, a cidade de São Paulo não abrigará a abertura da Copa, e talvez nenhum outro jogo. O comentário é típico de quem analisa os fatos de forma superficial e não se aprofunda nele. Ninguém percebeu que acontece justamente o contrário: a insistência em emplacar o Morumbi, sim, é que pode condenar a cidade ao ostracismo durante a Copa. E, pelo visto, é o que pode realmente acontecer, dados os atuais acontecimentos.

Quem já foi ao menos UMA vez ao estádio são-paulino para assistir a uma partida sabe que ele é horrível e mal planejado. Do anel inferior, não se vê quase nada. No anel intermediário, o que não faltam são pontos cegos. E no anel superior, só o que se vê são 25 pontinhos correndo de um lado para o outro, mal dá para reconhecer os jogadores ou mesmo o trio de arbitragem.

Como já tinha visto jogos no Pacaembu e Palestra Itália, estádios com ótima visibilidade, sempre atribuí a deficiência do Morumbi ao seu tamanho imponente. Mas tive uma grande surpresa no ano passado, quando visitei o Maracanã, um estádio muito maior que o Morumbi: a visibilidade é perfeita, mostrando que o problema do estádio paulista, definitivamente, não é o tamanho.

Qualquer pessoa com um mínimo de isenção teria desconfiado que havia algo errado quando o Morumbi entregou SEIS projetos diferentes para a Fifa. Se precisaram de tantas versões novas é porque as anteriores eram defeituosas. E das duas, uma: ou os projetos previam apenas alterações estéticas ou eram faraônicas o suficiente para que todos percebessem sua inviabilidade financeira.

Não demorou muito para que alguns viessem falar em “decisão política”, ignorando o fato de o estádio ser muito ruim. Lógico que houve decisão política, já que a diretoria do SPFC anda em atrito com Ricardo Teixeira, o capo da CBF. Mas isso não muda o fato principal: o estádio não tem a menor condição de abrigar um jogo de Copa. Mesmo que a CBF defendesse com unhas e dentes o Morumbi, uma hora a Fifa perceberia o engodo e todos teriam de ceder à realidade. Antes agora do que mais tarde, quando haveria menos tempo ainda para buscar uma alternativa.

A imprensa esportiva paulista colocou venda nos olhos e agiu com parcialidade absoluta. Ninguém fez o que se espera de um jornalismo correto: apurar e analisar os fatos. Ninguém fez uma matéria isenta sobre as qualidades e defeitos do estádio, ninguém citou a ausência de estacionamentos, as péssimas condições estruturais do estádio e, o mais importante, a dificuldade financeira que o clube teria para adequar sua casa ao mundial.

Se esqueceram também que os projetos apresentados à Fifa eram apenas uma pequena variação do famigerado “Morumbi, Século XXI”. Para quem não lembra ou não sabe do que se trata, eu explicarei. O tal “Morumbi, Século XXI” surgiu no início dos anos 90 e era à primeira vista um ambicioso trabalho para tornar o local um estádio de Primeiro Mundo. Os esboços previam até a cobertura total do estádio, mas na verdade tinha como único objetivo arrecadar recursos, públicos inclusive, para fazer reformas básicas no estádio. Na época, o local sofria com graves problemas estruturais, que podiam resultar até mesmo em interdições parciais. Ou tragédias como a que ocorreu na Fonte Nova.  Na época, o clube era presidido pelo Mesquita Pimenta, aquele que depois foi defenestrado do SPFC após escândalos de corrupção.

Cansei de falar, em blogs, conversas de bar ou no trabalho, que o Morumbi é um caso clássico de estádio inviável. Tava mais que na cara que seria muito mais barato construir uma arena nova em folha que reformar o local. Mas foi preciso apresentar um estudo técnico para que alguns acreditassem. E, mesmo assim, alguns se recusam a aceitar a realidade.

E é aí que entram os deturpadores da verdade, gente que só se importa com o próprio benefício. Essas pessoas quiseram colocar o Morumbi na Copa a qualquer custo, sem se importar com a cidade de São Paulo, que é o que realmente importa. Quando perceberam que o Morumbi não teria muita chance, tentaram adiar o fim melancólico, cientes de que quanto mais insistissem, menos tempo haveria para apresentar uma segunda opção. Insistiram ao máximo no seu estádio para inviabilizar todas as outras alternativas.

E para quê? Para prejudicar a cidade de São Paulo e posarem de vítimas. Então, quando Belo Horizonte ou Brasília fossem anunciadas como local de abertura, eles iriam espernear e alegar que a CBF destruiu os sonhos de São Paulo.

Mas quem analisou o caso desde o início sabe que não é verdade. Os dirigentes do São Paulo Futebol Clube sabotaram a cidade para fazer valer seus interesses. Já que eles não conseguiram seu principal objetivo (obter recursos públicos para reformar completamente seu estádio), se contentam em tirar a Copa da cidade.

Tudo seria diferente se os responsáveis pela escolha do estádio tivessem tomado uma posição firme e dissessem, desde o início, que o Morumbi não tinha condições de receber a Copa. Porque então procurariam uma alternativa viável em tempo hábil. Agora, pode ser tarde demais.

Obrigado, dirigentes do São Paulo Futebol Clube. Graças a vocês, a maior cidade do país pode ficar fora da Copa!