A realidade paralela de Veja

Não é de hoje que o Brasil sofre com o mau jornalismo, seja em política, cultura, esportes ou qualquer outro assunto. Matérias mal escritas, apuradas nas coxas ou simplesmente tendenciosas sempre foram maioria, e não é de hoje. Mas há algum tempo que caminhamos para um terrível caminho: o do jornalismo de ficção. E não, não falo de “new jornalism”, Tom Wolfe, Gay Talese e afins. Me refiro à ficção, mesmo. A matérias que criam realidades paralelas e contam fatos inexistentes, em vez de focarem acontecimentos reais.

A revista Veja tem sido a expressão máxima deste tipo de jornalismo. Nas páginas do maior semanário do País, a notícia é alvo de uma impiedosa mutação genética. Seus editores e repórteres nunca pareceram se preocupar com a falta de exatidão nas informações, as barrigas gigantescas ou as contradições latentes. Mas desta vez eles extrapolaram os limites do bom senso.

A capa desta semana fala sobre a posição brasileira frente ao golpe de Estado em Honduras. Para quem não sabe, o Brasil foi o país que tomou a posição mais firme em relação à deposição ilegal do presidente Manuel Zelaya: se colocou frontalmente contra o fato e ainda acolheu o sujeito em sua embaixada em Tegucigalpa, o que tem rendido dissabores com os golpistas.

Como toda posição firme, o asilo político oferecido por Lula e pelo ministro Celso Amorim é polêmico e, por isso mesmo, passível de críticas. A Veja teve uma ótima oportunidade para fazer uma grande matéria sobre o assunto, com notícias reais, mostrando o quadro real de Honduras, criticando a ação do Brasil se assim prefere. Mas a revista preferiu investir na realidade paralela. Quem ler a reportagem sobre o assunto, verá que Honduras é um país que passa por uma transição democrática, que destituiu seu presidente de forma legal e que o novo governo é alvo da intransigência do Brasil, que está “na contramão do mundo”. E que Lula teria “quebrado sua tradição diplomática” por influência de, vejam só, Hugo Chávez. Depois de tanta ficção, vamos aos fatos:

1) Lula não quebrou tradição nenhuma. O Brasil sempre foi chegado em oferecer asilo pra meio mundo, inclusive criminosos, como Ronald Biggs, e ditadores sanguinários, como o general paraguaio Alfredo Stroessner. Porque não o faria a um presidente deposto ilegalmente?

Zelaya2) É bem verdade que Zelaya, como muitos outros presidentes latino-americanos, aprontou das suas. Desafiou as forças dominantes de seu país com um histrionismo patético e não conseguiu o apoio político e popular para alterar a constituição. Daí a achar que o golpe de estado foi uma ação legítima vai uma grande, uma enorme distância.

3) Nenhum país sério reconheceu o novo governo de Honduras. Os grande veículos de comunicação do mundo tratam o caso como golpe de fato. O jornal britânico “The Independent”, chama o atual presidente de “impostor”. Onde está a propalada “contramão do mundo”?

4) Dizer que o Brasil foi pressionado por Chávez no caso Honduras é como dizer que o Brasil tem mais poder político que os EUA, já que Obama não reconheceu o novo governo hondurenho, mas até agora ficou na dele. E, sim, Chávez é um chato de galochas. Mas reconhecer um governo golpista só pra contrariá-lo seria o cúmulo da infantilidade.

5) Até mesmo publicações hostis ao governo Lula, como a Folha de S. Paulo, tratam Honduras como um país sob golpe de estado. Aqui e ali surgem críticas à ação do Brasil, mas em nenhum momento tentam legalizar a situação hondurenha ou criar uma situação inexistente.

Essa reportagem mostra o quanto a Veja perdeu o senso de ridículo. Ela definitivamente abandonou o jornalismo e todas as responsabilidades advindas do fato de ser a revista de maior circulação no país e também a única fonte de informação para muita gente. São fatos como esse que dão força à tese de que, pior que não ler nenhum jornal ou revista, é ler apenas um.

Anúncios

Tags: , , , ,

3 Respostas to “A realidade paralela de Veja”

  1. Bury Says:

    Fábio, até entendo seus argumentos… Mas acho que existem meios mais racionais e menos faraônicos de se levantar o RJ, não? Até porque esse evento, se acontecer, servirá para dilapidar ainda mais a cidade, e toda a podridão será (outra vez) mascarada via obras que, depois de terminada a Olimpíada, servirão para absolutamente nada… Não precisamos disso, né?

    E a revista Veja também precisa sempre ser combatida, sem cessar… Quando vi essa capa, não acreditei na desfaçatez dos caras! E dentro tem uma matéria sobre os “delírios comunistas” de alguns parlamentares, assinada por um tal de Fábio Portela (necessário citar os nomes), que é a cara da repulsiva linha “neo-liberal” que eles adotam hoje em dia. Fogo nessa corja!

    Abraço!

  2. Fábio Mendes Says:

    Cara, concordo imensamente contigo quando fala que “há meios mais racionais para levantar o Rio”. Mas há uma coisa que precisamos admitir: o brasileiro não sabe muito o que é racionalismo. Também acho que seria muito melhor que as coisas avançassem naturalmente. Mas acho que isso seria muito utópico. De qualquer forma, acho possível haver mais benefícios que prejuízos. Mas aí depende também da gente. Um bom exemplo está na Copa do Mundo. Querem fazer farra com o dinheiro público, inclusive em estádios privados, mas a nossa vigilância, até agora, tem impedido isso. Que assim permaneça!

  3. Amato Says:

    Mendes
    A Veja é caso perdido. Se transformou em um panfleto mal-acabado. Só agrada aos reacionários, à fatia da sociedade inconformada com um torneiro mecânico na presidência, que não admite nem se conforma em dividir a mesma cidadania com os nordestinos e, por isso, não sabe fazer outra coisa que não seja destilar seus preconceitos. O problema é que ainda existe um monte de gente que se enquadra nesse perfíl.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: