A Copa de 2014 e o jornalismo acrítico

Tá difícil...Acompanhar a imprensa esportiva hoje em dia é um esforço de paciência e boa vontade. Ao ler uma matéria em qualquer veículo, você vai encontrar reportagens com um peso e duas medidas, acusações sem provas e matérias abordando apenas um lado da noticia. E então surge a dúvida: os jornalistas estão cada vez mais despreparados ou eles são simplesmente tendenciosos mesmo?

Estas dúvidas ganharam ainda força com o início dos preparativos do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014. A cidade de São Paulo enfrenta problemas sérios por conta do local escolhido para receber os jogos, o estádio Cícero Pompeu de Toledo, mais conhecido como Morumbi.

O estádio do São Paulo Futebol Clube foi construído numa época em que era praxe construir praças de esporte gigantescas, com capacidade de público gigantesca, mas sem muitas preocupações com o conforto e/ou segurança. Além disso, tem graves desvantagens em relação a seus contemporâneos: não possui áreas livres em seu entorno, o que torna praticamente inviável atender a algumas exigências básicas da Fifa, como ampla área para estacionamento. E há muito tempo não vê uma reforma decente.

A solução seria apresentar um arrojado e caríssimo plano de reestruturação do estádio, com o apoio da iniciativa privada. O problema é que com o dinheiro necessário para tal reforma seria possível construir uma arena novinha em folha.

A cobertura é praticamente a única grande intervenção no incompleto projeto do Morumbi

A cobertura é praticamente a única grande intervenção no incompleto projeto do Morumbi

Sem outra saída, a diretoria do São Paulo tentou jogar o pó pra baixo do tapete: divulgou aos quatro ventos um projeto mal-feito porém chamativo, declarou que tinha cumprido 85% das exigências da Fifa para a Copa e que tinha condições de receber o jogo de abertura. Para completar, o presidente do clube, Juvenal Juvêncio, afirmou que tudo seria custeado com ajuda da iniciativa privada, já que várias empresas disputavam a primazia de tocar as obras.

E aí reside o problema. Nenhum jornalista questionou a diretoria do São Paulo sobre estes 85%. Ninguém averiguou quais itens estavam faltando no projeto e porque eles não estavam incluídos, tampouco sobre a ausência do estacionamento na documentação, algo difícil de ser ignorado.

Semanas depois, Juvenal Juvêncio veio a público alegar que o clube não teria condições de tocar o projeto sem contar com empréstimos do BNDES. Mas onde estavam as várias empresas que pretendiam reformar o Morumbi para a Copa? Bom, nenhum jornalista se deu ao trabalho de perguntar.

Em várias ocasiões, dirigentes da Fifa alegaram que a documentação enviada pelo São Paulo estava incompleta. Juvenal Juvêncio, porém, insistia no erro: dizia que o estádio estava 85% adequado e mais não dizia. Os repórteres, preguiçosos, se limitavam a defender o ponto de vista do dirigente brasileiro, sem checar os fatos e ver quem estava com a razão.

A situação chegou a um nível insustentável esta semana, quando Jérôme Valcke, o poderoso secretário-geral da Fifa, afirmou com todas as letras que o Morumbi não tinha a menor condição de receber a abertura da Copa e que a cidade de São Paulo deveria começar a procurar uma outra opção.

Juca Kfouri, aquele, saiu em defesa do São Paulo

Juca Kfouri, aquele, saiu em defesa do São Paulo

E o que fizeram os jornalistas? Em vez de questionarem a veracidade das declarações anteriores do presidente são-paulino, resolveram atacar Valcke, como se ele tivesse algum interesse em preterir este ou aquele estádio. Juca Kfouri, moralista de plantão, chegou a dizer, com todas as letras, em seu visitado blog, que o secretário-geral da Fifa estava “sabotando” o Morumbi.

A verdade é que os jornalistas de São Paulo, por bairrismo ou algum outro motivo desconhecido, defenderam o Morumbi de forma assustadoramente acrítica. E sequer se tocaram que, ao insistir em uma barca furada, a maior cidade do País corre sério risco de não sediar a abertura da Copa ou nenhum outro jogo importante.

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5 Respostas to “A Copa de 2014 e o jornalismo acrítico”

  1. Tiago Says:

    Cara, muito, muito bom. Definitivo ao tratar da cobertura sobre o Murumbi na Copa.

    É isso mesmo. E é triste, porque isso aí, no melhor dos mundos, é só despreparo e preguiça. Ja no pior…

  2. Hiran Says:

    mexeu com os bambis, mexeu com muita gente, e a fifa não sabia disso. agora vai ter neguinho plantando notícia, editoriais e, se não funcionar, crise de choro, gente esperniando e rolando no chão, porque eles não estão acostumados a não conseguirem aquilo que querem.

  3. paulinho damascena Says:

    Gostei desta matéria que vc escreveu, e concordo plenamente a imprensa deveria divulgar a verdade sobre o Morumbi. A este respeito, escrevi algo tb em meu Blog espero sua visita nele
    ate mais, abraços!

    http://souza.pc.zip.net/

  4. Bury Says:

    Cara, muito obrigado pela visita e pelos elogios – mas, principalmente, por também se posicionar contra a abjeta passividade da nossa mídia esportiva. O momento é deseperador, mas precisamos resistir!

    Abraço!

  5. Evaldo Novelini Says:

    Fábio,

    os jornalistas esportivos tupiniquins em nada diferem de seus colegas de outras editorias, como política e economia, que, além de mal informados são também mal intencionados. Nada de novo, portanto.

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