Vá ao teatro, mas não me convide (já estarei lá)

março 10, 2010

Meu caro amigo Paulo F continua em sua saga por um teatro bacana e sem frescuras. O que, diga-se, não é nada fácil. Afinal de contas, ele não é um autor badalado e tampouco conta no elenco de suas peças com algum global ou integrante do CQC. Como atrair as pessoas ao teatro, então? Com um trabalho de qualidade. E um bom exemplo está nas peças que ele encena no teatro Ruth Escobar, e que seguirão em cartaz até o dia 4 de abril.

Paulo F sabe como tratar as palavras, para dar a elas o peso ou a leveza necessária e para arrancar o riso ou a lágrima. Foi assim com suas peças anteriores: “Algo no Jeito Como ela se Move” e “São de Cera as Luzes da Cidade”. O mesmo acontece nas comédias com que tem trabalhado. Depois de dirigir “Mulheres, Bobeiras e um Ataque de Risos”, ele segue em cartaz com “Sedutor por Acaso”, escrita e dirigida por ele.

“Sedutor por acaso” mostra a história de Daniel, um rapaz tímido e inseguro, que curte uma longa fossa por ter sido abandonado por Linda, sua ex-namorada. As confusões em sua vida começam depois que ele é hipnotizado por seu analista e se transforma em um sedutor irresistível.

Paulo F. também está com outra peça, desta vez um infantil. “O Livro dos Sonhos” é uma interessante história sobre a importância dos livros, especialmente dedicado às crianças, hoje tão imersas na televisão e nos computadores. Nesta peça, a protagonista encontra personagens clássicos das histórias infantis, como o Capitão Gancho, o Coelho Branco (de “Alice no País das Maravilhas”) e Ariel, a pequena sereia, além de enfrentar o terrível Senhor dos Sonhos. O espetáculo utiliza recursos multimídia e efeitos especiais.

Não fique aí parado, encostado, enfurnado feito um bundão. Vai lá no Ruth Escobar! 

SAIBA MAIS

Sedutor por Acaso (comédia)
Texto e direção: Paulo F.
Teatro Ruth Escobar – Sala Miriam Muniz
Rua dos Ingleses, 209, Bela Vista, São Paulo-SP
Até: 4 de abril
Em cartaz: Sextas, às 21h30; Sábados, às 21 horas e Domingo, às 19 horas
Classificação etária: recomendada para maiores de 14 anos
Elenco: Aline Abovsky, Géssica Alvarenga, Júlia Mariano, Juliano Dip Lencioni, Paulo F. e Tadeu Pinheiro
Sinopse: Após uma experiência mal sucedida em sua sessão de terapia, um jovem nerd acaba se tornando um exímio conquistador, causando diversas confusões e maus entendidos em sua vida.
Duração: 60 minutos
Ingresso: R$ 30 
O Livro dos Sonhos (infantil)
Texto e direção: Paulo F.
Teatro Ruth Escobar – Sala Miriam Muniz
Rua dos Ingleses, 209, Bela Vista, São Paulo-SP
Até: 4 de abril
Classificação: Livre
Em cartaz: Sábados e domingos, às 17h40
Elenco: Maira Peres, Ferdi Mendonça e Flávia Suzuki
Sinopse: Para acabar com a tristeza que ameaça o mundo da imaginação, a pequena Lena viaja pelo mundo dos contos de fadas. O espetáculo utiliza recursos multimídia e efeitos especiais.
Duração: 50 minutos
Ingresso: R$ 20 (ou R$ 10 para crianças até 12 anos ou com até uma hora de antecedência)

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Mais tensão, menos política

março 2, 2010

Este cara sim é workaholic. O resto é conversa!

“Guerra ao Terror” é um dos filmes indicados ao Oscar. Campeão de indicações (nove, o mesmo número de “Avatar”), o filme corre o risco de ficar de fora da disputa por conta de alguns vacilos de um dos produtores, Nicholas Chartier, que andou fazendo lobby escandaloso pelo filme.

Se isto realmente acontecer será um pena, pois este é um trabalho que joga uma lufada de ar no gênero dos filmes de guerra. Dirigido por Kathryn Bigelow, ele foge do padrão tradicional das películas sobre as guerras do Iraque e Afeganistão. Não há citações políticas evidentes e escancaradas durante o filme, não se faz defesa ostensiva ou crítica dura à intervenção norte-americana nestes países.

O filme conta a história de um esquadrão anti-bombas que atua no Iraque, às vésperas de seu retorno para casa. Um dos especialistas morre em ação e logo em seguida chega seu substituto: o maluco sargento William James, que trata de impor seu “estilo” logo no primeiro dia de trabalho.

Toda a história gira em torno do sargento James, de suas idiossincrasias e da maneira tensa com que se relaciona com os colegas de equipe. Tensão, aliás, sobra no filme, especialmente durante as missões do grupo. As cenas de ação são menos abundantes que em outros filmes do gênero, mas nem por isso o filme é morno.

“Guerra ao Terror” conseguiu um grande feito: tratar das loucuras do front sem tomar partido, coisa rara de se ver hoje em dia. Este é, disparado, o seu maior trunfo. Se o filme não for eliminado do Oscar, como se cogita, tem tudo para receber o devido reconhecimento.

O legado de Dunga

fevereiro 15, 2010

Vamos à Copa de 2010 com um técnico inexperiente. Até assumir a Seleção Brasileira, Dunga tinha atuado como treinador apenas em prosaicos jogos de Show Ball. Mas ele conseguiu se virar bem no duro teste e desembarcará na África com o apoio de quase toda a mídia esportiva. Mas independente do resultado na Copa, ele já terá deixado o seu grande legado: resgatar o respeito perdido por anos de mercantilismo.

Há muitos anos a Seleção Brasileira deixou de ser uma instituição respeitável para virar a Casa da Mãe Joana. Nenhum país de respeito mandava seu time ao Brasil para nos enfrentar. E mesmo lá fora, os únicos amistosos eram com seleções pra lá de inexpressivas, que pagavam os olhos da cara para enfrentar os brasileiros. Sabe aquelas superbandas de rock que nunca vieram ao Brasil no auge mas que, depois de decadentes passam a vir aqui ano sim, ano também? Pois. Este era o rumo da Seleção Brasileira até Dunga assumir o comando.

Lembro que, até a Copa de 2006, a última seleção de ponta da Europa a disputar um amistoso decente em território brasileiro foi a Alemanha, no longínquo 1991. Anos depois, a Holanda veio para cá. Mas os filhos da puta estavam tão a fim de jogo que se entupiram de acarajé e caipirinha na noite anterior e tiveram uma disenteria coletiva durante o jogo. Vergonha total. Para eles e para nós também.

A desmoralização não se restringia aos adversários. Os próprios jogadores brasileiros agravavam o quadro. Nego só vestia a amarelinha para se valorizar e conseguir contrato com equipes de ponta da Europa. Quem já estava nestes clubes defendia a seleção apenas se não tivesse nada melhor para fazer. Dunga sofreu isso na Copa América: convocou todas as estrelas, mas só Robinho veio. Com um time B, o Brasil atropelou os rivais argentinos na final e se sagrou campeão. A grande virada estava para começar.

Em pouco tempo, muita coisa mudou. O Brasil já fez amistosos importantes contra Inglaterra e Itália e recebeu Portugal, que não é uma potência mas contava com o então melhor jogador do mundo: Cristiano Ronaldo. O fato de o atacante ter jogado a partida foi muito mais significativo do que parece à primeira análise.

Essa metamorfose da seleção afetou os próprios torcedores. Eles perceberam a importância de alguns valores que, até então, estavam esquecidos: raça, amor à camisa e, o mais importante, comprometimento. Os comerciais de TV que abordam a Copa deixaram de lado o discurso celebratório do futebol-arte e defendem uma seleção formada por jogadores que se entregam. Isso tudo não aconteceu por acaso e devemos a Dunga. Podemos até jogar mal e não sermos campeões, mas a semente da dignidade foi plantada, só precisa ser regada nos anos vindouros.

O jornalismo em tópicos

fevereiro 8, 2010

Esqueça o jornalismo investigativo, “new jornalism” e quetais. A forma de se fazer notícia no Brasil é peculiar e se divide em várias categorias, todas pitorescas. Conheça algumas delas:

Jornalismo Manoel Carlos
Já perceberam como jornal adora uma novela? Todos ficam esticando por semanas – às vezes por meses – um assunto que deveria ganhar repercussão por, no máximo, cinco dias. Ninguém aguenta mais, mas todos os veículos prolongam os temas com pautas sensacionais do tipo. “Garota assassinada era fã de Britney Spears”, “Deputado acusado de corrupção trabalhou como garçom na juventude” ou “Na várzea, Ronaldo fez muitos gols como o da semana passada”. Os editores só esqueceram de uma coisa: novela era longa nos anos 60, quando não existia nada para se fazer à noite.

Over mídia
Sou de um tempo em que “drama” era ficar sem os movimentos da perna em razão de um acidente e “tragédia” era perder toda a família numa chacina ou deslizamento de terra. Mas algo mudou de uns anos para cá: ou estes termos foram banalizados pela mídia ou os valores mudaram a ponto de os problemas acima se tornarem pequenos. Afinal, “drama” mesmo quem passou foi Bruno Senna, que corre o risco de não correr a Fórmula 1 este ano. Que o digam os incontáveis jornais e revistas que usaram a expressão para falar sobre o caso.

Jornalismo Você S/A
Esta não é uma crítica à publicação. Afinal de contas, por mais chata que seja, a revista é segmentada e apenas cumpre seu papel de atender bem seu público alvo (não, meu filho, não foi uma insinuação. Eu realmente quis dizer que esse povo é chato). Assim como uma revista sobre celebridades usa expressões como “fashion”, “poderosa”, “adoro” e afins, a Você S/A vai nos entupir de palavras modernosas como “networking”. Foda é você ver aspones bancando o executivo e anunciando que precisam de profissionais para um “job”. Daí assessor de imprensa vira “analista de comunicação” e o faxineiro vira “gestor de limpeza”. Agora imaginem as matérias produzidas num ambiente assim…

Escolinha Matinas Suzuki
O jornalista supracitado é conhecido por ser um dos artífices da “Revolução dos Menudos”, como ficou conhecido o processo de reformulação da Folha de S. Paulo nos anos 80. Sempre me chamou a atenção a postura do japa nas fotos: de terno e gravata, impecável e sempre de braços cruzados, mais parecendo um executivo que um jornalista. Desde então, editores e donos de jornais pagam de CEOs da casa do caralho, com a mesma pose. É da escolinha Matinas Suzuki que também sai a turma do Você S/A, descrita aí acima, que tenta encaixar expressões como “brainstorm” em um texto sobre acidente de trânsito ou o novo disco da Beyoncé.

Ejaculação precoce
Belo dia, uma grossa nuvem de fumaça sobe aos céus de São Paulo. Jornalistas, em todo o canto, começam a correr atrás de informações para soltar a matéria. Logo, chega à internet a primeira notícia sobre o assunto. Descobriram a causa da fumaça: queda de avião. Palmas para o autor, assinou um furo nacional. O jornalista mostrou rapidez, requisito fundamental para os corridos e dinâmicos dias de hoje. Será? Nem tanto. Poucos minutos depois, chega à tona a verdadeira notícia: o que de fato ocorrera foi um incêndio numa fábrica de colchões. Percebem a diferença entre uma coisa e outra? Dá pra acreditar que o primeiro jornalista REALMENTE apurou a notícia? Se isso é jornalismo, eu sou uma morsa.

Pré-fabricado
Nestes tempos internéticos, virou moda falar em “control C + control V” para falar sobre a triste mania de apenas copiar as matérias alheias. É o tal do “Jornalismo Google”, outra expressão muito usada. No meu tempo de faculdade, quando a internet engatinhava e ainda havia máquinas de escrever no campus, a expressão era “Gilette Press”. Mas pior que copiar matérias é quando conceitos são copiados. Sabe aquela frase que alguém fala e é imediatamente copiada à exaustão, sem que ninguém pare para pensar no que significa aquela frase? Leia qualquer página em qualquer jornal e você lerá toneladas de exemplos.

Prazer, meu nome é urubu

janeiro 18, 2010

Trecho de um longo diálogo entre dois jornalistas, na semana passada, comentando os acontecimentos dos últimos dias, em especial o terrível terremoto que devastou o Haiti

– Nossa, você viu as cenas no Haiti?

– Vi sim, que horrível, né?

– Demais, fiquei chocada.

– Eu também. Terrível.

– Eu queria estar lá agora…

– É, eu também… Peraí, não queremos ir pelo mesmo motivo, né?

– Acho que não…

– Você estar lá para ajudar o povo, né?

– Sim, e você?

– Não, eu queria estar lá pra fazer matéria…

Previsões 2010. Ainda dá tempo?

janeiro 8, 2010

A idéia era fazer um singelo calendário de previsões para 2010, mas metade do que previ já aconteceu nestes primeiros dias de janeiro. Fazer o quê? Vamos seguir com a bagaça…

23 de janeiro – Véspera de feriado prolongado em São Paulo, por conta do aniversário da cidade. Todo mundo some da Paulicéia e entope as marginais. No final da tarde, uma forte chuva faz os rios Tietê e Pinheiros transbordarem. Centenas de milhares de pessoas ficam isoladas por conta da cheia, sem poderem seguir em frente nem retornar para suas casas. O prefeito da cidade, Gilberto Kassab, sobrevoa a região. Criticado pela imprensa, ele se defende das acusações de negligência apontando dois novos piscinões recém construídos. Tratam-se na verdade, dos bairros Jardim Romano e Pantanal, que ainda acumulavam água da enchente anterior e ficaram totalmente alagadas.

Fevereiro – o Campeonato Paulista começa a ferver. Mas o Corinthians, que começou embalado, começa a puxar o freio de mão. Ronaldo se submete a uma nova lipoaspiração. Roberto Carlos assina contrato milionário com indústria de meias e fica duas semanas longe dos treinos. André Sanchez promete trazer Riquelme na segunda fase da Libertadores. O São Paulo amarga três derrotas seguidas e diretoria do clube toma providência drástica: demite o presidente da Comissão de Arbitragem da FPF.

Março – o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, inaugura rodovia inacabada no Piaui, acompanhado de Dilma Roussef. José Serra faz a inauguração de estação de metrô em São Paulo, igualmente inacabada. Os eventos contam com a participação, respectivamente, de José Sarney e Michel Temer.

Abril – Caetano Veloso lança três discos simultâneos: “A paz é branca”, “A Alegria é Azul” e “A paixão é vermelha”. Canções como “O abaeté da minha vida”, “Canô, can o” e “Badulaque Sagarana” ganham as rádios e aberturas de novelas. A “Ilustrada”, caderno cultural da Folha de S. Paulo, saúda os álbuns como “O testamento de um gênio”. “A juventude grisalha”, vaticina o “Caderno 2”, do Estado de S. Paulo. O “Segundo Caderno” de O Globo é ainda mais efusivo. “Brasil, somos felizes porque temos Caetano”.

Julho – Depois de sofrer fortes críticas por seu mau desempenho na primeira fase da Copa do Mundo, a seleção brasileira para de falar com a imprensa, mas reforça sua união e, com atuações de gala, supera Espanha, Itália e Argentina nas fases finais, conquistando o hexacampeonato. Eufórico com a conquista, Dunga esbraveja com a imprensa nos microfones: “vão tomar no cu ceis tudo”

Agosto – O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, anuncia um planejamento especial e altamente detalhado para que a seleção brasileira faça bonito na Copa de 2014, que jogará em casa. E anuncia Carlos Alberto Parreira como técnico, Mário Jorge Lobo Zagalo como coordenador técnico e Vanderlei Luxemburgo como Manager.

Outubro – MTV promove mais uma edição do Vídeo Music Brasil. Fresno ganha prêmios de melhor clip de rock, clip do ano e Escolha da Audiência, que tem Pitty como segunda colocada. Charlie Brown Jr. ganha prêmio especial pela carreira. Ponto alto da festa foi o retorno da banda Polegar, que iniciará turnê nacional com o objetivo de arrecadar fundos para Rafael Pilha, digo, Ilha, novamente internado em clínica de desintoxicação.

Novembro – Depois de manter a liderança do Campeonato Brasileiro desde a primeira rodada, Palmeiras cai para a quarta posição, após perder em pleno Palestra Itália para o Atlético-GO, lanterna do campeonato. O técnico Muricy Ramalho é demitido e a diretoria começa os contatos com Tite, Mário Sérgio e Paulo Bonamigo. Diego Souza, que no início do Campeonato era sondado por Barcelona, Real Madrid e Manchester United, agora está em baixa e a melhor proposta feita a ele vem da Moldávia. O inferno astral do jogador chega no final do mês, quando é espancado por integrantes da Mancha Verde.

Dezembro – Disco e Especial de Roberto Carlos, disco natalino da Simone e especulações nos cadernos de esporte. Esqueci-me de algo?

E se os mitos envelhecessem? (2)

dezembro 9, 2009

Tempos atrás, fiz um exercício de suposições sobre o que aconteceria com alguns mitos da música se eles não morressem tão cedo. A idéia era fazer outros textos em sequência, mas só agora tive a oportunidade de prosseguir.

Renato Russo
Depois de gravar o disco “A Tempestade”, Renato retoma sua carreira solo paralela. Em 1997, grava um disco só com músicas de compositores mineiros. A primeira canção de trabalho é “Ponta de Areia”, de Milton Nascimento. O arranjo “disco club” e o título dúbio transforma a nova versão em um hino gay, o que rende dissabores com Milton. Os dois acabam se estranhando em uma das edições do Vídeo Music Brasil, da MTV. Caetano Veloso e Chico Buarque defendem o mineiro e Renato Russo, revoltado, afirma que jamais voltará a cantar em português. E anuncia, ao vivo e sem consultar seus colegas de banda, o fim da Legião Urbana.

Agora sozinho, Renato Russo procura jovens músicos britânicos para montar uma banda indie. Conhece um talentoso rapaz chamado Stuart Murdoch e consegue uma vaguinha em seu grupo, o Belle & Sebastian. A parceria vai para o vinagre quando Renato sugere mudar o nome da banda para Eric Russel Band. O cantor brasileiro é expulso.

O pior ainda estaria por vir. Em 2000, queimado com as gravadoras, Renato surta quando ouve o novo disco do Belle and Sebastian: segundo ele, os trechos finais de “The Model” são um plágio à introdução de “Índios”, em sua versão acústica. Quando a banda britânica toca no Free Jazz, em 2001, Renato tenta invadir o palco para acertar contas com Murdoch e é surrado por seguranças.

Depois do vexame, Renato passa à reclusão e só aparece na mídia para esporádicas entrevistas. Em uma delas, no ano de 2005, anuncia estar gravando um novo disco, no estúdio instalado em sua casa, e que disponibilizará as canções gratuitamente pela internet. Mas antes de realizar seu intento, a casa é arrombada e vários bens são levados, inclusive um laptop com todas as músicas inéditas. Meses depois, o Capital Inicial lança o disco de inéditas “Música Urbana 3”, que logo faz grande sucesso. Dias depois, Renato Russo se suicida, deixando apenas um bilhete-trocadilho com os dizeres: “Banda de ladrões filhos da puta”.

Jim Morrisson
O ano é 1970. O cantor deixa definitivamente os Doors, que anunciam seu fim meses depois. Vivendo em Paris, o cantor passa longo tempo sem produzir nada, até que um belo dia convida John Lennon e Paul McCartney para trabalharem juntos. Só o segundo aceita. Surge “Live and Let Light My Fire”, disco com 5 músicas, sendo que apenas a faixa título tem menos de dez minutos. Todas as faixas têm leituras de poesias e grunhidos e o álbum se torna um completo fracasso.

Depois do mico gigantesco, Jim Morrisson resolve abandonar a carreira musical. Como havia torrado com drogas todo o seu dinheiro, passa a trabalhar como pequeno fornecedor de LSD e heroína em Los Angeles. Em poucos anos, se torna um dos maiores traficantes da costa oeste americana.

Em 1985, Morrison conhece um músico brasileiro que procura cocaína de qualidade para presentear seus colegas de banda. Depois de muita conversa, acabam decidindo gravar um disco juntos: no mês de setembro daquele mesmo ano, chega ao mundo “Sou Nós”, disco de rock repleto de letras de poesia concretista. A polícia invade a festa de lançamento do disco e prende Morrisson por tráfico de drogas, assim como seu parceiro no disco, Arnaldo Antunes.

O disco foi detonado pela crítica, mas a prisão jogou holofotes para a obra, que se tornou um sucesso no Brasil. Animado, Morrison resolve se instalar definitivamente no país e, após a libertação, convida Ronald Biggs e Serguei para montar uma banda. Ambos aceitam mas, no primeiro ensaio, Serguei mata Jim Morrisson com três tiros. “Antes de morrer, o cantor norte-americano ouviria do seu algoz. “Isso é por ter comido a Janis em 1969”.

Clique aqui e leia a primeira parte do texto

Querem enganar a quem?

novembro 30, 2009

É impressão minha ou todo mundo pirou? Sim, porque nos meus constantes arroubos de otimismo, prefiro achar que caiu um parafuso da cabeça de cada indivíduo deste Brasil varonil do que achar que a hipocrisia virou epidemia ainda mais contagiosa e mortal que a dengue e a gripe suína juntas. E como não podia deixar de ser, eis que o esporte segue sendo contaminado por defensores da moral e dos bons costumes.

A primeira vítima da onda moralista foi o presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo. Nos últimos dias ele foi enxovalhado pela imprensa esportiva por conta de um vídeo que vazou na internet, em que ele usa a frase “Vamos matar os bambis” em um evento da Mancha (Alvi)Verde. Claro, os arautos da ética já falaram que Belluzzo, logo ele, estava pregando a violência contra a torcida do São Paulo.

Na verdade, a alusão era apenas futebolística (na ocasião, o Palmeiras era líder isolado e o São Paulo tinha acabado de perder partida importante). Qualquer idiota sem más intenções perceberia que Belluzzo comemorava o fato de o Palmeiras estar muito perto do título àquele momento. Ah, mas usar a expressão “matar” é feio, incita a violência. Tá bom, cara pálida, então o que me diz de a própria imprensa esportiva utilizar as expressões “artilheiro” e “matador” há décadas para falar de jogadores que marcam muitos gols?

Evidentemente, os palmeirenses ficaram putos com a hipocrisia dos jornalistas. Mas infelizmente sofrem do mesmo mal. Ontem, vários ficaram putos pelo fato de o Corinthians ter “entregado” o jogo ao Flamengo. Ora, pílulas: se o Corinthians vencesse o Flamengo, deixaria São Paulo ou Palmeiras, seus maiores rivais, com chances enormes de ficar com o título brasileiro. Que reação vocês esperariam dos gambás? Será que, se estivéssemos no lugar deles, não faríamos o mesmo? Duvido muito que não.

Faço um paralelo com o comportamento dos torcedores do Internacional. Estes estão conformados com a perda do título. Afinal, eles precisam vencer e torcer para que o GRÊMIO vença o Flamengo no Maracanã. Quase impossível, não? E os colorados nem reclamam, certamente porque sabem que, se a situação fosse inversa, o Inter jamais se esforçaria para ganhar um jogo e dar o título ao maior rival.

Se tal atitude é condenável, e não deixa ser mesmo, são outros quinhentos. Agora, brincar de indignado a esta hora me deixa com muito mais asco que a atitude do Corinthians.

Que feriado? Num sei*

novembro 20, 2009

O doutor Emmet Brown deu uma passadinha por aqui e deixou um material que eu tinha encomendado: jornais de 2019 (sim, eles ainda vão existir!). Selecionei as matérias referentes ao Feriadão da Consciência Negra. Confira

 

Feriadão da Consciência Negra: 10 milhões nas estradas

O feriadão prolongado da Consciência Negra deste ano foi responsável por mais um recorde de tráfego nas estradas paulistas: nada menos que dez milhões de pessoas deixaram a capital e a grande São Paulo rumo ao litoral e interior do Estado. Foi o feriado com o maior fluxo de veículos do ano e superou em mais de 20% o volume registrado no feriado de 2014, ano que havia registrado a maior marca.
Segundo a polícia rodoviária, o número de acidentes cresceu 19%. “O crescimento foi grande, mas seguiu a mesma margem de aumento no tráfego. Mas o grande problema é no primeiro dia de folga, quando todos querem viajar o quanto antes para aproveitar o feriadão e por isso abusam da velocidade”, comentou o sargento da polícia rodoviária, Rodrigo Nascimento.
Apesar de apontar a velocidade como causa de muitos acidentes, o policial cita que houve pontos de grande lentidão nas estradas. “Na Dutra os carros ficaram parados durante quatro horas na altura de Arujá e também de São José dos Campos. Na Ayrton Senna, a situação também ficou complicada, assim como em Atibaia, onde a ligação entre a D. Pedro e a Fernão Dias ficou congestionada durante todo o sábado”, comentou Nascimento.


Kassab promete “quadruplicação” de rodovias

O governador de São Paulo, Gilberto Kassab, anunciou que no próximo ano apresentará o projeto executivo para novas duplicações das rodovias Ayrton Senna-Carvalho Pinto, D. Pedro I e do sistema Anchieta-Imigrantes. Segundo ele, os megacongestionamentos registrados em todo o estado no Feriadão da Consciência Negra motivaram o anúncio das obras, que vêm sendo chamadas de “quadruplicação”.
“Infelizmente o estado não está com muito dinheiro em caixa e o ideal seria esperar mais uns anos, mas a situação se mostrou catastrófica e não podemos esperar mais”, afirmou o governador, que admitiu que, para financiar o projeto, as rodovias terão de ganhar novos pedágios. “Teremos uma praça a cada 50 quilômetros, com cobrança nos dois sentidos”.
Kassab afirmou que vai entrar em contato com a presidente da República, Heloísa Helena, para que ela ajude o Estado. “Pretendo me reunir com ela para ver se o governo federal poderá também ‘quadruplicar’ as rodovias Presidente Dutra e Fernão Dias, bem como a Rio-Santos”. Apesar dos anúncios de obras, ele afirmou que a duplicação da Mogi-Bertioga está descartada. “Vamos recuperar alguns trechos e construir terceira pista em outros, nada além disso”.


População desconhece origem do feriado

Há mais de dez anos o Brasil celebra o Dia da Consciência Negra e há exatos cinco anos, aproveita o feriado nacional. No entanto, a grande maioria da população desconhece os acontecimentos históricos que deram origem à data. A reportagem foi às ruas e perguntou às pessoas o que elas sabiam sobre a data. A maioria afirmou não fazer a maior idéia. Quem se arriscou a responder não conseguiu acertar. “Teve a ver com a ditadura militar, não é?”, comentou a dona de casa Dulcinéia de Jesus. Informada sobre Zumbi, ela não deu o braço a torcer: “É verdade. Ele foi torturado pelos militares, não é?”
Jenifer de Couto Prado, estudante de 34 anos, creditou o feriado à libertação dos escravos: “É sobre a princesa Isabel, não é? Não sei muito bem. Parece que já teve esse feriado este ano”.
Apesar da obrigatoriedade do ensino de História Afro-brasileira nas escolas, as crianças também não estão bem informadas sobre a data. Os irmãos gêmeos Rogério Ceni e São Marcos de Oliveira, de 10 anos, atribuem a origem do feriado a um acontecimento esportivo de 1958. “Naquele ano teve Copa do Mundo e vários negros foram afastados da seleção brasileira acusados de serem pipoqueiros. Eu acho que foi isso”, disse Rogério. O irmão endossa a opinião. “Depois houve um movimento para colocaram o Pelé, o Garrincha e o Djalma Santos no time e eles garantiram o título”.
Na verdade, a data de 20 de novembro foi escolhida como o Dia da Consciência Negra por marcar a morte de Zumbi dos Palmares. Em 2003, a lei 10.639, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estabeleceu a data como parte do calendário escolar brasileiro. A mesma lei tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira. Em 2012, o sucessor de Lula, Frank Aguiar, instituiu o feriado obrigatório, aprovado no Congresso graças a emenda constitucional.

* Texto escrito em 2007 e devidamente atualizado

Quando a maldade abunda no coração

novembro 7, 2009

Casal caminha na Paulista. Ao passar por uma igreja, vê um carro em frente à entrada principal. Dentro dele, uma noiva conversando ao telefone.

– Nossa, que coisa. Usando celular na hora do casamento?
– Ela deve estar ligando pro amante, antes de ir pro altar.
– É, e daqui a pouco ela vai pegar o Blackberry e colocar no Twitter: “estou em frente à igreja, vou entrar pro meu casamento em dois minutos”.

*****

Casal caminha na Avenida Jabaquara. De repente, um pequeno grupo de garotos maltrapilhos passa correndo pela calçada. Entre eles, uma criança muito nova, que parecia ter acabado de aprender a correr.

– Olha que pequenininha…
– Pois é, tão novinha e já aprendendo a fazer arrastão…

*****

Casal passeia no Rio de Janeiro no feriado prolongado. Num domingo, dia de chuva, a cidade fica deserta, com todas as lojas fechadas. No dia seguinte, o tempo abre totalmente, mas às dez da manhã (ou da tarde, como preferirem), todas as lojas, inclusive o Shopping Center, continuam fechados.

– Putaquipariu, como assim? Tudo fechado de novo?
– Pois é, deve ser por causa do sol…
– Ah, não. Quando chove não abre nada, e quando o sol abre também não? Como pode estar tudo fechado numa cidade turística, em pleno feriado, com a cidade cheia de gente?
– Vai ver foi todo mundo pra praia…
– Porra, mas então quando esse povo trabalha? Será que eles fazem como no litoral paulista? Trabalham o triplo na alta temporada? No Carnaval, por exemplo?
– Lógico que não? Ou você acha que eles vão perder os desfiles?