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O legado de Dunga

fevereiro 15, 2010

Vamos à Copa de 2010 com um técnico inexperiente. Até assumir a Seleção Brasileira, Dunga tinha atuado como treinador apenas em prosaicos jogos de Show Ball. Mas ele conseguiu se virar bem no duro teste e desembarcará na África com o apoio de quase toda a mídia esportiva. Mas independente do resultado na Copa, ele já terá deixado o seu grande legado: resgatar o respeito perdido por anos de mercantilismo.

Há muitos anos a Seleção Brasileira deixou de ser uma instituição respeitável para virar a Casa da Mãe Joana. Nenhum país de respeito mandava seu time ao Brasil para nos enfrentar. E mesmo lá fora, os únicos amistosos eram com seleções pra lá de inexpressivas, que pagavam os olhos da cara para enfrentar os brasileiros. Sabe aquelas superbandas de rock que nunca vieram ao Brasil no auge mas que, depois de decadentes passam a vir aqui ano sim, ano também? Pois. Este era o rumo da Seleção Brasileira até Dunga assumir o comando.

Lembro que, até a Copa de 2006, a última seleção de ponta da Europa a disputar um amistoso decente em território brasileiro foi a Alemanha, no longínquo 1991. Anos depois, a Holanda veio para cá. Mas os filhos da puta estavam tão a fim de jogo que se entupiram de acarajé e caipirinha na noite anterior e tiveram uma disenteria coletiva durante o jogo. Vergonha total. Para eles e para nós também.

A desmoralização não se restringia aos adversários. Os próprios jogadores brasileiros agravavam o quadro. Nego só vestia a amarelinha para se valorizar e conseguir contrato com equipes de ponta da Europa. Quem já estava nestes clubes defendia a seleção apenas se não tivesse nada melhor para fazer. Dunga sofreu isso na Copa América: convocou todas as estrelas, mas só Robinho veio. Com um time B, o Brasil atropelou os rivais argentinos na final e se sagrou campeão. A grande virada estava para começar.

Em pouco tempo, muita coisa mudou. O Brasil já fez amistosos importantes contra Inglaterra e Itália e recebeu Portugal, que não é uma potência mas contava com o então melhor jogador do mundo: Cristiano Ronaldo. O fato de o atacante ter jogado a partida foi muito mais significativo do que parece à primeira análise.

Essa metamorfose da seleção afetou os próprios torcedores. Eles perceberam a importância de alguns valores que, até então, estavam esquecidos: raça, amor à camisa e, o mais importante, comprometimento. Os comerciais de TV que abordam a Copa deixaram de lado o discurso celebratório do futebol-arte e defendem uma seleção formada por jogadores que se entregam. Isso tudo não aconteceu por acaso e devemos a Dunga. Podemos até jogar mal e não sermos campeões, mas a semente da dignidade foi plantada, só precisa ser regada nos anos vindouros.

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O jornalismo em tópicos

fevereiro 8, 2010

Esqueça o jornalismo investigativo, “new jornalism” e quetais. A forma de se fazer notícia no Brasil é peculiar e se divide em várias categorias, todas pitorescas. Conheça algumas delas:

Jornalismo Manoel Carlos
Já perceberam como jornal adora uma novela? Todos ficam esticando por semanas – às vezes por meses – um assunto que deveria ganhar repercussão por, no máximo, cinco dias. Ninguém aguenta mais, mas todos os veículos prolongam os temas com pautas sensacionais do tipo. “Garota assassinada era fã de Britney Spears”, “Deputado acusado de corrupção trabalhou como garçom na juventude” ou “Na várzea, Ronaldo fez muitos gols como o da semana passada”. Os editores só esqueceram de uma coisa: novela era longa nos anos 60, quando não existia nada para se fazer à noite.

Over mídia
Sou de um tempo em que “drama” era ficar sem os movimentos da perna em razão de um acidente e “tragédia” era perder toda a família numa chacina ou deslizamento de terra. Mas algo mudou de uns anos para cá: ou estes termos foram banalizados pela mídia ou os valores mudaram a ponto de os problemas acima se tornarem pequenos. Afinal, “drama” mesmo quem passou foi Bruno Senna, que corre o risco de não correr a Fórmula 1 este ano. Que o digam os incontáveis jornais e revistas que usaram a expressão para falar sobre o caso.

Jornalismo Você S/A
Esta não é uma crítica à publicação. Afinal de contas, por mais chata que seja, a revista é segmentada e apenas cumpre seu papel de atender bem seu público alvo (não, meu filho, não foi uma insinuação. Eu realmente quis dizer que esse povo é chato). Assim como uma revista sobre celebridades usa expressões como “fashion”, “poderosa”, “adoro” e afins, a Você S/A vai nos entupir de palavras modernosas como “networking”. Foda é você ver aspones bancando o executivo e anunciando que precisam de profissionais para um “job”. Daí assessor de imprensa vira “analista de comunicação” e o faxineiro vira “gestor de limpeza”. Agora imaginem as matérias produzidas num ambiente assim…

Escolinha Matinas Suzuki
O jornalista supracitado é conhecido por ser um dos artífices da “Revolução dos Menudos”, como ficou conhecido o processo de reformulação da Folha de S. Paulo nos anos 80. Sempre me chamou a atenção a postura do japa nas fotos: de terno e gravata, impecável e sempre de braços cruzados, mais parecendo um executivo que um jornalista. Desde então, editores e donos de jornais pagam de CEOs da casa do caralho, com a mesma pose. É da escolinha Matinas Suzuki que também sai a turma do Você S/A, descrita aí acima, que tenta encaixar expressões como “brainstorm” em um texto sobre acidente de trânsito ou o novo disco da Beyoncé.

Ejaculação precoce
Belo dia, uma grossa nuvem de fumaça sobe aos céus de São Paulo. Jornalistas, em todo o canto, começam a correr atrás de informações para soltar a matéria. Logo, chega à internet a primeira notícia sobre o assunto. Descobriram a causa da fumaça: queda de avião. Palmas para o autor, assinou um furo nacional. O jornalista mostrou rapidez, requisito fundamental para os corridos e dinâmicos dias de hoje. Será? Nem tanto. Poucos minutos depois, chega à tona a verdadeira notícia: o que de fato ocorrera foi um incêndio numa fábrica de colchões. Percebem a diferença entre uma coisa e outra? Dá pra acreditar que o primeiro jornalista REALMENTE apurou a notícia? Se isso é jornalismo, eu sou uma morsa.

Pré-fabricado
Nestes tempos internéticos, virou moda falar em “control C + control V” para falar sobre a triste mania de apenas copiar as matérias alheias. É o tal do “Jornalismo Google”, outra expressão muito usada. No meu tempo de faculdade, quando a internet engatinhava e ainda havia máquinas de escrever no campus, a expressão era “Gilette Press”. Mas pior que copiar matérias é quando conceitos são copiados. Sabe aquela frase que alguém fala e é imediatamente copiada à exaustão, sem que ninguém pare para pensar no que significa aquela frase? Leia qualquer página em qualquer jornal e você lerá toneladas de exemplos.