Archive for setembro \29\UTC 2009

A realidade paralela de Veja

setembro 29, 2009

Não é de hoje que o Brasil sofre com o mau jornalismo, seja em política, cultura, esportes ou qualquer outro assunto. Matérias mal escritas, apuradas nas coxas ou simplesmente tendenciosas sempre foram maioria, e não é de hoje. Mas há algum tempo que caminhamos para um terrível caminho: o do jornalismo de ficção. E não, não falo de “new jornalism”, Tom Wolfe, Gay Talese e afins. Me refiro à ficção, mesmo. A matérias que criam realidades paralelas e contam fatos inexistentes, em vez de focarem acontecimentos reais.

A revista Veja tem sido a expressão máxima deste tipo de jornalismo. Nas páginas do maior semanário do País, a notícia é alvo de uma impiedosa mutação genética. Seus editores e repórteres nunca pareceram se preocupar com a falta de exatidão nas informações, as barrigas gigantescas ou as contradições latentes. Mas desta vez eles extrapolaram os limites do bom senso.

A capa desta semana fala sobre a posição brasileira frente ao golpe de Estado em Honduras. Para quem não sabe, o Brasil foi o país que tomou a posição mais firme em relação à deposição ilegal do presidente Manuel Zelaya: se colocou frontalmente contra o fato e ainda acolheu o sujeito em sua embaixada em Tegucigalpa, o que tem rendido dissabores com os golpistas.

Como toda posição firme, o asilo político oferecido por Lula e pelo ministro Celso Amorim é polêmico e, por isso mesmo, passível de críticas. A Veja teve uma ótima oportunidade para fazer uma grande matéria sobre o assunto, com notícias reais, mostrando o quadro real de Honduras, criticando a ação do Brasil se assim prefere. Mas a revista preferiu investir na realidade paralela. Quem ler a reportagem sobre o assunto, verá que Honduras é um país que passa por uma transição democrática, que destituiu seu presidente de forma legal e que o novo governo é alvo da intransigência do Brasil, que está “na contramão do mundo”. E que Lula teria “quebrado sua tradição diplomática” por influência de, vejam só, Hugo Chávez. Depois de tanta ficção, vamos aos fatos:

1) Lula não quebrou tradição nenhuma. O Brasil sempre foi chegado em oferecer asilo pra meio mundo, inclusive criminosos, como Ronald Biggs, e ditadores sanguinários, como o general paraguaio Alfredo Stroessner. Porque não o faria a um presidente deposto ilegalmente?

Zelaya2) É bem verdade que Zelaya, como muitos outros presidentes latino-americanos, aprontou das suas. Desafiou as forças dominantes de seu país com um histrionismo patético e não conseguiu o apoio político e popular para alterar a constituição. Daí a achar que o golpe de estado foi uma ação legítima vai uma grande, uma enorme distância.

3) Nenhum país sério reconheceu o novo governo de Honduras. Os grande veículos de comunicação do mundo tratam o caso como golpe de fato. O jornal britânico “The Independent”, chama o atual presidente de “impostor”. Onde está a propalada “contramão do mundo”?

4) Dizer que o Brasil foi pressionado por Chávez no caso Honduras é como dizer que o Brasil tem mais poder político que os EUA, já que Obama não reconheceu o novo governo hondurenho, mas até agora ficou na dele. E, sim, Chávez é um chato de galochas. Mas reconhecer um governo golpista só pra contrariá-lo seria o cúmulo da infantilidade.

5) Até mesmo publicações hostis ao governo Lula, como a Folha de S. Paulo, tratam Honduras como um país sob golpe de estado. Aqui e ali surgem críticas à ação do Brasil, mas em nenhum momento tentam legalizar a situação hondurenha ou criar uma situação inexistente.

Essa reportagem mostra o quanto a Veja perdeu o senso de ridículo. Ela definitivamente abandonou o jornalismo e todas as responsabilidades advindas do fato de ser a revista de maior circulação no país e também a única fonte de informação para muita gente. São fatos como esse que dão força à tese de que, pior que não ler nenhum jornal ou revista, é ler apenas um.

Na Sibéria não tem nada disso (6)

setembro 24, 2009

CAPÍTULO FINAL? 

– (atendente) Bom dia…
– (otário) Péssimo dia. Quero cancelar minha internet porque vocês não têm competência para mantê-la funcionando. E nem pra registrar os pagamentos de mensalidade que eu faço para vocês. Paguei todas as contas e vocês ainda ficam com história de que não paguei a do mês de janeiro.
– (atendente) Perfeito. Qual o número do cliente?
– (otário) É tal.
– (atendente) E o número do protocolo?
– (otário) Ah, meu Deus. É tal.
– (atendente) Perfeito. Qual a razão de o senhor pedir o cancelamento?
– (otário) Preciso repetir ainda, meu filho? Vocês não conseguem manter minha internet funcionando por mais de um mês seguido. Depois não conseguem registrar meus pagamentos e vêm me cobrar por algo que eu já paguei. Depois eu levo o comprovante e mesmo assim vocês cortam minha internet quase toda semana. Você ainda me pergunta porque eu quero cancelar essa porcaria de internet? Escreve aí: “o cliente quer cancelar porque acha o serviço uma merda”!!!
– (atendente) Perfeito. Aguarde um momento…

Fiquei uns quinze minutos esperando, até que a linha caiu. Liguei de novo. Respirei fundo enquanto ligava novamente. Outro rapaz atendeu e tive de passar pelo mesmo diálogo, até chegar ao ponto em que estávamos antes da linha cair. Inclusive esperar mais uns 15, 20 minutos.

 – (atendente) Senhor Fábio, ainda consta um débito aqui.
– (otário, irritado) Eu já expliquei pra você, eu paguei essa conta e inclusive já levei o comprovante. Cansei de explicar isso pra vocês. Toda semana é a mesma coisa. Por isso que vou cancelar.
– (atendente) Correto, senhor. Mas vou explicar porque a sua conexão foi desligada.
– (otário, mais irritado) Eu já sei porque desligaram. Não quero mais saber de nada. Quero que você cancele minha conta e pronto.
– (atendente) Tudo bem, senhor, mas é que tem uma razão para a linha ter sido desligada.
– (otário) Sim, eu sei. E eu já expliquei porque vocês precisam religar. Mas não adianta. Já liguei várias vezes ontem, hoje também e não resolvem meu problema.
– (atendente) Senhor, mas a justificativa é que…
– (otário, agora falando pausadamente) Meu amigo, são 9h10. Estou ligando pra vocês desde umas 8h15. Estou há praticamente uma hora pedindo pra vocês religarem minha internet e não ligam. Já paguei as contas, já levei comprovante e nem isso adiantou. Pra que eu vou ficar com um serviço que não presta? Agora eu tô pedindo pra vocês cancelarem e você me vem com justificativa? Olha, de desculpas, assim como de boas intenções, o inferno está cheio.
– (atendente) Mas…
– (otário, ainda falando pausadamente) Vamos fazer o seguinte: você cancela minha conta, eu não preciso mais ficar gritando na sua orelha, você vai poder atender outras pessoas e eu vou cuidar da minha vida. E todos nós ficamos felizes para sempre. Que tal?
– (atendente) Correto, senhor. Vou cancelar. Aguarde um momento.
– (otário) Tá bom…
– (atendente) Senhor, o pedido de cancelamento já está cadastrado. No dia 22 iremos retirar o equipamento da internet.
– (otário) Como assim, dia 22?
– (atendente) É que só temos esse dia disponível.
– (otário) Quer dizer que eu tenho de me adequar à agenda de vocês porque vocês não têm ninguém pra fazer esse trabalho outro dia? Não vou deixar de fazer meus compromissos porque vocês só podem vir nesse dia. Hoje ainda é dia 2!!!!
– (atendente) Mas então o senhor marca outra data.
– (otário) Ah, tá bom. Marca pro dia 22. Se eu não puder, eu ligo. Obrigado por nada.

 Quando sai o próximo trem pra Vladivostok?

A arte da mudez está esquecida

setembro 15, 2009

História contada por um jornalista são-paulino, que encontrou em um evento dois ex-jogadores de seu clube: Raí e Leonardo.

– (jornalista) Raí, eu sou seu fã! Desde pequeno! Me lembro até hoje do gol que você fez contra o Barcelona, de falta, lá no Japão. Que golaço!!!

– (Raí) Obrigado.

– (Leonardo) Puxa, que legal ver que os torcedores gostam dos gols que a gente marca, que guardam essas recordações. Você lembra de algum gol meu?

– (jornalista) Olha, de você eu só lembro aquela cotovelada na Copa…

A Copa de 2014 e o jornalismo acrítico

setembro 11, 2009

Tá difícil...Acompanhar a imprensa esportiva hoje em dia é um esforço de paciência e boa vontade. Ao ler uma matéria em qualquer veículo, você vai encontrar reportagens com um peso e duas medidas, acusações sem provas e matérias abordando apenas um lado da noticia. E então surge a dúvida: os jornalistas estão cada vez mais despreparados ou eles são simplesmente tendenciosos mesmo?

Estas dúvidas ganharam ainda força com o início dos preparativos do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014. A cidade de São Paulo enfrenta problemas sérios por conta do local escolhido para receber os jogos, o estádio Cícero Pompeu de Toledo, mais conhecido como Morumbi.

O estádio do São Paulo Futebol Clube foi construído numa época em que era praxe construir praças de esporte gigantescas, com capacidade de público gigantesca, mas sem muitas preocupações com o conforto e/ou segurança. Além disso, tem graves desvantagens em relação a seus contemporâneos: não possui áreas livres em seu entorno, o que torna praticamente inviável atender a algumas exigências básicas da Fifa, como ampla área para estacionamento. E há muito tempo não vê uma reforma decente.

A solução seria apresentar um arrojado e caríssimo plano de reestruturação do estádio, com o apoio da iniciativa privada. O problema é que com o dinheiro necessário para tal reforma seria possível construir uma arena novinha em folha.

A cobertura é praticamente a única grande intervenção no incompleto projeto do Morumbi

A cobertura é praticamente a única grande intervenção no incompleto projeto do Morumbi

Sem outra saída, a diretoria do São Paulo tentou jogar o pó pra baixo do tapete: divulgou aos quatro ventos um projeto mal-feito porém chamativo, declarou que tinha cumprido 85% das exigências da Fifa para a Copa e que tinha condições de receber o jogo de abertura. Para completar, o presidente do clube, Juvenal Juvêncio, afirmou que tudo seria custeado com ajuda da iniciativa privada, já que várias empresas disputavam a primazia de tocar as obras.

E aí reside o problema. Nenhum jornalista questionou a diretoria do São Paulo sobre estes 85%. Ninguém averiguou quais itens estavam faltando no projeto e porque eles não estavam incluídos, tampouco sobre a ausência do estacionamento na documentação, algo difícil de ser ignorado.

Semanas depois, Juvenal Juvêncio veio a público alegar que o clube não teria condições de tocar o projeto sem contar com empréstimos do BNDES. Mas onde estavam as várias empresas que pretendiam reformar o Morumbi para a Copa? Bom, nenhum jornalista se deu ao trabalho de perguntar.

Em várias ocasiões, dirigentes da Fifa alegaram que a documentação enviada pelo São Paulo estava incompleta. Juvenal Juvêncio, porém, insistia no erro: dizia que o estádio estava 85% adequado e mais não dizia. Os repórteres, preguiçosos, se limitavam a defender o ponto de vista do dirigente brasileiro, sem checar os fatos e ver quem estava com a razão.

A situação chegou a um nível insustentável esta semana, quando Jérôme Valcke, o poderoso secretário-geral da Fifa, afirmou com todas as letras que o Morumbi não tinha a menor condição de receber a abertura da Copa e que a cidade de São Paulo deveria começar a procurar uma outra opção.

Juca Kfouri, aquele, saiu em defesa do São Paulo

Juca Kfouri, aquele, saiu em defesa do São Paulo

E o que fizeram os jornalistas? Em vez de questionarem a veracidade das declarações anteriores do presidente são-paulino, resolveram atacar Valcke, como se ele tivesse algum interesse em preterir este ou aquele estádio. Juca Kfouri, moralista de plantão, chegou a dizer, com todas as letras, em seu visitado blog, que o secretário-geral da Fifa estava “sabotando” o Morumbi.

A verdade é que os jornalistas de São Paulo, por bairrismo ou algum outro motivo desconhecido, defenderam o Morumbi de forma assustadoramente acrítica. E sequer se tocaram que, ao insistir em uma barca furada, a maior cidade do País corre sério risco de não sediar a abertura da Copa ou nenhum outro jogo importante.

Waldick sem caetanismos

setembro 7, 2009
Waldick em seu habitat: o inferninho

Waldick em seu habitat: o inferninho

Faz um ano que assisti a “Waldick, Sempre no Meu Coração”, documentário sobre o cantor brega Waldick Soriano, durante a cobertura do Festival de Cinema e Meio Ambiente de Guararema. O filme, que entrou em cartaz na semana passada, marca a estréia da atriz Patrícia Pillar na direção e mostra o artista já combalido pelo câncer, que o mataria em 2008.

Fui para a exibição ao ar livre à espera de uma verdadeira bomba. Menos pela breguice extrema do biografado e mais pelo receio de caetanizarem o sujeito, assim como já fizeram com Odair José, Peninha e tantos outros, que de uma hora para outra viraram cult.

Na minha imaginação, o filme começaria com Caetano Veloso falando do quanto Waldick era injustiçado pelos “intelectuais da imprensa paulista” e como ele era um artista genuíno. Em seguida, apareceria o Tom Zé ou o Jorge Vercilo falando que ele é a “síntese do Brasil profundo” e que sua música era o retrato de um povo. Em dado momento, apareceria o Hermano Vianna ou coisa que o valha dizendo que Waldick Soriano lembrava Johnny Cash. Para encerrar o filme, várias bandas de rock descoladas fariam covers de “Eu não sou cachorro, não” e “Perfume de Gardênia”. Tétrico, pra dizer o mínimo.

Filme de Patrícia Pillar é um registro honesto sobre Waldick

Filme de Patrícia Pillar é um registro honesto sobre Waldick

Mas, graças a Deus, não foi nada disso o que vi em Guararema. O ambiente retratado no filme é uma cópia perfeita de seu personagem principal: ou seja, brega até a medula. Brega são as músicas, os locais onde Waldick se apresenta. Brega são seus fãs e, principalmente, boa parte das mulheres com quem se relacionou e que aparecem no filme.

Patrícia Pillar acompanha Waldick em vários shows. Nas cidades pequenas, ele canta na praça central, sempre lotada. Nas metrópoles, se apresenta em boates de quinta categoria, com aquele clima indefectível de inferninho, ainda mais realçado pelas suas músicas.

Entre uma apresentação e outra, a vida pessoal de Waldick vai se delineando na tela: boêmio e com fama de conquistador, o cantor vive sozinho no final da vida, por escolha própria, se afastando dos antigos amores e mesmo da família. Há cenas dele com seu filho, com quem tem uma relação tensa. Em dado momento, ele vira as costas, ignorando as queixas do filho, e começa a tomar um copão de uísque.

Os depoimentos dos fãs proporcionam os melhores momentos do filme: tiozinhos chapados se emocionam ao falar do ídolo. Prostitutas colocam vinis de Waldick para tocar enquanto esperam clientes na porta de casa. E por aí vai.

Ainda aparecem velhinhas acabadas lembrando de seu namoro com Waldick numa distante juventude, além da última grande paixão do artista, lamentando sua opção por continuar como um lobo solitário, mesmo corroído pelo câncer.

Patrícia Pillar estreou bem na direção, com um filme direto, sem frescuras, e que mostra o crepúsculo de um cabra macho, numa época em que, aliás, os homens vivem um tenebroso fim de feira.

A arte da embromação

setembro 2, 2009

– Boa tarde, eu tenho um cartaz e queria enquadrá-lo. Quanto é que custa?

– Veja bem…

– (pensando) Puta que pariu, lá vem…

– … pra saber o preço é muito relativo. Depende de um monte de coisa.

– Ah, sim. Eu queria uma moldura exatamente como essa aqui (aponta para um quadro).

– Olha, não dá pra saber exatamente o preço. Você tem de dizer o tipo de moldura, da cor, o material, se vai com vidro ou não…

– Então, mas eu quero uma moldura exatamente como essa. Igualzinha.

– Ah, mas você tem de ver se o material da moldura que você vai utilizar é de madeira, de plástico, de aço, adamantium etc.

– Sim, moça. Mas eu quero exatamente essa moldura. O mesmo desenho, o mesmo material, o mesmo tipo. E quanto ficaria um quadro desse com vidro?

– Olha, não dá pra saber assim fácil, não. Você tinha de me dizer o tamanho do cartaz.

– Claro, ele é mais ou menos… (olha os quadros ali perto)… é do mesmo tamanho daquele quadro ao lado.

– Então, mas você tem de me passar o tamanho do cartaz para saber o preço para enquadrar.

– Mas é do tamanho daquele quadro ali, esse das flores (aponta para o quadro, que está ao lado da atendente).

– Então, mas eu preciso saber o tamanho exato…

– É EXATAMENTE do tamanho daquele quadro. É o mesmo tamanho, o mesmo formato. Quanto ficaria para enquadrar um cartaz desse tamanho e deixá-lo desse jeito?

– Olha, é complicado, preciso ver além do tamanho, que tipo de moldura você vai colocar, o modelo, de que material é feito…

– (desistindo) Tá bom, tá bom. Você tem um cartão?

– Olha, estamos sem cartão. Mas eu escrevo o telefone num papel, tá bom?

Mas claro, se as vendas desabarem, é por causa da crise…