E se os mitos envelhecessem?

O senhor Michael Jackson morreu e, como não poderia deixar de ser, se falou tanto de sua contribuição para a música pop e de seu astronômico sucesso no auge da carreira quanto da sucessiva onda de acusações e bizarrices. E, claro, as opiniões se dividiram? MJ merecia ser lembrado pelo que fez na música até 1987 ou pelo que fez fora dela?

Esse dilema, na verdade, me fez pensar em outra coisa: vale a pena para um mito viver muito? Sim, é um pensamento terrível e desagradável, mas havemos de convir: a maior parte dos grandes artistas não raro se perdem em sua vida pessoal. Michael Jackson se foi muito jovem, e mesmo assim arrumou confusão demais para tão pouco tempo. Imagine se durasse um pouquinho mais?

Vou mais além: o que aconteceria se alguns dos grandes ícones da música vivessem um pouquinho mais? Eis alguns prognósticos:

John Lennon

– Em 1982, Lennon volta à Inglaterra para protestar contra a Guerra das Malvinas, mas é solenemente ignorado. Resolve aparecer na avenida 9 de Julio, em Buenos Aires, para dar apoio aos oprimidos sul-americanos. Estes, no entanto, tomam o protesto como provocação e partem para a porrada. A tropa de choque chega a tempo de impedir um linchamento.

– Dois anos depois, após Paul McCartney e Michael Jackson gravarem juntos, Lennon resolve dar uma resposta à altura: convida a jovem Madonna para um disco em conjunto. A sugestão do ex-beatle é um disco conceitual chamado “Two Virgins – again”, em que ambos apareceriam nus na capa. Madonna recusa a sugestão e lança “Like a Virgin”. Lennon a processa por plágio, dias depois de tomar uma bota de Yoko Ono.

– Sem sua alma gêmea, o genial beatle perde o rumo: se afunda na cocaína e protagoniza uma série de escândalos em bares, discotecas e no Pentágono. Convidado para participar do Live Aid, em 1985, é expulso do projeto após tentar agredir Paul e chamar Bono Vox de “efeminado” e Freddie Mercury de “africano enrustido”. Seus últimos discos são ignorados pelos fãs e trucidados pela crítica.

– A redenção chega apenas no final dos anos 80, quando conhece Camilla, uma mulher por quem se apaixona. Ambos se casam em 1989, numa cerimônia que encantou o mundo. No entanto, em 1992, Lennon assiste na TV a divulgação de um diálogo gravando entre sua nova mulher e o príncipe Charles, em que este declarar querer ser o tampax da dita cuja. Dois dias depois, Lennon é encontrado morto em sua banheira, por overdose induzida. Ao lado, uma carta, com os dizeres: “Marat é a puta que o pariu!”

Cazuza

– Em 1986, Cazuza choca o País ao declarar que é portador do vírus da Aids. No entanto, exames confirmam que ele se enquadra entre os casos raros de portadores que não adquirem os sintomas da doença. Vida que segue.

– Em 1988, o artista grava seu melhor disco: “Ideologia”. No entanto, não consegue o reconhecimento devido. Os shows ficam vazios, a crítica classifica o álbum como “hipócrita” e diz que as letras são fruto da “culpa de um filhinho de papai”. Luiz Antônio Giron, que já havia dito que Rita Lee chegou à “menopausa criativa”, afirma que o disco deveria se chamar “Demagogia”.

– Apesar da crise na carreira, a vida de Cazuza continua como antes: sexo, drogas e rock’n roll. Muitas confusões em hotéis e bares. Mas por algum motivo, a antiga condescendência para o gênio do rock nacional dá lugar às notícias negativas na Imprensa. A revista “Veja” coloca o artista na capa, com o título: “Cazuza, um portador da AIDS barbariza em praça pública”. A matéria fica ainda mais apimentada quando vários amigos declaram ter sido infectados por Cazuza e o acusam de ter ocultado a todos que estava com a doença. Ney Matogrosso é o nome mais conhecido.

– Em 1993, uma empregada doméstica o acusa de o ter estuprado, ainda no final dos anos 70. O caso toma proporções gigantescas quando várias outras ex-empregadas da família do cantor aparecem com a mesma acusação. Mas os casos são arquivados quando o advogado consegue convencer o júri que o autor dos crimes era, na verdade, o ator Lauro Corona, falecido anos atrás.

– Em 1998, Cazuza e Frejat anunciam o retorno da formação clássica do Barão Vermelho. Juntos, gravam cinco discos: “Acústico MTV”, “MTV ao vivo”, “Acústico Volume 2”, “MTV ao vivo volume 2” e “Barão Vermelho e Titãs, juntos e ao vivo”. Em 2005, o Barão Vermelho encerra definitivamente as atividades, com a morte prematura de Frejat, vítima da AIDS. Cazuza morreria de overdose em 2007 mas, antes disso, gravaria mais um disco ao vivo, em que protagoniza duetos com as vozes gravadas de Frejat e Ney Matogrosso, em um disco que emocionou os fãs.

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5 Respostas to “E se os mitos envelhecessem?”

  1. Érica França Says:

    Também fico pensando no que Renato Russo teria feito. Gostei do texto. Quanta criatividade, não? rs. Beijos.

  2. Evaldo Novelini Says:

    A ideia da Érica é boa. Como seria Renato Manfredini se não tivesse morrido tão jovem?

  3. josue mendonca Says:

    acho que seria mais ou menos isso mesmo….rs

    abraço

  4. Moi Says:

    “- Em 1993, uma empregada doméstica o acusa de o ter estuprado, ainda no final dos anos 70. O caso toma proporções gigantescas quando várias outras ex-empregadas da família do cantor aparecem com a mesma acusação. Mas os casos são arquivados >>>quando o advogado consegue convencer o júri que o autor dos crimes era, na verdade, o ator Lauro Corona, falecido anos atrás<<<."

    Em que parte da Sibéria eu estava quando isso aconteceu? Não lembro, mas googlarei freneticamente 😀

  5. E se os mitos envelhecessem? (2) « Ora, Pílulas! Says:

    […] aqui e leia a primeira parte do […]

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