Archive for the ‘Divagações sobre a vida besta’ Category

É que a gente era engajado…

maio 30, 2014

Dois garotos conversam sobre futebol em 2026

– Enzo…
– Que foi, Theo?
– Quando será que o Brasil vai receber outra Copa?
– Ih, vai demorar, cara. Tivemos uma copa 12 anos atrás. Por que você tá perguntando isso?
– Ah, porque tô vendo as notícias lá do Marrocos, onde vai ter a Copa este ano. Todo mundo celebrando, fazendo a maior festa, na maior expectativa. Imagina como vai ser quando tiver aqui de novo!
– Puxa, Theo, verdade! Imagina como deve ter sido aqui em 2014!
– Engraçado que eu procurei na internet e não achei muita coisa sobre a festa. Só uns protestos, uns negócios lá que eu não entendi.
– Pergunta pro seu pai como foi. Ele não tinha uns 30 anos quando teve a Copa? Ele deve lembrar como foi.
– Boa, Enzo! Vamos lá no bar perguntar pra ele!
– Oba, vamos!

(…)

– Pai.
– Que foi, menino?
– Como é que foi a Copa aqui no Brasil?
– O que você quer saber?
– Ah, tudo. O povo fez muita festa? A gente recebeu bem os outros torcedores? O país se pintou de verde e amarelo?
– Ué, filho, que pergunta! Em toda Copa o Brasil se pinta de verde e amarelo!
– Sim, mas a Copa é sempre em outro país. E quando foi aqui, a festa foi maior?
– Ah, filho, claro que sim. Foi uma coisa inesquecível! Faltando um mês para começar a Copa, tinha espetáculo pirotécnico todos os dias, com fogos em verde e amarelo. Todas as casas estavam pintadas com as cores do Brasil. Eu disse TODAS, sem exceção. Os desconhecidos se cumprimentavam na rua, se abraçavam, dizendo que a gente ia finalmente ter outra Copa aqui.
– Que legal, pai! E você, seus amigos, como ficaram?
– Eufóricos, Theo! Eu sempre ouvia as histórias de quando o Brasil sediou a Copa em 1950. Meu avô foi em dois jogos no Maracanã. Disse que foram os dias mais animados da vida dele. Falou da festa da torcida, da animação, da empolgação com o time. E eu não via a hora de vivenciar aquelas mesmas histórias!
– Ficou muito ansioso, seu Alberto?
– Claro, Enzo! A última semana antes da Copa eu passei praticamente em claro. Fiquei quase sete dias sem dormir direito, só pensando na Copa. Ficava mexendo no álbum de figurinhas, nos cards, nas revistas e pôsteres falando da Copa, via os DVDs…
– Ué, pai. Nunca vi nenhuma dessas coisas em casa.
– Não? Ah, filho… é que… bom, a gente perdeu na mudança…
– Ô, Alberto. Toma vergonha na cara, para de mentir pros meninos.
– Fica quieto, César!
– Quieto, nada. Não tem vergonha de ficar enrolando as crianças?
– Tomanocu, César. Vai cuidar da tua vida!
– Meninos, tudo isso aí que o Alberto tá contando aí é lorota, mentira!
– Como assim, seu César?
– Seu pai é um mentiroso de mão cheia. Ele foi contra a Copa no Brasil. Chegou a participar de manifestação de rua pedindo para não ter Copa do Mundo aqui. Ficava o dia inteiro na internet metendo o pau na Copa.
– Como assim?
– É, verdade. E quer saber do que mais? Essa foi a Copa mais sem graça que tivemos aqui desde que eu me conheço por gente. Tinha muito menos casa com bandeira, rua pintada e povo vestindo a camisa da seleção do que este ano, para você ter uma ideia.
– Sério?
– Sério mesmo. E sabe por quê? Porque teve um bando de chato que ficou falando que não tinha de ter Copa aqui, colocaram um monte de defeitos no país. Chegaram a falar que o Brasil não tinha condição de organizar o evento!
– Ué, mas o Marrocos não é muito mais pobre? Por que lá o povo tá feliz?
– Pra você ver, garoto. Aqui, o brasileiro torce pra tudo dar errado.
– Mas como alguém pode ser contra uma Copa no próprio país? Eu li uma matéria falando que o Marrocos vai faturar o dobro do que gastou!
– No Brasil também foi assim, garotos. Faturamos muito mais do que gastamos, mas ninguém pensou nisso na hora. Só ficou falando que não ia ter Copa.
– Caramba! Isso é verdade, pai?
– É… bem… filho, é verdade, sim…
– Como assim, pai? Você tem a oportunidade de ver uma Copa do Mundo, contar pros filhos, pros netos e foi contra?
– Ah, Theo. É que a gente pensou que tinha de investir em saúde, educação…
– Ué, mas o Brasil não ganhou mais dinheiro com a Copa? Não dava para investir assim mesmo?
– Ah… filho… é que naquela época a gente era engajado…
– Engajado. Hahahahahahaha.
– Ô César, não enche o saco. Você já atrapalhou demais. Some, vai!
– Puxa, pai. Se você pensava assim naquela época, então o senhor deve ter participado de várias manifestações contra os gastos com o Carnaval e a Festa do Peão, né?
– É, bem…

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Meu dia de torcedor coxinha

junho 17, 2013
"Nossa, vou postar minha foto no Instagram agora mesmo!"

“Nossa, vou postar minha foto no Instagram agora mesmo!”

Antes de mais nada, é preciso dizer: sempre sonhei em assistir a um jogo de Copa do Mundo, seja aqui ou no exterior. Quando era criança, simulava como seria o mundial em terras brasileiras, selecionando os estádios, criando sedes e subsedes.

O tempo passou. O Brasil, a Fifa e a Copa do Mundo mudaram. Para melhor e para pior em muitos aspectos. Uma destas mudanças afetou diretamente quem curte futebol no Brasil. Ingressos caros, torcida domada, patriotismo artificial etc.

Nem por isso me furtei a assistir a uma partida. A primeira providência foi ver a Copa das Confederações, importante sob vários aspectos, especialmente como teste, dentro e fora dos campos. Sem falar que talvez seja difícil ir a um jogo da Copa do Mundo, por vários motivos.

Por isso, assisti no último domingo a México x Itália, no estádio do Maracanã. Não foi apenas o Fábio trintão, casado e pai de família que viu o jogo no estádio. Foi também o jornalista que quis ver tudo com seus próprios olhos: se o estádio ficou legal, se o público é mesmo elitizado, se ver o jogo na arquibancada está sem graça e se a estrutura oferecida é o que prometem. E, claro, era também a criança realizando o velho sonho.

Impressões de um coxinha honorário

Um torcedor coxinha que se preze tem de levar a patroa ao estádio. Afinal, é futebol para a família. Evidentemente, nunca levei namorada, ficante ou pretendente para ver jogos comigo. Ela certamente fugiria de mim horrorizada antes dos cinco minutos de partida. E quem vai ao estádio torcer por seu time pode imaginar a razão.

Fomos eu e Érica para o Rio de Janeiro no dia do jogo. Logo de cara, um aspecto positivo. Descemos no aeroporto Santos Dumont, já informados de que os organizadores pensavam em criar um ponto de retirada de ingressos ali. Havíamos agendado a retirada no hotel Windsor Guanabara, no centro da cidade, e precisaríamos pegar um metrô. Se houvesse uma fila grande, perderíamos tempo precioso. Havia notícias de que no Galeão as pessoas levaram mais de três horas para pegarem seus tíquetes.

Mas o posto no Santos Dumont realmente estava aberto. A fila era minúscula e pegamos o ingresso em menos de 10 minutos. O único senão foi uma funcionária, desatenta, que nos disse que precisaríamos mostrar um comprovante de residência para provarmos que éramos residentes no Brasil. Claro que isso não era necessário.

Paulistas e palmeirenses

IMG_0914Pegamos o ingresso, fomos para o hotel e largamos nossas coisas lá. Fui para o jogo com minha camisa azul do Palmeiras (sim, a que homenageia o velho Palestra Itália). Mas, só para não ceder totalmente ao sistema, torci para o México.

E aqui entra um fato curioso: os palmeirenses foram em peso ao Maracanã. Mais de 6 mil pessoas saíram de São Paulo para ver a partida. A maioria, torcedores do alviverde, como foi possível perceber visualmente. Em alguns momentos, havia mais pessoas com camisas do Palmeiras do que da seleção brasileira ou mesmo do Fluminense e Botafogo.

No metrô, tudo tranquilo. Três estações foram destinadas como pontos de partida para o estádio (Maracanã e São Cristóvão, na Linha Verde, e São Francisco Xavier, na Linha Vermelha). Havia recomendações para descer em um determinado ponto, de acordo com o seu setor no estádio. Mas não havia impedimentos para que se escolhesse outro caminho. Como bom coxinha, segui o roteiro preestabelecido.

Descemos na Estação São Cristóvão e foi então que eu e Érica quase deixamos de ir ao Estádio. Havia ali um grupo de manifestantes protestando contra os altos gastos com a Copa das Confederações. Nosso coração balançou. Embora não sejamos contra a realização dos torneios, sabemos o quando houve de autoritarismo e intransigência na organização, fora os gastos abusivos. E defendemos o direito de protestar, ainda mais em um momento em que as autoridades usam de violência para calar os opositores. Mas fraquejamos e fomos ao Maracanã.

No Estádio

Para entrar, tudo tranquilo. Mesmo com muita gente um tanto confusa (a grande maioria jamais havia visto um jogo no Maracanã. Talvez sequer em qualquer estádio), os voluntários e funcionários trabalharam bem. O único problema foi no acesso aos deficientes, por onde alguns desavisados (inclusive nós) tentaram passar.

Como estamos em um estádio moderno, em um torneio da Fifa, todo cuidado com a segurança era pouco. Havia detectores de metal e o procedimento para a entrada era o mesmo exigido nos aeroportos. O policiamento era intenso, mas não ameaçador. A imagem truculenta ficou com os soldados destacados para impedir que os manifestantes chegassem perto. Lá fora, havia agentes das polícias Civil e Militar, além da Força Nacional, Tropa de Choque e Guarda Municipal, ameaçadores.

Ao entrar, nos deparamos com aquilo que havíamos lido tanto nos últimos dias: o abusivo preço dos lanches e bebidas. Cachorro-quente a R$ 8, um latão de Brahma custando NOVE DILMAS (a Budweiser era R$ 12)! Pegamos uma lata de Coca, uma cerveja e uma garrafa de água. Morreu em R$ 21. Mas coxinha que é coxinha paga com gosto, afinal, é um ambiente familiar.

E era mesmo. Muitos casais, crianças e famílias inteiras foram ao estádio em peso. Muitos, de fato, nunca haviam visto uma partida de futebol em um estádio. Estavam ali para conhecer o Maracanã, seja para visitar um cartão postal, seja para saber como ficou após a reforma. Sem falar nos turistas e nos (poucos) mexicanos e italianos que foram de fato torcer por sua seleção.

“E você, Fábio? O que achou?”

Novo estádio é bonito, mas não é mais o Maracanã

Novo estádio é bonito, mas não é mais o Maracanã

Que não é mais o Maracanã. Sem discurseira contra o futebol moderno, sem reclamar da realização da Copa, sem saudosismo. É lindo, moderno, confortável. Mas não é mais o Mário Filho. Mesmo quem não tenha visto um jogo no velho Maraca sabe disso. Hoje é um estádio padronizado, muito parecido com os outros desta Copa. Uma arena, enfim, com todo o simbolismo que essa palavra traz. Não lembra em nada o velho estádio.

O público que foi ao jogo também não. E por isso pude presenciar algumas bizarrices. A primeira delas foi ouvir de torcedores sentados logo atrás de mim uma reclamação: “Porra, o telão tá com defeito”. Sim, amigos: os caras queriam era ver o jogo por um dos quatro gigantescos e modernos telões, instalados em setores estratégicos. Olhar pro campo durante a partida deve ser coisa de ralé, mesmo.

Veio o intervalo e resolvi dar um mijão. Foi então que constatei algo que me deixou estarrecido: O BANHEIRO EXALAVA UM INTENSO AROMA DE EUCALIPTO! Não, meu amigo, não era cheiro forte de desinfetante barato. Era um aromatizante fino, algo que nunca senti nem em shopping center. Achei aquilo tão bizarro quanto aparecer um anão trepando com a mulher barbada, ambos devidamente nus, em um comício político. Saí de lá tão atordoado com o cheiro quanto com a inusitada constatação.

Durante a partida, mais curiosidades. Como se sabe, todos ficam sentadinhos no novo estádio. Os assentos são fixos, você não pode simplesmente sentar em qualquer lugar. Couberam a mim e à Érica as cadeiras 1 e 2 da fileira L, no bloco 229 do nível 2. Mas houve momentos de resistência. Alguns gaiatos tentaram sentar nas escadas, mas foram convencidos a saírem de lá.

De resto, é o que se imagina. A maior parte das pessoas mal olhava para o estádio. Eles ficavam conversando, quase nunca sobre futebol. Os assuntos variavam entre a última viagem para Ilhabela, as vicissitudes amorosas de si e de outrem e amenidades diversas. Érica, que sempre se emputece com quem vai ao cinema para não assistir aos filmes, se impacientou: “O pessoal vem aqui para tudo, menos para ver um jogo de futebol, né?”. Puxado.

Deslocado

A verdade é que me senti um estranho no ninho. Ninguém gritava, ninguém vibrava. As pessoas se animavam apenas em alguns momentos de ataque das duas equipes ou em algum lance do Balotelli, a grande vedete da partida. Nos momentos em que me levantei e xinguei o juiz e os bandeirinhas (uma atitude saudável de qualquer torcedor comum), me olharam como se eu estivesse fazendo um strip tease e balançando a pança na arquibancada. Os olhares de reprovação foram fulminantes.

O único momento verdadeiramente futebolístico foi quando flamenguistas e vascaínos entoaram alguns dos cânticos típicos das torcidas locais, nada que qualquer carioca não saiba. Mas valeu pela disputa entre as duas grandes torcidas do Rio. Quando a Itália marcou o gol da vitória, foi puxado o coro: “Uh, terror, Balotelli é matador”. Legal, mas nada demais.

Na saída, tudo azul novamente: todos saíram rápida e tranquilamente do estádio, sem incidentes. No metrô, mais uma prova da elitização do público: 90% das pessoas que pegaram o transporte público seguiram para a zona sul. Pouco antes de chegar à estação, vimos novamente os manifestantes, que cantavam o hino nacional. E aqui, um momento interessante: em nenhum momento eles hostilizaram os torcedores. Muito pelo contrário: chamaram a todos a também protestar. “Vem pra rua”, diziam. Quase ficamos novamente. Mas havia um avião a pegar e uma filha a esperar. E muita história para contar.

A vida, o Belle e tudo o mais…

novembro 11, 2010

(escrito ao som dos discos “Dear Catastrophe Waitress”, “The Boy With the Arab Strap” e “Fold Your Hands…”)

Foto: Ale Vianna/ News Free/ AE

Acho que já escrevi aqui – ou no velho blog O Monoglota – a sensação que tive ao ouvir Belle & Sebastian pela primeira vez, lá pelos idos de 1999/2000. Peguei o “Tigermilk”, primeiro disco da banda, em uma locadora de CDs. Fiquei aturdido com o som. Logo nas primeiras canções, era possível observar uma série de referências musicais que eu conhecia, mas toda aquela informação junta formava algo totalmente novo para mim. Era um som que eu jamais havia ouvido antes.

 

Não demorou muito para que eu ficasse fissurado pela banda. Comprava discos, camisetas, procurava informações na internet. Tentei driblar ao máximo minhas limitações com o idioma de Shakespeare, agravada pelo fortíssimo sotaque escocês dos cantores da banda.

Fiquei fascinado por aquelas baladas agridoces e melancólicas, além das letras que falavam sobre solidão, amor e a sempre atual sensação de inaptidão com as relações humanas. Não demorou para que Belle & Sebastian (ou simplesmente B&S) se tornasse a minha banda favorita em atividade.

Percebia-se com facilidade, então, que muito do que havia naquelas letras dizia respeito a mim e a como me sentia em relação ao mundo. Eu me via como um outsider, um peixe fora d’água, mesmo que estivesse rodeado de amigos.

O tempo passou e a vida foi caminhando, como tem de ser. Me formei, comecei a trabalhar como jornalista, enfrentando os perrengues de sempre. Mas continuava sendo um outsider, ouvindo Belle & Sebastian como se fosse um guru, alguém que me desse a mão e me dissesse o que fazer.

Minha procura por informações sobre a banda me fez entrar para uma lista de fãs. Ali, fiz muitos amigos espetaculares, com quem convivo até hoje. E em torno das pessoas desta lista, conheci outras e mais outras e, depois de muito tempo, me senti parte de um grupo, uma comunidade, uma turma.

Os anos se passaram e, mais uma vez, o mundo foi dando voltas. Tomei um susto ao ouvir o sexto disco do Belle & Sebastian, “Dear Catastrophe Waitress”. Senti a banda mudando, não parecia a mesma que eu havia conhecido anos atrás. A impressão se fortaleceu com o disco seguinte, “The Life Pursuit”, muito superior ao anterior e que solidificaria os novos rumos musicais. Era a banda amadurecendo.

 Demorou para eu perceber que a banda não era a única a ter mudado. Minha vida havia voado, como se carregada pelo vento, e passou por alterações profundas. Aprendi muito sobre como lidar com o mundo e as pessoas. Em alguns casos, me recusei a aprender. Mas não podia mais alegar inocência.

E tudo só serviu para tornar ainda mais forte os elos que tenho com o Belle & Sebastian. Porque ela não se tornou uma banda de uma época, que perderia sua relevância com o passar do tempo. Também não faziam aquele tipo de som tido como “atual”, mesmo quando imutável. A banda havia crescido, como eu também cresci.

Ao final das contas, ainda sou um adolescente escondido em um corpo de adulto. Continuo tendo muitas dúvidas, medos e angústias do passado. Mas hoje me sinto muito mais forte para resistir, por conta de tudo que passei e vivi. E percebi que, desde aquele dia perdido no final do século XX em que ouvi “The State I Am in” pela primeira vez, o Belle & Sebastian tem caminhado comigo, crescendo, falhando e insistindo da mesma maneira, quase que de forma sincronizada.

Tudo isso passou pela minha mente enquanto ouvia cada canção executada pela banda no maravilhoso show do Via Funchal, neste dia 10 de novembro. Dancei com as músicas dos discos mais recentes, vibrei ao ouvir as belíssimas faixas do disco recém-lançado, “Write About Love”. E me senti levitando ao ouvir as canções dos primeiros álbuns, que tanto me marcaram.

O show, que tinha tudo para ser espetacular, ganhou contornos ainda mais especiais. Primeiro por ter sido a primeira vez que eu os via ao vivo, pois havia perdido a antológica apresentação de 2001. E em segundo lugar porque eu passei o show todo ao lado da mulher da minha vida, que tem compartilhado todas as minhas vitórias e derrotas há seis anos.

Era também a nossa história que estava sendo cantada ali, naquele palco. As mesmas músicas que eu havia apresentado a ela logo que nos conhecemos e notamos nossas afinidades. A mesma música que escolhemos para ser tocada em nosso casamento, entre tantos outros momentos.

Na noite de 10 de novembro vi mais que um show. Presenciei a vida a passar diante dos meus olhos, como ocorre com as pessoas que encaram seus últimos momentos. No entanto, ao contrário do que diz a tradição, para mim a existência está apenas começando.

Os textos, as metas, os prazos…

setembro 28, 2010

Não foi com um grande susto que entrei no meu blog e vi que meu último texto foi postado no dia 23 de julho (e um texto descaradamente corrido, diga-se). Ou seja, quase dois meses. Se desconsiderarmos o anterior e levar em conta apenas os textos escritos com um mínimo de decência, acrescente aí um tempo ainda maior.

Curiosamente, não me faltaram ideias nesse meio tempo. Durante a Copa do Mundo, tinha tantos assuntos a respeito do torneio que cheguei mesmo a pensar em transformar o Ora, Pílulas! em um blog temático (ou mesmo criar outro). A falta de tempo para escrever (e minha incapacidade para criar um template apresentável) se encarregou de atravancar tudo.

A Copa passou, mas a vontade de escrever não. Já pensei em escrever sobre a disputa presidencial, mas desencanei quando vi que ia escrever, em alguns momentos, com a bile (ou bílis, como queiram). E também houve a falta de tempo, esta conhecida.

Mas nunca pensei em abandonar este espaço. E percebi que o intervalo foi bom para maturar algumas ideias. Que estarão aqui em breve.

Já começo a preparar alguns textos. Como não consigo postar a cada dois ou três dias, a exemplo do que acontecia antes, pretendo aproveitar os intervalos (pretendo postar aqui uma vez por semana) para escrever mais textos longos. Sempre haverá espaço aqui para pequenos comentários ou imagens que valham a pena. Mas os glóbulos do meu sangue estão cheios de notícia, não há como fugir.

Até daqui a pouco!

Prazer, meu nome é urubu

janeiro 18, 2010

Trecho de um longo diálogo entre dois jornalistas, na semana passada, comentando os acontecimentos dos últimos dias, em especial o terrível terremoto que devastou o Haiti

– Nossa, você viu as cenas no Haiti?

– Vi sim, que horrível, né?

– Demais, fiquei chocada.

– Eu também. Terrível.

– Eu queria estar lá agora…

– É, eu também… Peraí, não queremos ir pelo mesmo motivo, né?

– Acho que não…

– Você estar lá para ajudar o povo, né?

– Sim, e você?

– Não, eu queria estar lá pra fazer matéria…

Quando a maldade abunda no coração

novembro 7, 2009

Casal caminha na Paulista. Ao passar por uma igreja, vê um carro em frente à entrada principal. Dentro dele, uma noiva conversando ao telefone.

– Nossa, que coisa. Usando celular na hora do casamento?
– Ela deve estar ligando pro amante, antes de ir pro altar.
– É, e daqui a pouco ela vai pegar o Blackberry e colocar no Twitter: “estou em frente à igreja, vou entrar pro meu casamento em dois minutos”.

*****

Casal caminha na Avenida Jabaquara. De repente, um pequeno grupo de garotos maltrapilhos passa correndo pela calçada. Entre eles, uma criança muito nova, que parecia ter acabado de aprender a correr.

– Olha que pequenininha…
– Pois é, tão novinha e já aprendendo a fazer arrastão…

*****

Casal passeia no Rio de Janeiro no feriado prolongado. Num domingo, dia de chuva, a cidade fica deserta, com todas as lojas fechadas. No dia seguinte, o tempo abre totalmente, mas às dez da manhã (ou da tarde, como preferirem), todas as lojas, inclusive o Shopping Center, continuam fechados.

– Putaquipariu, como assim? Tudo fechado de novo?
– Pois é, deve ser por causa do sol…
– Ah, não. Quando chove não abre nada, e quando o sol abre também não? Como pode estar tudo fechado numa cidade turística, em pleno feriado, com a cidade cheia de gente?
– Vai ver foi todo mundo pra praia…
– Porra, mas então quando esse povo trabalha? Será que eles fazem como no litoral paulista? Trabalham o triplo na alta temporada? No Carnaval, por exemplo?
– Lógico que não? Ou você acha que eles vão perder os desfiles?

Cada país tem o Barry* que merece

outubro 5, 2009

O caso rolou no último sábado, quando tive a infeliz idéia de ir em uma loja de discos na qual nunca mais tinha ido. Fazia tanto tempo que não ia lá que havia até mesmo me esquecido da razão de ter sumido de lá. Mas acabei me lembrando rapidinho…

– Oi, você tem o disco solo do Stuart Murdoch?
– Olha, não é bem um disco solo…
– Eu sei, tem até outros caras do Belle and Sebastian participando do disco.
– Olha, ele não canta no disco…
– Mas eu sei disso, ué!

Reparem que, em momento algum, eu disse que era um disco em que o Stuart cantava. Tampouco perguntei como era o disco. Até porque sei muito bem como é o álbum. Perguntei apenas se ele tinha a bagaça. Continuando…

– Porque tem outras pessoas cantando e…
– Eu sei. Mas você tem o disco?
– Não é um disco solo, porque…
– Olha, eu sei muito bem como é esse disco. O Stuart Murdoch assina o disco como solo, mas tem outros caras do Belle participando. Tem o Stevie Jackson e o Richard Colburn. Ele não canta as músicas, porque ele chamou várias moças para cantar. Por isso que o disco se chama “God Help the Girl”!
– É…
– Então, tem o disco?
– Ah… não tenho. Mas eu posso reservar e…
– Então não tem o disco, né?
– Não..
– Então tá bom. Obrigado. Tchau.

Evidentemente, quando perguntarem a ele como estão as vendas ele dirá: “Ah, tá ruim, né? Ninguém mais compra disco, só baixa na internet”… 

* Personagem do romance “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby

Na Sibéria não tem nada disso (6)

setembro 24, 2009

CAPÍTULO FINAL? 

– (atendente) Bom dia…
– (otário) Péssimo dia. Quero cancelar minha internet porque vocês não têm competência para mantê-la funcionando. E nem pra registrar os pagamentos de mensalidade que eu faço para vocês. Paguei todas as contas e vocês ainda ficam com história de que não paguei a do mês de janeiro.
– (atendente) Perfeito. Qual o número do cliente?
– (otário) É tal.
– (atendente) E o número do protocolo?
– (otário) Ah, meu Deus. É tal.
– (atendente) Perfeito. Qual a razão de o senhor pedir o cancelamento?
– (otário) Preciso repetir ainda, meu filho? Vocês não conseguem manter minha internet funcionando por mais de um mês seguido. Depois não conseguem registrar meus pagamentos e vêm me cobrar por algo que eu já paguei. Depois eu levo o comprovante e mesmo assim vocês cortam minha internet quase toda semana. Você ainda me pergunta porque eu quero cancelar essa porcaria de internet? Escreve aí: “o cliente quer cancelar porque acha o serviço uma merda”!!!
– (atendente) Perfeito. Aguarde um momento…

Fiquei uns quinze minutos esperando, até que a linha caiu. Liguei de novo. Respirei fundo enquanto ligava novamente. Outro rapaz atendeu e tive de passar pelo mesmo diálogo, até chegar ao ponto em que estávamos antes da linha cair. Inclusive esperar mais uns 15, 20 minutos.

 – (atendente) Senhor Fábio, ainda consta um débito aqui.
– (otário, irritado) Eu já expliquei pra você, eu paguei essa conta e inclusive já levei o comprovante. Cansei de explicar isso pra vocês. Toda semana é a mesma coisa. Por isso que vou cancelar.
– (atendente) Correto, senhor. Mas vou explicar porque a sua conexão foi desligada.
– (otário, mais irritado) Eu já sei porque desligaram. Não quero mais saber de nada. Quero que você cancele minha conta e pronto.
– (atendente) Tudo bem, senhor, mas é que tem uma razão para a linha ter sido desligada.
– (otário) Sim, eu sei. E eu já expliquei porque vocês precisam religar. Mas não adianta. Já liguei várias vezes ontem, hoje também e não resolvem meu problema.
– (atendente) Senhor, mas a justificativa é que…
– (otário, agora falando pausadamente) Meu amigo, são 9h10. Estou ligando pra vocês desde umas 8h15. Estou há praticamente uma hora pedindo pra vocês religarem minha internet e não ligam. Já paguei as contas, já levei comprovante e nem isso adiantou. Pra que eu vou ficar com um serviço que não presta? Agora eu tô pedindo pra vocês cancelarem e você me vem com justificativa? Olha, de desculpas, assim como de boas intenções, o inferno está cheio.
– (atendente) Mas…
– (otário, ainda falando pausadamente) Vamos fazer o seguinte: você cancela minha conta, eu não preciso mais ficar gritando na sua orelha, você vai poder atender outras pessoas e eu vou cuidar da minha vida. E todos nós ficamos felizes para sempre. Que tal?
– (atendente) Correto, senhor. Vou cancelar. Aguarde um momento.
– (otário) Tá bom…
– (atendente) Senhor, o pedido de cancelamento já está cadastrado. No dia 22 iremos retirar o equipamento da internet.
– (otário) Como assim, dia 22?
– (atendente) É que só temos esse dia disponível.
– (otário) Quer dizer que eu tenho de me adequar à agenda de vocês porque vocês não têm ninguém pra fazer esse trabalho outro dia? Não vou deixar de fazer meus compromissos porque vocês só podem vir nesse dia. Hoje ainda é dia 2!!!!
– (atendente) Mas então o senhor marca outra data.
– (otário) Ah, tá bom. Marca pro dia 22. Se eu não puder, eu ligo. Obrigado por nada.

 Quando sai o próximo trem pra Vladivostok?

A arte da embromação

setembro 2, 2009

– Boa tarde, eu tenho um cartaz e queria enquadrá-lo. Quanto é que custa?

– Veja bem…

– (pensando) Puta que pariu, lá vem…

– … pra saber o preço é muito relativo. Depende de um monte de coisa.

– Ah, sim. Eu queria uma moldura exatamente como essa aqui (aponta para um quadro).

– Olha, não dá pra saber exatamente o preço. Você tem de dizer o tipo de moldura, da cor, o material, se vai com vidro ou não…

– Então, mas eu quero uma moldura exatamente como essa. Igualzinha.

– Ah, mas você tem de ver se o material da moldura que você vai utilizar é de madeira, de plástico, de aço, adamantium etc.

– Sim, moça. Mas eu quero exatamente essa moldura. O mesmo desenho, o mesmo material, o mesmo tipo. E quanto ficaria um quadro desse com vidro?

– Olha, não dá pra saber assim fácil, não. Você tinha de me dizer o tamanho do cartaz.

– Claro, ele é mais ou menos… (olha os quadros ali perto)… é do mesmo tamanho daquele quadro ao lado.

– Então, mas você tem de me passar o tamanho do cartaz para saber o preço para enquadrar.

– Mas é do tamanho daquele quadro ali, esse das flores (aponta para o quadro, que está ao lado da atendente).

– Então, mas eu preciso saber o tamanho exato…

– É EXATAMENTE do tamanho daquele quadro. É o mesmo tamanho, o mesmo formato. Quanto ficaria para enquadrar um cartaz desse tamanho e deixá-lo desse jeito?

– Olha, é complicado, preciso ver além do tamanho, que tipo de moldura você vai colocar, o modelo, de que material é feito…

– (desistindo) Tá bom, tá bom. Você tem um cartão?

– Olha, estamos sem cartão. Mas eu escrevo o telefone num papel, tá bom?

Mas claro, se as vendas desabarem, é por causa da crise…

Meu Twitter é aqui (2)

agosto 20, 2009

– O site da patroa está com nova promoção. Agora o prêmio é uma transformação visual para a mulherada. Cola lá: http://bit.ly/3VBJ3d

– Xuxa ganha Kikito em Gramado pelo conjunto da obra. O fim do mundo? Que nada! Vem aí a animação “Ivete Stellar e a Pedra da Luz”. Medo!!

– Falando em fim do mundo, aposto que o Paulo Coelho vai ser o primeiro brasileiro a ganhar o Nobel de Literatura. Aguardem e chorem!!

– Serra dá entrevista sobre todos os assuntos Brasil afora. Mas acreditem: ele NÃO está fazendo campanha antecipada à presidência.

– Depois do fim da obrigatoriedade do diploma, os salários para jornalistas caíram drasticamente. Em breve, trarei aqui as provas.

 – O History Channel praticamente virou um Discovery 2. Professores de História e afins estão a ponto de ficar órfãos.