Archive for junho \20\UTC 2010

Morumbi derrubará a Pauliceia da Copa 2014

junho 20, 2010

Há muito tempo queria voltar a escrever sobre a escolha do estádio do Morumbi como sede paulista para a Copa de 2014. Muito tempo se passou e os fatos correram e atropelaram uns aos outros. Agora, só se fala na decisão da Fifa/CBF de que o estádio não abrigará nenhum jogo da Copa. Evidentemente, o assunto não será esquecido tão cedo, pois a repercussão continua grande. E, como não poderia deixar de ser, a imprensa esportiva tem criticado furiosamente a Fifa e a CBF pela decisão. Com isso, acho pertinente fazer algumas rápidas, mas importantes observações acerca do chororô generalizado que surgiu na imprensa paulista desde então.

A primeira delas é que choveram críticas à eliminação do Morumbi. E a principal alegação dos defensores do estádio é que, por causa disso, a cidade de São Paulo não abrigará a abertura da Copa, e talvez nenhum outro jogo. O comentário é típico de quem analisa os fatos de forma superficial e não se aprofunda nele. Ninguém percebeu que acontece justamente o contrário: a insistência em emplacar o Morumbi, sim, é que pode condenar a cidade ao ostracismo durante a Copa. E, pelo visto, é o que pode realmente acontecer, dados os atuais acontecimentos.

Quem já foi ao menos UMA vez ao estádio são-paulino para assistir a uma partida sabe que ele é horrível e mal planejado. Do anel inferior, não se vê quase nada. No anel intermediário, o que não faltam são pontos cegos. E no anel superior, só o que se vê são 25 pontinhos correndo de um lado para o outro, mal dá para reconhecer os jogadores ou mesmo o trio de arbitragem.

Como já tinha visto jogos no Pacaembu e Palestra Itália, estádios com ótima visibilidade, sempre atribuí a deficiência do Morumbi ao seu tamanho imponente. Mas tive uma grande surpresa no ano passado, quando visitei o Maracanã, um estádio muito maior que o Morumbi: a visibilidade é perfeita, mostrando que o problema do estádio paulista, definitivamente, não é o tamanho.

Qualquer pessoa com um mínimo de isenção teria desconfiado que havia algo errado quando o Morumbi entregou SEIS projetos diferentes para a Fifa. Se precisaram de tantas versões novas é porque as anteriores eram defeituosas. E das duas, uma: ou os projetos previam apenas alterações estéticas ou eram faraônicas o suficiente para que todos percebessem sua inviabilidade financeira.

Não demorou muito para que alguns viessem falar em “decisão política”, ignorando o fato de o estádio ser muito ruim. Lógico que houve decisão política, já que a diretoria do SPFC anda em atrito com Ricardo Teixeira, o capo da CBF. Mas isso não muda o fato principal: o estádio não tem a menor condição de abrigar um jogo de Copa. Mesmo que a CBF defendesse com unhas e dentes o Morumbi, uma hora a Fifa perceberia o engodo e todos teriam de ceder à realidade. Antes agora do que mais tarde, quando haveria menos tempo ainda para buscar uma alternativa.

A imprensa esportiva paulista colocou venda nos olhos e agiu com parcialidade absoluta. Ninguém fez o que se espera de um jornalismo correto: apurar e analisar os fatos. Ninguém fez uma matéria isenta sobre as qualidades e defeitos do estádio, ninguém citou a ausência de estacionamentos, as péssimas condições estruturais do estádio e, o mais importante, a dificuldade financeira que o clube teria para adequar sua casa ao mundial.

Se esqueceram também que os projetos apresentados à Fifa eram apenas uma pequena variação do famigerado “Morumbi, Século XXI”. Para quem não lembra ou não sabe do que se trata, eu explicarei. O tal “Morumbi, Século XXI” surgiu no início dos anos 90 e era à primeira vista um ambicioso trabalho para tornar o local um estádio de Primeiro Mundo. Os esboços previam até a cobertura total do estádio, mas na verdade tinha como único objetivo arrecadar recursos, públicos inclusive, para fazer reformas básicas no estádio. Na época, o local sofria com graves problemas estruturais, que podiam resultar até mesmo em interdições parciais. Ou tragédias como a que ocorreu na Fonte Nova.  Na época, o clube era presidido pelo Mesquita Pimenta, aquele que depois foi defenestrado do SPFC após escândalos de corrupção.

Cansei de falar, em blogs, conversas de bar ou no trabalho, que o Morumbi é um caso clássico de estádio inviável. Tava mais que na cara que seria muito mais barato construir uma arena nova em folha que reformar o local. Mas foi preciso apresentar um estudo técnico para que alguns acreditassem. E, mesmo assim, alguns se recusam a aceitar a realidade.

E é aí que entram os deturpadores da verdade, gente que só se importa com o próprio benefício. Essas pessoas quiseram colocar o Morumbi na Copa a qualquer custo, sem se importar com a cidade de São Paulo, que é o que realmente importa. Quando perceberam que o Morumbi não teria muita chance, tentaram adiar o fim melancólico, cientes de que quanto mais insistissem, menos tempo haveria para apresentar uma segunda opção. Insistiram ao máximo no seu estádio para inviabilizar todas as outras alternativas.

E para quê? Para prejudicar a cidade de São Paulo e posarem de vítimas. Então, quando Belo Horizonte ou Brasília fossem anunciadas como local de abertura, eles iriam espernear e alegar que a CBF destruiu os sonhos de São Paulo.

Mas quem analisou o caso desde o início sabe que não é verdade. Os dirigentes do São Paulo Futebol Clube sabotaram a cidade para fazer valer seus interesses. Já que eles não conseguiram seu principal objetivo (obter recursos públicos para reformar completamente seu estádio), se contentam em tirar a Copa da cidade.

Tudo seria diferente se os responsáveis pela escolha do estádio tivessem tomado uma posição firme e dissessem, desde o início, que o Morumbi não tinha condições de receber a Copa. Porque então procurariam uma alternativa viável em tempo hábil. Agora, pode ser tarde demais.

Obrigado, dirigentes do São Paulo Futebol Clube. Graças a vocês, a maior cidade do país pode ficar fora da Copa!

Anúncios