Archive for the ‘Muro das Lamentações’ Category

É que a gente era engajado…

maio 30, 2014

Dois garotos conversam sobre futebol em 2026

– Enzo…
– Que foi, Theo?
– Quando será que o Brasil vai receber outra Copa?
– Ih, vai demorar, cara. Tivemos uma copa 12 anos atrás. Por que você tá perguntando isso?
– Ah, porque tô vendo as notícias lá do Marrocos, onde vai ter a Copa este ano. Todo mundo celebrando, fazendo a maior festa, na maior expectativa. Imagina como vai ser quando tiver aqui de novo!
– Puxa, Theo, verdade! Imagina como deve ter sido aqui em 2014!
– Engraçado que eu procurei na internet e não achei muita coisa sobre a festa. Só uns protestos, uns negócios lá que eu não entendi.
– Pergunta pro seu pai como foi. Ele não tinha uns 30 anos quando teve a Copa? Ele deve lembrar como foi.
– Boa, Enzo! Vamos lá no bar perguntar pra ele!
– Oba, vamos!

(…)

– Pai.
– Que foi, menino?
– Como é que foi a Copa aqui no Brasil?
– O que você quer saber?
– Ah, tudo. O povo fez muita festa? A gente recebeu bem os outros torcedores? O país se pintou de verde e amarelo?
– Ué, filho, que pergunta! Em toda Copa o Brasil se pinta de verde e amarelo!
– Sim, mas a Copa é sempre em outro país. E quando foi aqui, a festa foi maior?
– Ah, filho, claro que sim. Foi uma coisa inesquecível! Faltando um mês para começar a Copa, tinha espetáculo pirotécnico todos os dias, com fogos em verde e amarelo. Todas as casas estavam pintadas com as cores do Brasil. Eu disse TODAS, sem exceção. Os desconhecidos se cumprimentavam na rua, se abraçavam, dizendo que a gente ia finalmente ter outra Copa aqui.
– Que legal, pai! E você, seus amigos, como ficaram?
– Eufóricos, Theo! Eu sempre ouvia as histórias de quando o Brasil sediou a Copa em 1950. Meu avô foi em dois jogos no Maracanã. Disse que foram os dias mais animados da vida dele. Falou da festa da torcida, da animação, da empolgação com o time. E eu não via a hora de vivenciar aquelas mesmas histórias!
– Ficou muito ansioso, seu Alberto?
– Claro, Enzo! A última semana antes da Copa eu passei praticamente em claro. Fiquei quase sete dias sem dormir direito, só pensando na Copa. Ficava mexendo no álbum de figurinhas, nos cards, nas revistas e pôsteres falando da Copa, via os DVDs…
– Ué, pai. Nunca vi nenhuma dessas coisas em casa.
– Não? Ah, filho… é que… bom, a gente perdeu na mudança…
– Ô, Alberto. Toma vergonha na cara, para de mentir pros meninos.
– Fica quieto, César!
– Quieto, nada. Não tem vergonha de ficar enrolando as crianças?
– Tomanocu, César. Vai cuidar da tua vida!
– Meninos, tudo isso aí que o Alberto tá contando aí é lorota, mentira!
– Como assim, seu César?
– Seu pai é um mentiroso de mão cheia. Ele foi contra a Copa no Brasil. Chegou a participar de manifestação de rua pedindo para não ter Copa do Mundo aqui. Ficava o dia inteiro na internet metendo o pau na Copa.
– Como assim?
– É, verdade. E quer saber do que mais? Essa foi a Copa mais sem graça que tivemos aqui desde que eu me conheço por gente. Tinha muito menos casa com bandeira, rua pintada e povo vestindo a camisa da seleção do que este ano, para você ter uma ideia.
– Sério?
– Sério mesmo. E sabe por quê? Porque teve um bando de chato que ficou falando que não tinha de ter Copa aqui, colocaram um monte de defeitos no país. Chegaram a falar que o Brasil não tinha condição de organizar o evento!
– Ué, mas o Marrocos não é muito mais pobre? Por que lá o povo tá feliz?
– Pra você ver, garoto. Aqui, o brasileiro torce pra tudo dar errado.
– Mas como alguém pode ser contra uma Copa no próprio país? Eu li uma matéria falando que o Marrocos vai faturar o dobro do que gastou!
– No Brasil também foi assim, garotos. Faturamos muito mais do que gastamos, mas ninguém pensou nisso na hora. Só ficou falando que não ia ter Copa.
– Caramba! Isso é verdade, pai?
– É… bem… filho, é verdade, sim…
– Como assim, pai? Você tem a oportunidade de ver uma Copa do Mundo, contar pros filhos, pros netos e foi contra?
– Ah, Theo. É que a gente pensou que tinha de investir em saúde, educação…
– Ué, mas o Brasil não ganhou mais dinheiro com a Copa? Não dava para investir assim mesmo?
– Ah… filho… é que naquela época a gente era engajado…
– Engajado. Hahahahahahaha.
– Ô César, não enche o saco. Você já atrapalhou demais. Some, vai!
– Puxa, pai. Se você pensava assim naquela época, então o senhor deve ter participado de várias manifestações contra os gastos com o Carnaval e a Festa do Peão, né?
– É, bem…

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Sobre jabuticabas e vira-latas

abril 2, 2014

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Não lembro quantos anos tinha quando ouvi, pela primeira vez, alguém falar que a jabuticaba existia apenas no Brasil. Só me recordo que o autor da frase o fez com certo orgulho, como se isso nos tornasse um país melhor (e como se não houvesse milhares de frutas endêmicas aqui e alhures).

É um orgulho inexplicável, a não ser que a pessoa em questão seja tarada por jabuticabas. Mas o fato é que ouvi essa conversa muitas vezes. Até que um dia a fruta se tornou vetor de outro argumento, tão esquisito quanto: o famigerado “é uma jabuticaba”. Se algo só existe no Brasil, basta incluir na expressão: “_______ é uma jabuticaba”.

Essa analogia é feita geralmente com conotação altamente negativa. O grande problema é que esse artifício deixou de ser um adereço argumentativo para se tornar um argumento por si só: algo é ruim porque só existe no Brasil. Ponto.

O argumento (ou a falta de) se tornou uma espécie de bíblia para uma espécie típica de nossas terras: o cidadão vira-lata. Para ele, o Brasil existe apenas para colecionar acontecimentos negativos e situações tragicômicas. E, desta forma, fazer sua população passar vergonha perante o mundo.

Como reconhecer um cidadão vira-lata

O cidadão vira-lata adora reclamar de tudo, mas para ele não basta criticar: é preciso enfatizar que o problema em questão é uma prova irrefutável do quão desmoralizado é o país. A rua está esburacada não porque o prefeito é um mau administrador ou porque a chuva foi forte demais, mas porque o Brasil é uma porcaria.

A linha de raciocínio deste personagem está escorada em um tripé de resmungos e constatações depreciativas, a saber:

1  Nada que exista somente no Brasil pode ser bom. Se fosse realmente algo positivo, existiria em outro país;

2 – A falta de parâmetros com outras nações não é impeditivo para decretar que somos a pior delas, em quaisquer aspectos;

3 – Quando alguma coisa ruim ocorre em outro país, pode ser uma exceção. Se acontecer no Brasil, certamente é regra.

 

Uma característica bem perceptível é a opinião preconcebida e imutável. Não adianta apresentar pesquisas, respeitadas internacionalmente, mostrando que o Brasil ocupa uma posição intermediária no ranking de corrupção, por exemplo. Para ele, somos o maior antro de ratos do mundo e se a pesquisa não chegou a essa conclusão é porque foi mal feita. Certo está ele, claro.

Talvez por isso o vira-lata goste tanto de telejornais policiais. Nosso personagem os assiste para manter bem alimentadas suas opiniões depreciativas. Ele precisa sustentar esse pequeno ódio dentro de si e se regala satisfeito a cada chacina, a cada assalto, a cada comentário selvagem do Datena ou do Marcelo Resende.

Ao cidadão vira-lata, o que importa é a opinião e danem-se os fatos. Se alguma informação vai ao encontro de seu pensamento, ele rapidamente o colhe, dissemina e os carimba com seus bordões preferidos de descontentamento. Se o fato é verdadeiro  ou não, é um detalhe.

“Ai, que absurdo”

Um exemplo urge ser lembrado. Recentemente, o Facebook foi varrido por postagens “informando” que Suzane Richthofen – condenada por planejar a morte dos próprios pais – havia sido designada para presidir a Comissão da Seguridade e Família da Câmara dos Deputados. “Só num país de merda como o Brasil isso poderia acontecer” foi o comentário recorrente. O fato de Suzane não ser deputada e estar presa na Penitenciária de Tremembé (SP) não significou nada para essas pessoas. Claro, nenhuma delas quer correr o risco de checar a informação e descobrir, para sua profunda tristeza, que a notícia não tem o menor fundamento. Vira-latas adoram boatos, não estrague sua alegria contando-lhes a verdade.

Para esses nossos amigos, não é preciso nem uma má notícia para endossar a imagem negativa que faz do país. Recentemente, fui testemunha de uma manifestação explícita de vira-latice, que me deixa pasmo até hoje. Em conversa com um casal de conhecidos, comentei sobre a série de vacinas que minha filha vinha tomando na época. Um comentário trivial, mas que mereceu um aparte insólito:

“Odeio vacina. É um absurdo. A gente fica com essa marca horrível no braço, que todo mundo enxerga de longe. No mundo inteiro, reconhecem a gente por causa disso. É a marca do brasileiro”.

Sim, meus amigos: a pessoa em questão conseguiu transformar algo absolutamente positivo (a imunização contra doenças mortais) em um motivo de vergonha. Consigo imaginá-la caminhando pelos corredores de um aeroporto, sendo ridicularizada por exibir uma horrenda e gigantesca chaga no braço direito.

Esse exército de descontentes atribui todos os problemas do país a outros. Eles nunca são responsáveis pelo que acontece na sociedade, mesmo fazendo parte dela. São sempre vítimas. Mal percebem que sua atitude é justamente uma das raízes de nosso atraso, porque incute o fatalismo, a sensação de que nada irá melhorar, porque é nosso destino ser uma nação miserável e problemática. Choram pitangas em vez de agir para tentar mudar o que consideram ruim.

Para eles, o Brasil não é um país feito de coisas boas e ruins, como todos os outros. É apenas um arremedo de nação, que coleciona vexames e infortúnios. E tendo como único consolo o sabor inigualável de uma jabuticaba.

Relato de uma família devastada pela fome na África

agosto 5, 2011

Após oito meses sem escrever nesta bodega, resolvi retirar as teias de aranha. No entanto, ainda não decidi no que transformar este blog. Até mesmo porque a falta de tempo para escrever o inviabiliza um pouco. Em breve (espero), terei uma resposta sobre o que fazer com este espaço. Até lá, envio um texto enviado pela assessoria de imprensa da Acnur (Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados) do Brasil. Bom pra você que se acha perseguido por Deus porque tomou um pé da namorada ou sujou o terno novo ao cair em uma poça de água.

O refugiado Abdulahi Haji Hassan olha para os rostos exaustos e confusos de sua família e contempla o dano que a seca e a fome provocaram em suas vidas. Madey, seu filho de dois anos, se apóia de forma apática no seio da mãe. Fama, sua filha de quatro anos, está coberta da poeira da caminhada de 27 dias pelo deserto – a família saiu de sua casa, no sul da Somália e caminhou até a fronteira com o Quênia.

Caminhar em direção ao refúgio não era uma questão de escolha. O sustento da família dependia dos rebanhos de animais. Suas 70 cabras e 30 vacas adoeceram e morreram uma a uma, à medida em que a pior seca negava água e alimentos aos animais. O rebanho era, em muitos aspectos, considerado parte de sua família e sua perda foi catastrófica.

Quando a última vaca morreu, todos sabiam que as crianças seriam as próximas. A mãe de Abdulahi lhe disse que deixasse o vilarejo. “Eu não quero que suas crianças morram de fome”, disse. “Vá a qualquer lugar onde possa conseguir ajuda e eu vou rezar para que você chegue lá a salvo”.

A família Hassan está entre os 1,3 mil refugiados somalis que chegam diariamente aos arredores dos campos de Dadaab, no nordeste do Quênia, incluindo Dagahaley. A capacidade do Acnur (Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados) para acomodar as pessoas recém-chegadas melhora a cada dia, mas a manutenção de uma cidade de 400 mil refugiados é assustadora. Recursos extras são necessários para proteger os vulneráveis, fornecer abrigo e garantir as necessidades de saúde.

Para aqueles que fogem da Somália, a primeira, e talvez a mais dolorosa missão, seja a jornada em si. A família Hassan organizou sua expedição junto com outras sete famílias. Eles levaram consigo tudo o que tinham; uma carroça feita a partir de um antigo eixo de carro, um saco de milho moído e um grande recipiente plástico contendo água.

Eles descansavam durante o dia e caminhavam durante a noite. Depois de uma semana, o tempo parecia duplicar. “Todas as noites que você viaja são iguais. Não existe noite boa ou noite ruim. Existe somente a noite”. disse Abdulahi. “Você pensa na situação de seus filhos, com qual deles você deve se preocupar. Eu me preocupava mais com o menor, é claro”. As crianças comiam pequenas porções de milho e água enquanto os pais na maioria das vezes ficavam sem nada.

Pedagiômetro

julho 23, 2010

A ideia da Associação Comercial de São Paulo ao criar o “impostômetro” – indicador que mostra quando o governo arrecada com impostos – pelo visto, pegou. Uns gaiatos resolveram criar uma espécie de “resposta” e lançaram o “pedagiômetro”, mostrando quanto as concessionárias conseguiram arrecadar este ano nas estradas paulistas.

Gostei tanto da ideia que resolvi inclusive deixar o índice aqui, correndo. Mas como não consegui, você pode saber mais sobre o “pedagiômetro” clicando aqui

Previsões 2010. Ainda dá tempo?

janeiro 8, 2010

A idéia era fazer um singelo calendário de previsões para 2010, mas metade do que previ já aconteceu nestes primeiros dias de janeiro. Fazer o quê? Vamos seguir com a bagaça…

23 de janeiro – Véspera de feriado prolongado em São Paulo, por conta do aniversário da cidade. Todo mundo some da Paulicéia e entope as marginais. No final da tarde, uma forte chuva faz os rios Tietê e Pinheiros transbordarem. Centenas de milhares de pessoas ficam isoladas por conta da cheia, sem poderem seguir em frente nem retornar para suas casas. O prefeito da cidade, Gilberto Kassab, sobrevoa a região. Criticado pela imprensa, ele se defende das acusações de negligência apontando dois novos piscinões recém construídos. Tratam-se na verdade, dos bairros Jardim Romano e Pantanal, que ainda acumulavam água da enchente anterior e ficaram totalmente alagadas.

Fevereiro – o Campeonato Paulista começa a ferver. Mas o Corinthians, que começou embalado, começa a puxar o freio de mão. Ronaldo se submete a uma nova lipoaspiração. Roberto Carlos assina contrato milionário com indústria de meias e fica duas semanas longe dos treinos. André Sanchez promete trazer Riquelme na segunda fase da Libertadores. O São Paulo amarga três derrotas seguidas e diretoria do clube toma providência drástica: demite o presidente da Comissão de Arbitragem da FPF.

Março – o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, inaugura rodovia inacabada no Piaui, acompanhado de Dilma Roussef. José Serra faz a inauguração de estação de metrô em São Paulo, igualmente inacabada. Os eventos contam com a participação, respectivamente, de José Sarney e Michel Temer.

Abril – Caetano Veloso lança três discos simultâneos: “A paz é branca”, “A Alegria é Azul” e “A paixão é vermelha”. Canções como “O abaeté da minha vida”, “Canô, can o” e “Badulaque Sagarana” ganham as rádios e aberturas de novelas. A “Ilustrada”, caderno cultural da Folha de S. Paulo, saúda os álbuns como “O testamento de um gênio”. “A juventude grisalha”, vaticina o “Caderno 2”, do Estado de S. Paulo. O “Segundo Caderno” de O Globo é ainda mais efusivo. “Brasil, somos felizes porque temos Caetano”.

Julho – Depois de sofrer fortes críticas por seu mau desempenho na primeira fase da Copa do Mundo, a seleção brasileira para de falar com a imprensa, mas reforça sua união e, com atuações de gala, supera Espanha, Itália e Argentina nas fases finais, conquistando o hexacampeonato. Eufórico com a conquista, Dunga esbraveja com a imprensa nos microfones: “vão tomar no cu ceis tudo”

Agosto – O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, anuncia um planejamento especial e altamente detalhado para que a seleção brasileira faça bonito na Copa de 2014, que jogará em casa. E anuncia Carlos Alberto Parreira como técnico, Mário Jorge Lobo Zagalo como coordenador técnico e Vanderlei Luxemburgo como Manager.

Outubro – MTV promove mais uma edição do Vídeo Music Brasil. Fresno ganha prêmios de melhor clip de rock, clip do ano e Escolha da Audiência, que tem Pitty como segunda colocada. Charlie Brown Jr. ganha prêmio especial pela carreira. Ponto alto da festa foi o retorno da banda Polegar, que iniciará turnê nacional com o objetivo de arrecadar fundos para Rafael Pilha, digo, Ilha, novamente internado em clínica de desintoxicação.

Novembro – Depois de manter a liderança do Campeonato Brasileiro desde a primeira rodada, Palmeiras cai para a quarta posição, após perder em pleno Palestra Itália para o Atlético-GO, lanterna do campeonato. O técnico Muricy Ramalho é demitido e a diretoria começa os contatos com Tite, Mário Sérgio e Paulo Bonamigo. Diego Souza, que no início do Campeonato era sondado por Barcelona, Real Madrid e Manchester United, agora está em baixa e a melhor proposta feita a ele vem da Moldávia. O inferno astral do jogador chega no final do mês, quando é espancado por integrantes da Mancha Verde.

Dezembro – Disco e Especial de Roberto Carlos, disco natalino da Simone e especulações nos cadernos de esporte. Esqueci-me de algo?

Que feriado? Num sei*

novembro 20, 2009

O doutor Emmet Brown deu uma passadinha por aqui e deixou um material que eu tinha encomendado: jornais de 2019 (sim, eles ainda vão existir!). Selecionei as matérias referentes ao Feriadão da Consciência Negra. Confira

 

Feriadão da Consciência Negra: 10 milhões nas estradas

O feriadão prolongado da Consciência Negra deste ano foi responsável por mais um recorde de tráfego nas estradas paulistas: nada menos que dez milhões de pessoas deixaram a capital e a grande São Paulo rumo ao litoral e interior do Estado. Foi o feriado com o maior fluxo de veículos do ano e superou em mais de 20% o volume registrado no feriado de 2014, ano que havia registrado a maior marca.
Segundo a polícia rodoviária, o número de acidentes cresceu 19%. “O crescimento foi grande, mas seguiu a mesma margem de aumento no tráfego. Mas o grande problema é no primeiro dia de folga, quando todos querem viajar o quanto antes para aproveitar o feriadão e por isso abusam da velocidade”, comentou o sargento da polícia rodoviária, Rodrigo Nascimento.
Apesar de apontar a velocidade como causa de muitos acidentes, o policial cita que houve pontos de grande lentidão nas estradas. “Na Dutra os carros ficaram parados durante quatro horas na altura de Arujá e também de São José dos Campos. Na Ayrton Senna, a situação também ficou complicada, assim como em Atibaia, onde a ligação entre a D. Pedro e a Fernão Dias ficou congestionada durante todo o sábado”, comentou Nascimento.


Kassab promete “quadruplicação” de rodovias

O governador de São Paulo, Gilberto Kassab, anunciou que no próximo ano apresentará o projeto executivo para novas duplicações das rodovias Ayrton Senna-Carvalho Pinto, D. Pedro I e do sistema Anchieta-Imigrantes. Segundo ele, os megacongestionamentos registrados em todo o estado no Feriadão da Consciência Negra motivaram o anúncio das obras, que vêm sendo chamadas de “quadruplicação”.
“Infelizmente o estado não está com muito dinheiro em caixa e o ideal seria esperar mais uns anos, mas a situação se mostrou catastrófica e não podemos esperar mais”, afirmou o governador, que admitiu que, para financiar o projeto, as rodovias terão de ganhar novos pedágios. “Teremos uma praça a cada 50 quilômetros, com cobrança nos dois sentidos”.
Kassab afirmou que vai entrar em contato com a presidente da República, Heloísa Helena, para que ela ajude o Estado. “Pretendo me reunir com ela para ver se o governo federal poderá também ‘quadruplicar’ as rodovias Presidente Dutra e Fernão Dias, bem como a Rio-Santos”. Apesar dos anúncios de obras, ele afirmou que a duplicação da Mogi-Bertioga está descartada. “Vamos recuperar alguns trechos e construir terceira pista em outros, nada além disso”.


População desconhece origem do feriado

Há mais de dez anos o Brasil celebra o Dia da Consciência Negra e há exatos cinco anos, aproveita o feriado nacional. No entanto, a grande maioria da população desconhece os acontecimentos históricos que deram origem à data. A reportagem foi às ruas e perguntou às pessoas o que elas sabiam sobre a data. A maioria afirmou não fazer a maior idéia. Quem se arriscou a responder não conseguiu acertar. “Teve a ver com a ditadura militar, não é?”, comentou a dona de casa Dulcinéia de Jesus. Informada sobre Zumbi, ela não deu o braço a torcer: “É verdade. Ele foi torturado pelos militares, não é?”
Jenifer de Couto Prado, estudante de 34 anos, creditou o feriado à libertação dos escravos: “É sobre a princesa Isabel, não é? Não sei muito bem. Parece que já teve esse feriado este ano”.
Apesar da obrigatoriedade do ensino de História Afro-brasileira nas escolas, as crianças também não estão bem informadas sobre a data. Os irmãos gêmeos Rogério Ceni e São Marcos de Oliveira, de 10 anos, atribuem a origem do feriado a um acontecimento esportivo de 1958. “Naquele ano teve Copa do Mundo e vários negros foram afastados da seleção brasileira acusados de serem pipoqueiros. Eu acho que foi isso”, disse Rogério. O irmão endossa a opinião. “Depois houve um movimento para colocaram o Pelé, o Garrincha e o Djalma Santos no time e eles garantiram o título”.
Na verdade, a data de 20 de novembro foi escolhida como o Dia da Consciência Negra por marcar a morte de Zumbi dos Palmares. Em 2003, a lei 10.639, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estabeleceu a data como parte do calendário escolar brasileiro. A mesma lei tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira. Em 2012, o sucessor de Lula, Frank Aguiar, instituiu o feriado obrigatório, aprovado no Congresso graças a emenda constitucional.

* Texto escrito em 2007 e devidamente atualizado

Palmeiras, um time de bambis?

outubro 26, 2009

bambisDurante muitos anos, minha diversão era irritar meu irmão são-paulino falando do São Paulo de 2001. Naquela época, bastava eu falar que o São Paulo era “um time de bambis” para ele vociferar em alto volume. E, depois de soltar seu rosário de impropérios, ele resmungava, bem baixinho. “Vou falar o quê? São um bando de bambis, mesmo. Time filho da puta…”

 

A equipe em questão era, ao menos no papel, um timaço. Tinha três jogadores que hoje estão na seleção brasileira: Luiz Fabiano, Kaká e Julio Baptista. Outros viviam bom momento, como França, Beletti e Gustavo Nery. Era time para ganhar vários títulos, mas tudo o que conseguiu foi um magro torneio Rio-São Paulo. De impactante, o único legado que deixou foi o estigma de freguês do Corinthians, que perdura até hoje. Foi nessa época que surgiu a famosa piadinha de que o estádio do Morumbi era o salão de festas do Corinthians. Restou também a pecha de time pipoqueiro: geralmente o time ia muito bem nas fases iniciais e capotava em qualquer jogo importante que aparecesse pela frente.

Pois bem: oito anos se passaram e tem um time disposto a ocupar o lugar dos são-paulinos: o Palmeiras. Uma equipe que tem Marcos, Pierre, Diego Souza, Cleiton Xavier e Vagner Love, além de Muricy no banco, lidera um campeonato com cinco pontos de vantagem sobre o segundo colocado e joga essa vantagem no lixo é um time que não merece respeito. Levando-se em conta que o clube não vence tal campeonato desde 1994, a coisa fica ainda mais séria.

Há quem diga: “ah, mas queda de rendimento é normal”. Sim, é normal: quando a causa é cansaço físico, problemas táticos ou simplesmente nervosismo. Mas não é o caso. Também não é dinheiro o problema: os salários têm sido pagos em dia e a premiação já foi fechada há muito tempo.

O que temos no Palmeiras é uma guerrinha de egos inadmissível até mesmo para ambientes tradicionalmente carregados de vaidade, como desfiles de moda, redações jornalísticas ou quetais. A chegada de Vagner Love fez com que jogadores como Cleiton Xavier e Diego Souza fossem corroídos pelo ciúme. E agora um não passa a bola para o outro.

Ciúme? Sim, ciúme. E como você chamaria um ser humano do sexo masculino de nutre ciúmes de outro ser do mesmo sexo: de bambi, oras!!!!

O Palmeiras pode ser campeão do mundo 70 vezes, pode ficar 134 anos ou 13 mil jogos sem perder do São Paulo, vencer cinco libertadores seguidas sem perder um jogo ou espancar todos os jogadores do Boca Juniors em plena Bombonera, mas se não ganhar esse Brasileirão vai se sacramentar para sempre como o time bambi, o time de bundas-moles, o time de garotas afetadas que não liga em perder o campeonato mais ganho da história do futebol, desde que apareça mais na TV do que aquela outra mocréia que joga no ataque. E nunca mais nenhum palmeirense vai ter moral ou razão para chamar um são-paulino de bambi.

O jornalista, depois do fim

outubro 13, 2009

Se você, pessoa feliz e distraída, acha realmente que o fim do diploma vai contribuir para a liberdade de imprensa, veja só o tipo de anúncio de emprego que já começou a surgir depois da ação do nosso querido STF:

Veja bem: não é estágio, mas o salário é menor que o piso da profissão

Veja bem: não é estágio, mas o salário é menor que o piso da profissão

Eu que não ia ser louco de trabalhar com um chefe que ganhasse um salário destes...

Eu que não ia ser louco de trabalhar com um chefe que ganhasse um salário destes...

O pior de tudo é que no questionário para a segunda vaga há uma questão singela: “Como você espera se manter motivado?” Boa pergunta. Com um salário de merda desses, eu também gostaria de saber.

Na Sibéria não tem nada disso (6)

setembro 24, 2009

CAPÍTULO FINAL? 

– (atendente) Bom dia…
– (otário) Péssimo dia. Quero cancelar minha internet porque vocês não têm competência para mantê-la funcionando. E nem pra registrar os pagamentos de mensalidade que eu faço para vocês. Paguei todas as contas e vocês ainda ficam com história de que não paguei a do mês de janeiro.
– (atendente) Perfeito. Qual o número do cliente?
– (otário) É tal.
– (atendente) E o número do protocolo?
– (otário) Ah, meu Deus. É tal.
– (atendente) Perfeito. Qual a razão de o senhor pedir o cancelamento?
– (otário) Preciso repetir ainda, meu filho? Vocês não conseguem manter minha internet funcionando por mais de um mês seguido. Depois não conseguem registrar meus pagamentos e vêm me cobrar por algo que eu já paguei. Depois eu levo o comprovante e mesmo assim vocês cortam minha internet quase toda semana. Você ainda me pergunta porque eu quero cancelar essa porcaria de internet? Escreve aí: “o cliente quer cancelar porque acha o serviço uma merda”!!!
– (atendente) Perfeito. Aguarde um momento…

Fiquei uns quinze minutos esperando, até que a linha caiu. Liguei de novo. Respirei fundo enquanto ligava novamente. Outro rapaz atendeu e tive de passar pelo mesmo diálogo, até chegar ao ponto em que estávamos antes da linha cair. Inclusive esperar mais uns 15, 20 minutos.

 – (atendente) Senhor Fábio, ainda consta um débito aqui.
– (otário, irritado) Eu já expliquei pra você, eu paguei essa conta e inclusive já levei o comprovante. Cansei de explicar isso pra vocês. Toda semana é a mesma coisa. Por isso que vou cancelar.
– (atendente) Correto, senhor. Mas vou explicar porque a sua conexão foi desligada.
– (otário, mais irritado) Eu já sei porque desligaram. Não quero mais saber de nada. Quero que você cancele minha conta e pronto.
– (atendente) Tudo bem, senhor, mas é que tem uma razão para a linha ter sido desligada.
– (otário) Sim, eu sei. E eu já expliquei porque vocês precisam religar. Mas não adianta. Já liguei várias vezes ontem, hoje também e não resolvem meu problema.
– (atendente) Senhor, mas a justificativa é que…
– (otário, agora falando pausadamente) Meu amigo, são 9h10. Estou ligando pra vocês desde umas 8h15. Estou há praticamente uma hora pedindo pra vocês religarem minha internet e não ligam. Já paguei as contas, já levei comprovante e nem isso adiantou. Pra que eu vou ficar com um serviço que não presta? Agora eu tô pedindo pra vocês cancelarem e você me vem com justificativa? Olha, de desculpas, assim como de boas intenções, o inferno está cheio.
– (atendente) Mas…
– (otário, ainda falando pausadamente) Vamos fazer o seguinte: você cancela minha conta, eu não preciso mais ficar gritando na sua orelha, você vai poder atender outras pessoas e eu vou cuidar da minha vida. E todos nós ficamos felizes para sempre. Que tal?
– (atendente) Correto, senhor. Vou cancelar. Aguarde um momento.
– (otário) Tá bom…
– (atendente) Senhor, o pedido de cancelamento já está cadastrado. No dia 22 iremos retirar o equipamento da internet.
– (otário) Como assim, dia 22?
– (atendente) É que só temos esse dia disponível.
– (otário) Quer dizer que eu tenho de me adequar à agenda de vocês porque vocês não têm ninguém pra fazer esse trabalho outro dia? Não vou deixar de fazer meus compromissos porque vocês só podem vir nesse dia. Hoje ainda é dia 2!!!!
– (atendente) Mas então o senhor marca outra data.
– (otário) Ah, tá bom. Marca pro dia 22. Se eu não puder, eu ligo. Obrigado por nada.

 Quando sai o próximo trem pra Vladivostok?

A revolta do Zen

agosto 26, 2009
Foto: Wilson Dias/ABr

Foto: Wilson Dias/ABr

Eduardo Suplicy é uma figura sui generis na política brasileira. De fala mansa, sempre muito tranquilo, chega a irritar os mais apressados e ansiosos. Especialmente quando leva alguns anos para completar um raciocínio e proferir uma frase, por mais simples que seja. Mas nas palestras que profere país afora, se torna praticamente um ídolo da juventude, ao lembrar os sonhos de um passado não tão distante e cantar músicas de Bob Dylan e Racionais MC’s. Sempre da forma mais esdrúxula possível.

Para muitos, Suplicy é a imagem pronta de um loser de escola. Um cara honesto que, por isso mesmo, é alvo de chacota. Eu mesmo chego a ter a impressão de que, um dia qualquer, algum senador do DEM vai colocar um bilhete escrito “me chute” em suas costas.

Por outro lado, sempre foi um cara que criticou abertamente as alianças espúrias do PT, o partido que ajudou a fundar. Enquanto seus velhos amigos lambiam o saco da escória do PMDB, ele se manteve à margem e não se escondeu. Ao contrário: fez questão de tornar pública sua opinião. Mesmo assim, se recusou a abandonar seu partido, alegando que precisava zelar por ele.

Pregando no deserto, infelizmente ele não conseguiu fazê-lo. Mas é emblemática a frase de Lula sobre ele, justamente quando o PT tentava se aproximar do PMDB. Alguns correligionários pediram que Suplicy participasse do processo mas o presidente da República recusou. “Não dá pra contar com o Suplicy porque ele segue apenas a consciência dele”, afirmou, como se isso fosse um pecado mortal, e não uma virtude cada vez mais rara hoje em dia.

No entanto, ontem o homem-paciência mostrou que tudo tem limite. Assim como muitos no Senado, ele subiu à tribuna para pedir a renúncia de José Sarney. Mas Suplicy não é um senador qualquer, e seus protestos teriam de se destacar pelo inusitado. Pois o homem surgiu armado de um cartão vermelho. Ergueu os braços com o acessório às mãos e fez a alegria dos fotógrafos e repórteres presentes. De quebra, bateu boca com o nojento Heráclito Fortes e demonstrou uma ira e revolta que nunca tinha presenciado partindo dele.

Por se tratar de Eduardo Suplicy, a teatralidade do gesto deixou de ser uma forma demagógica de chamar a atenção para se tornar apenas uma forma curiosa de demonstrar nojo pela situação atual do Senado. O senador paulista sempre se destacou pelas atitudes curiosas e, desta vez, não seria diferente. Porém, bem melhor que o cartão vermelho em si, foi presenciar o ódio sincero do sempre tranquilo senador. Desta forma, ele nos mostrou que, afinal, não estamos sozinhos em nossa ira.