Posts Tagged ‘Copa do Mundo’

É que a gente era engajado…

maio 30, 2014

Dois garotos conversam sobre futebol em 2026

– Enzo…
– Que foi, Theo?
– Quando será que o Brasil vai receber outra Copa?
– Ih, vai demorar, cara. Tivemos uma copa 12 anos atrás. Por que você tá perguntando isso?
– Ah, porque tô vendo as notícias lá do Marrocos, onde vai ter a Copa este ano. Todo mundo celebrando, fazendo a maior festa, na maior expectativa. Imagina como vai ser quando tiver aqui de novo!
– Puxa, Theo, verdade! Imagina como deve ter sido aqui em 2014!
– Engraçado que eu procurei na internet e não achei muita coisa sobre a festa. Só uns protestos, uns negócios lá que eu não entendi.
– Pergunta pro seu pai como foi. Ele não tinha uns 30 anos quando teve a Copa? Ele deve lembrar como foi.
– Boa, Enzo! Vamos lá no bar perguntar pra ele!
– Oba, vamos!

(…)

– Pai.
– Que foi, menino?
– Como é que foi a Copa aqui no Brasil?
– O que você quer saber?
– Ah, tudo. O povo fez muita festa? A gente recebeu bem os outros torcedores? O país se pintou de verde e amarelo?
– Ué, filho, que pergunta! Em toda Copa o Brasil se pinta de verde e amarelo!
– Sim, mas a Copa é sempre em outro país. E quando foi aqui, a festa foi maior?
– Ah, filho, claro que sim. Foi uma coisa inesquecível! Faltando um mês para começar a Copa, tinha espetáculo pirotécnico todos os dias, com fogos em verde e amarelo. Todas as casas estavam pintadas com as cores do Brasil. Eu disse TODAS, sem exceção. Os desconhecidos se cumprimentavam na rua, se abraçavam, dizendo que a gente ia finalmente ter outra Copa aqui.
– Que legal, pai! E você, seus amigos, como ficaram?
– Eufóricos, Theo! Eu sempre ouvia as histórias de quando o Brasil sediou a Copa em 1950. Meu avô foi em dois jogos no Maracanã. Disse que foram os dias mais animados da vida dele. Falou da festa da torcida, da animação, da empolgação com o time. E eu não via a hora de vivenciar aquelas mesmas histórias!
– Ficou muito ansioso, seu Alberto?
– Claro, Enzo! A última semana antes da Copa eu passei praticamente em claro. Fiquei quase sete dias sem dormir direito, só pensando na Copa. Ficava mexendo no álbum de figurinhas, nos cards, nas revistas e pôsteres falando da Copa, via os DVDs…
– Ué, pai. Nunca vi nenhuma dessas coisas em casa.
– Não? Ah, filho… é que… bom, a gente perdeu na mudança…
– Ô, Alberto. Toma vergonha na cara, para de mentir pros meninos.
– Fica quieto, César!
– Quieto, nada. Não tem vergonha de ficar enrolando as crianças?
– Tomanocu, César. Vai cuidar da tua vida!
– Meninos, tudo isso aí que o Alberto tá contando aí é lorota, mentira!
– Como assim, seu César?
– Seu pai é um mentiroso de mão cheia. Ele foi contra a Copa no Brasil. Chegou a participar de manifestação de rua pedindo para não ter Copa do Mundo aqui. Ficava o dia inteiro na internet metendo o pau na Copa.
– Como assim?
– É, verdade. E quer saber do que mais? Essa foi a Copa mais sem graça que tivemos aqui desde que eu me conheço por gente. Tinha muito menos casa com bandeira, rua pintada e povo vestindo a camisa da seleção do que este ano, para você ter uma ideia.
– Sério?
– Sério mesmo. E sabe por quê? Porque teve um bando de chato que ficou falando que não tinha de ter Copa aqui, colocaram um monte de defeitos no país. Chegaram a falar que o Brasil não tinha condição de organizar o evento!
– Ué, mas o Marrocos não é muito mais pobre? Por que lá o povo tá feliz?
– Pra você ver, garoto. Aqui, o brasileiro torce pra tudo dar errado.
– Mas como alguém pode ser contra uma Copa no próprio país? Eu li uma matéria falando que o Marrocos vai faturar o dobro do que gastou!
– No Brasil também foi assim, garotos. Faturamos muito mais do que gastamos, mas ninguém pensou nisso na hora. Só ficou falando que não ia ter Copa.
– Caramba! Isso é verdade, pai?
– É… bem… filho, é verdade, sim…
– Como assim, pai? Você tem a oportunidade de ver uma Copa do Mundo, contar pros filhos, pros netos e foi contra?
– Ah, Theo. É que a gente pensou que tinha de investir em saúde, educação…
– Ué, mas o Brasil não ganhou mais dinheiro com a Copa? Não dava para investir assim mesmo?
– Ah… filho… é que naquela época a gente era engajado…
– Engajado. Hahahahahahaha.
– Ô César, não enche o saco. Você já atrapalhou demais. Some, vai!
– Puxa, pai. Se você pensava assim naquela época, então o senhor deve ter participado de várias manifestações contra os gastos com o Carnaval e a Festa do Peão, né?
– É, bem…

Meu dia de torcedor coxinha

junho 17, 2013
"Nossa, vou postar minha foto no Instagram agora mesmo!"

“Nossa, vou postar minha foto no Instagram agora mesmo!”

Antes de mais nada, é preciso dizer: sempre sonhei em assistir a um jogo de Copa do Mundo, seja aqui ou no exterior. Quando era criança, simulava como seria o mundial em terras brasileiras, selecionando os estádios, criando sedes e subsedes.

O tempo passou. O Brasil, a Fifa e a Copa do Mundo mudaram. Para melhor e para pior em muitos aspectos. Uma destas mudanças afetou diretamente quem curte futebol no Brasil. Ingressos caros, torcida domada, patriotismo artificial etc.

Nem por isso me furtei a assistir a uma partida. A primeira providência foi ver a Copa das Confederações, importante sob vários aspectos, especialmente como teste, dentro e fora dos campos. Sem falar que talvez seja difícil ir a um jogo da Copa do Mundo, por vários motivos.

Por isso, assisti no último domingo a México x Itália, no estádio do Maracanã. Não foi apenas o Fábio trintão, casado e pai de família que viu o jogo no estádio. Foi também o jornalista que quis ver tudo com seus próprios olhos: se o estádio ficou legal, se o público é mesmo elitizado, se ver o jogo na arquibancada está sem graça e se a estrutura oferecida é o que prometem. E, claro, era também a criança realizando o velho sonho.

Impressões de um coxinha honorário

Um torcedor coxinha que se preze tem de levar a patroa ao estádio. Afinal, é futebol para a família. Evidentemente, nunca levei namorada, ficante ou pretendente para ver jogos comigo. Ela certamente fugiria de mim horrorizada antes dos cinco minutos de partida. E quem vai ao estádio torcer por seu time pode imaginar a razão.

Fomos eu e Érica para o Rio de Janeiro no dia do jogo. Logo de cara, um aspecto positivo. Descemos no aeroporto Santos Dumont, já informados de que os organizadores pensavam em criar um ponto de retirada de ingressos ali. Havíamos agendado a retirada no hotel Windsor Guanabara, no centro da cidade, e precisaríamos pegar um metrô. Se houvesse uma fila grande, perderíamos tempo precioso. Havia notícias de que no Galeão as pessoas levaram mais de três horas para pegarem seus tíquetes.

Mas o posto no Santos Dumont realmente estava aberto. A fila era minúscula e pegamos o ingresso em menos de 10 minutos. O único senão foi uma funcionária, desatenta, que nos disse que precisaríamos mostrar um comprovante de residência para provarmos que éramos residentes no Brasil. Claro que isso não era necessário.

Paulistas e palmeirenses

IMG_0914Pegamos o ingresso, fomos para o hotel e largamos nossas coisas lá. Fui para o jogo com minha camisa azul do Palmeiras (sim, a que homenageia o velho Palestra Itália). Mas, só para não ceder totalmente ao sistema, torci para o México.

E aqui entra um fato curioso: os palmeirenses foram em peso ao Maracanã. Mais de 6 mil pessoas saíram de São Paulo para ver a partida. A maioria, torcedores do alviverde, como foi possível perceber visualmente. Em alguns momentos, havia mais pessoas com camisas do Palmeiras do que da seleção brasileira ou mesmo do Fluminense e Botafogo.

No metrô, tudo tranquilo. Três estações foram destinadas como pontos de partida para o estádio (Maracanã e São Cristóvão, na Linha Verde, e São Francisco Xavier, na Linha Vermelha). Havia recomendações para descer em um determinado ponto, de acordo com o seu setor no estádio. Mas não havia impedimentos para que se escolhesse outro caminho. Como bom coxinha, segui o roteiro preestabelecido.

Descemos na Estação São Cristóvão e foi então que eu e Érica quase deixamos de ir ao Estádio. Havia ali um grupo de manifestantes protestando contra os altos gastos com a Copa das Confederações. Nosso coração balançou. Embora não sejamos contra a realização dos torneios, sabemos o quando houve de autoritarismo e intransigência na organização, fora os gastos abusivos. E defendemos o direito de protestar, ainda mais em um momento em que as autoridades usam de violência para calar os opositores. Mas fraquejamos e fomos ao Maracanã.

No Estádio

Para entrar, tudo tranquilo. Mesmo com muita gente um tanto confusa (a grande maioria jamais havia visto um jogo no Maracanã. Talvez sequer em qualquer estádio), os voluntários e funcionários trabalharam bem. O único problema foi no acesso aos deficientes, por onde alguns desavisados (inclusive nós) tentaram passar.

Como estamos em um estádio moderno, em um torneio da Fifa, todo cuidado com a segurança era pouco. Havia detectores de metal e o procedimento para a entrada era o mesmo exigido nos aeroportos. O policiamento era intenso, mas não ameaçador. A imagem truculenta ficou com os soldados destacados para impedir que os manifestantes chegassem perto. Lá fora, havia agentes das polícias Civil e Militar, além da Força Nacional, Tropa de Choque e Guarda Municipal, ameaçadores.

Ao entrar, nos deparamos com aquilo que havíamos lido tanto nos últimos dias: o abusivo preço dos lanches e bebidas. Cachorro-quente a R$ 8, um latão de Brahma custando NOVE DILMAS (a Budweiser era R$ 12)! Pegamos uma lata de Coca, uma cerveja e uma garrafa de água. Morreu em R$ 21. Mas coxinha que é coxinha paga com gosto, afinal, é um ambiente familiar.

E era mesmo. Muitos casais, crianças e famílias inteiras foram ao estádio em peso. Muitos, de fato, nunca haviam visto uma partida de futebol em um estádio. Estavam ali para conhecer o Maracanã, seja para visitar um cartão postal, seja para saber como ficou após a reforma. Sem falar nos turistas e nos (poucos) mexicanos e italianos que foram de fato torcer por sua seleção.

“E você, Fábio? O que achou?”

Novo estádio é bonito, mas não é mais o Maracanã

Novo estádio é bonito, mas não é mais o Maracanã

Que não é mais o Maracanã. Sem discurseira contra o futebol moderno, sem reclamar da realização da Copa, sem saudosismo. É lindo, moderno, confortável. Mas não é mais o Mário Filho. Mesmo quem não tenha visto um jogo no velho Maraca sabe disso. Hoje é um estádio padronizado, muito parecido com os outros desta Copa. Uma arena, enfim, com todo o simbolismo que essa palavra traz. Não lembra em nada o velho estádio.

O público que foi ao jogo também não. E por isso pude presenciar algumas bizarrices. A primeira delas foi ouvir de torcedores sentados logo atrás de mim uma reclamação: “Porra, o telão tá com defeito”. Sim, amigos: os caras queriam era ver o jogo por um dos quatro gigantescos e modernos telões, instalados em setores estratégicos. Olhar pro campo durante a partida deve ser coisa de ralé, mesmo.

Veio o intervalo e resolvi dar um mijão. Foi então que constatei algo que me deixou estarrecido: O BANHEIRO EXALAVA UM INTENSO AROMA DE EUCALIPTO! Não, meu amigo, não era cheiro forte de desinfetante barato. Era um aromatizante fino, algo que nunca senti nem em shopping center. Achei aquilo tão bizarro quanto aparecer um anão trepando com a mulher barbada, ambos devidamente nus, em um comício político. Saí de lá tão atordoado com o cheiro quanto com a inusitada constatação.

Durante a partida, mais curiosidades. Como se sabe, todos ficam sentadinhos no novo estádio. Os assentos são fixos, você não pode simplesmente sentar em qualquer lugar. Couberam a mim e à Érica as cadeiras 1 e 2 da fileira L, no bloco 229 do nível 2. Mas houve momentos de resistência. Alguns gaiatos tentaram sentar nas escadas, mas foram convencidos a saírem de lá.

De resto, é o que se imagina. A maior parte das pessoas mal olhava para o estádio. Eles ficavam conversando, quase nunca sobre futebol. Os assuntos variavam entre a última viagem para Ilhabela, as vicissitudes amorosas de si e de outrem e amenidades diversas. Érica, que sempre se emputece com quem vai ao cinema para não assistir aos filmes, se impacientou: “O pessoal vem aqui para tudo, menos para ver um jogo de futebol, né?”. Puxado.

Deslocado

A verdade é que me senti um estranho no ninho. Ninguém gritava, ninguém vibrava. As pessoas se animavam apenas em alguns momentos de ataque das duas equipes ou em algum lance do Balotelli, a grande vedete da partida. Nos momentos em que me levantei e xinguei o juiz e os bandeirinhas (uma atitude saudável de qualquer torcedor comum), me olharam como se eu estivesse fazendo um strip tease e balançando a pança na arquibancada. Os olhares de reprovação foram fulminantes.

O único momento verdadeiramente futebolístico foi quando flamenguistas e vascaínos entoaram alguns dos cânticos típicos das torcidas locais, nada que qualquer carioca não saiba. Mas valeu pela disputa entre as duas grandes torcidas do Rio. Quando a Itália marcou o gol da vitória, foi puxado o coro: “Uh, terror, Balotelli é matador”. Legal, mas nada demais.

Na saída, tudo azul novamente: todos saíram rápida e tranquilamente do estádio, sem incidentes. No metrô, mais uma prova da elitização do público: 90% das pessoas que pegaram o transporte público seguiram para a zona sul. Pouco antes de chegar à estação, vimos novamente os manifestantes, que cantavam o hino nacional. E aqui, um momento interessante: em nenhum momento eles hostilizaram os torcedores. Muito pelo contrário: chamaram a todos a também protestar. “Vem pra rua”, diziam. Quase ficamos novamente. Mas havia um avião a pegar e uma filha a esperar. E muita história para contar.

“Brazuca”, um nome que ainda vai pegar

novembro 10, 2012

Após uma votação rápida e tosca, ficou definido que a bola oficial da Copa do Mundo de 2014 se chamará BRAZUCA! O nome, tão criticado pelos brasileiros, derrotou outros ainda piores, como Bossa Nova e Carnavalesca(!). Os brasileiros, quase de forma unânime, declararam que venceu o nome menos pior.

E, de fato, Brazuca é um nome estranho, ao menos para nós brasileiros. Por ser uma expressão comum entre os surfistas (assim foi há muuuuuuuuuuuuuitos anos), seu uso por quem não é do métier soa extremamente forçado. É como o nerd que tenta parecer descoladão ou o tiozão que se esmera em se apresentar como um ser antenado com a juventude de hoje. Ao fim e ao cabo, “brazuca” é uma coisa Evandro Mesquita demais para ser proferida hoje em dia de forma impune.

Eu, assim como a grande maioria, detestei o nome, justamente pelos motivos acima. Mas depois de alguns dias, refleti um pouco a respeito e cheguei à conclusão: Brazuca não é tão ruim assim.

O principal fator que me fez reavaliar o tema foi o fato de estarmos falando de um torneio internacional, e não do Campeonato Brasileiro. Vamos ver a coisa do ponto de vista de um estrangeiro, que ignora a existência do Evandro Mesquita. O termo é sonoro, admitamos. Talvez ainda mais que Jabulani, nome da bola na Copa da África do Sul, em 2010, e que caiu no gosto de todos.

E podemos analisar a escolha do nome para a bola oficial da Copa anterior. Salvo engano, significa “celebrar” ou “celebração”, em um dos 11 idiomas falados na África do Sul. Tenho certeza que as outras etnias devam ter odiado a escolha.

Vamos aplicar o mesmo raciocínio da internacionalização do torneio para um nome que muita gente cogitou para a bola: Gorduchinha. Tratava-se de uma homenagem ao grande locutor Osmar Santos, que causou sensação do final dos anos 70 ao início dos 90, quando teve a carreira abreviada por um acidente de trânsito. Ele fez história ao criar expressões como “É fogo no boné do guarda” e “Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha”.

Quando a ideia veio à baila, achei sensacional, uma bela homenagem a um gigante do rádio brasileiro. Mas enfim, é um nome que não faria sentido algum para uma Copa do Mundo, não é mesmo? Acho que encontrarão formas mais bacanas de homenageá-lo sem transformar a Copa do Mundo em uma sequência de assuntos internos.

Acho que Brazuca, afinal de contas, é um nome que vai pegar. Esqueçam o Peterson Foca e apenas torçam para que os gringos não façam trocadilhos pobres com “bazuca”.

Outros textos

Confira o passeio à Patagônia Argentina, no blog Viajante em Tempo Integral

Morumbi derrubará a Pauliceia da Copa 2014

junho 20, 2010

Há muito tempo queria voltar a escrever sobre a escolha do estádio do Morumbi como sede paulista para a Copa de 2014. Muito tempo se passou e os fatos correram e atropelaram uns aos outros. Agora, só se fala na decisão da Fifa/CBF de que o estádio não abrigará nenhum jogo da Copa. Evidentemente, o assunto não será esquecido tão cedo, pois a repercussão continua grande. E, como não poderia deixar de ser, a imprensa esportiva tem criticado furiosamente a Fifa e a CBF pela decisão. Com isso, acho pertinente fazer algumas rápidas, mas importantes observações acerca do chororô generalizado que surgiu na imprensa paulista desde então.

A primeira delas é que choveram críticas à eliminação do Morumbi. E a principal alegação dos defensores do estádio é que, por causa disso, a cidade de São Paulo não abrigará a abertura da Copa, e talvez nenhum outro jogo. O comentário é típico de quem analisa os fatos de forma superficial e não se aprofunda nele. Ninguém percebeu que acontece justamente o contrário: a insistência em emplacar o Morumbi, sim, é que pode condenar a cidade ao ostracismo durante a Copa. E, pelo visto, é o que pode realmente acontecer, dados os atuais acontecimentos.

Quem já foi ao menos UMA vez ao estádio são-paulino para assistir a uma partida sabe que ele é horrível e mal planejado. Do anel inferior, não se vê quase nada. No anel intermediário, o que não faltam são pontos cegos. E no anel superior, só o que se vê são 25 pontinhos correndo de um lado para o outro, mal dá para reconhecer os jogadores ou mesmo o trio de arbitragem.

Como já tinha visto jogos no Pacaembu e Palestra Itália, estádios com ótima visibilidade, sempre atribuí a deficiência do Morumbi ao seu tamanho imponente. Mas tive uma grande surpresa no ano passado, quando visitei o Maracanã, um estádio muito maior que o Morumbi: a visibilidade é perfeita, mostrando que o problema do estádio paulista, definitivamente, não é o tamanho.

Qualquer pessoa com um mínimo de isenção teria desconfiado que havia algo errado quando o Morumbi entregou SEIS projetos diferentes para a Fifa. Se precisaram de tantas versões novas é porque as anteriores eram defeituosas. E das duas, uma: ou os projetos previam apenas alterações estéticas ou eram faraônicas o suficiente para que todos percebessem sua inviabilidade financeira.

Não demorou muito para que alguns viessem falar em “decisão política”, ignorando o fato de o estádio ser muito ruim. Lógico que houve decisão política, já que a diretoria do SPFC anda em atrito com Ricardo Teixeira, o capo da CBF. Mas isso não muda o fato principal: o estádio não tem a menor condição de abrigar um jogo de Copa. Mesmo que a CBF defendesse com unhas e dentes o Morumbi, uma hora a Fifa perceberia o engodo e todos teriam de ceder à realidade. Antes agora do que mais tarde, quando haveria menos tempo ainda para buscar uma alternativa.

A imprensa esportiva paulista colocou venda nos olhos e agiu com parcialidade absoluta. Ninguém fez o que se espera de um jornalismo correto: apurar e analisar os fatos. Ninguém fez uma matéria isenta sobre as qualidades e defeitos do estádio, ninguém citou a ausência de estacionamentos, as péssimas condições estruturais do estádio e, o mais importante, a dificuldade financeira que o clube teria para adequar sua casa ao mundial.

Se esqueceram também que os projetos apresentados à Fifa eram apenas uma pequena variação do famigerado “Morumbi, Século XXI”. Para quem não lembra ou não sabe do que se trata, eu explicarei. O tal “Morumbi, Século XXI” surgiu no início dos anos 90 e era à primeira vista um ambicioso trabalho para tornar o local um estádio de Primeiro Mundo. Os esboços previam até a cobertura total do estádio, mas na verdade tinha como único objetivo arrecadar recursos, públicos inclusive, para fazer reformas básicas no estádio. Na época, o local sofria com graves problemas estruturais, que podiam resultar até mesmo em interdições parciais. Ou tragédias como a que ocorreu na Fonte Nova.  Na época, o clube era presidido pelo Mesquita Pimenta, aquele que depois foi defenestrado do SPFC após escândalos de corrupção.

Cansei de falar, em blogs, conversas de bar ou no trabalho, que o Morumbi é um caso clássico de estádio inviável. Tava mais que na cara que seria muito mais barato construir uma arena nova em folha que reformar o local. Mas foi preciso apresentar um estudo técnico para que alguns acreditassem. E, mesmo assim, alguns se recusam a aceitar a realidade.

E é aí que entram os deturpadores da verdade, gente que só se importa com o próprio benefício. Essas pessoas quiseram colocar o Morumbi na Copa a qualquer custo, sem se importar com a cidade de São Paulo, que é o que realmente importa. Quando perceberam que o Morumbi não teria muita chance, tentaram adiar o fim melancólico, cientes de que quanto mais insistissem, menos tempo haveria para apresentar uma segunda opção. Insistiram ao máximo no seu estádio para inviabilizar todas as outras alternativas.

E para quê? Para prejudicar a cidade de São Paulo e posarem de vítimas. Então, quando Belo Horizonte ou Brasília fossem anunciadas como local de abertura, eles iriam espernear e alegar que a CBF destruiu os sonhos de São Paulo.

Mas quem analisou o caso desde o início sabe que não é verdade. Os dirigentes do São Paulo Futebol Clube sabotaram a cidade para fazer valer seus interesses. Já que eles não conseguiram seu principal objetivo (obter recursos públicos para reformar completamente seu estádio), se contentam em tirar a Copa da cidade.

Tudo seria diferente se os responsáveis pela escolha do estádio tivessem tomado uma posição firme e dissessem, desde o início, que o Morumbi não tinha condições de receber a Copa. Porque então procurariam uma alternativa viável em tempo hábil. Agora, pode ser tarde demais.

Obrigado, dirigentes do São Paulo Futebol Clube. Graças a vocês, a maior cidade do país pode ficar fora da Copa!

O legado de Dunga

fevereiro 15, 2010

Vamos à Copa de 2010 com um técnico inexperiente. Até assumir a Seleção Brasileira, Dunga tinha atuado como treinador apenas em prosaicos jogos de Show Ball. Mas ele conseguiu se virar bem no duro teste e desembarcará na África com o apoio de quase toda a mídia esportiva. Mas independente do resultado na Copa, ele já terá deixado o seu grande legado: resgatar o respeito perdido por anos de mercantilismo.

Há muitos anos a Seleção Brasileira deixou de ser uma instituição respeitável para virar a Casa da Mãe Joana. Nenhum país de respeito mandava seu time ao Brasil para nos enfrentar. E mesmo lá fora, os únicos amistosos eram com seleções pra lá de inexpressivas, que pagavam os olhos da cara para enfrentar os brasileiros. Sabe aquelas superbandas de rock que nunca vieram ao Brasil no auge mas que, depois de decadentes passam a vir aqui ano sim, ano também? Pois. Este era o rumo da Seleção Brasileira até Dunga assumir o comando.

Lembro que, até a Copa de 2006, a última seleção de ponta da Europa a disputar um amistoso decente em território brasileiro foi a Alemanha, no longínquo 1991. Anos depois, a Holanda veio para cá. Mas os filhos da puta estavam tão a fim de jogo que se entupiram de acarajé e caipirinha na noite anterior e tiveram uma disenteria coletiva durante o jogo. Vergonha total. Para eles e para nós também.

A desmoralização não se restringia aos adversários. Os próprios jogadores brasileiros agravavam o quadro. Nego só vestia a amarelinha para se valorizar e conseguir contrato com equipes de ponta da Europa. Quem já estava nestes clubes defendia a seleção apenas se não tivesse nada melhor para fazer. Dunga sofreu isso na Copa América: convocou todas as estrelas, mas só Robinho veio. Com um time B, o Brasil atropelou os rivais argentinos na final e se sagrou campeão. A grande virada estava para começar.

Em pouco tempo, muita coisa mudou. O Brasil já fez amistosos importantes contra Inglaterra e Itália e recebeu Portugal, que não é uma potência mas contava com o então melhor jogador do mundo: Cristiano Ronaldo. O fato de o atacante ter jogado a partida foi muito mais significativo do que parece à primeira análise.

Essa metamorfose da seleção afetou os próprios torcedores. Eles perceberam a importância de alguns valores que, até então, estavam esquecidos: raça, amor à camisa e, o mais importante, comprometimento. Os comerciais de TV que abordam a Copa deixaram de lado o discurso celebratório do futebol-arte e defendem uma seleção formada por jogadores que se entregam. Isso tudo não aconteceu por acaso e devemos a Dunga. Podemos até jogar mal e não sermos campeões, mas a semente da dignidade foi plantada, só precisa ser regada nos anos vindouros.

Sim, Rio-2016 pode ser uma boa!

outubro 2, 2009

A cidade do Rio de Janeiro conquistou nesta sexta-feira, 2 de outubro, o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Uma conquista histórica, sem dúvida nenhuma, não só por ser a primeira cidade da América do Sul a obter a honraria, mas também porque raramente uma cidade de um país subdesenvolvido convence o COI de sua capacidade para receber a Olimpíada – apenas a Cidade do México, em 1968, e Seul (Coréia do Sul), vinte anos depois, conseguiram.

E desde já começam os intermináveis debates sobre as organizações dos jogos. Será uma boa? Vai dar certo? Olha, eu acho que sim.

Faz muito tempo que penso em escrever um texto defendendo também a realização da Copa do Mundo no Brasil. Os motivos são vários e vão além dos lúdicos e mais óbvios (“que legal, vamos ter Copa aqui pertinho” etc.). E são perfeitamente aplicáveis à Olimpíada. Vamos a elas, homem-tópico:

1) Tanto Copa do Mundo quanto Olimpíada atraem um caminhão de investimentos. Isso significa dinheiro circulando no país. O que é sempre bom.

2) Um número considerável de obras devem ser construídas para os dois eventos. Isso significa geração de empregos.

3) Apesar do gigantesco potencial turístico, o Brasil atrai menos visitantes que cidades como Paris e Hong Kong. A realização desses torneios são uma grande chance para atrair novos turistas de todo o mundo. E, se o trabalho for bem feito, a Copa e a Olimpíada serão nossas melhores peças de propaganda. E turismo é sinônimo de mais dinheiro entrando no País e maior geração de empregos.

Mas acho que o impacto mais positivo será o aperfeiçoamento da infra-estrutura das grandes cidades brasileiras, e agora especialmente a do Rio de Janeiro. O Brasil receberá, em menos de 10 anos, melhorias que levariam ao menos meio século para chegarem. São Paulo é um exemplo acabado disso: nos próximos três anos o pequeno sistema metroviário da cidade saltará de 60 km para quase 100 km. Isso sem contar as melhorias nos trens de subúrbio. Sem Copa do Mundo, certamente estaríamos engatinhando nesse sentido.

Evidentemente, não faltam razões para quem se coloca contra esses eventos. O mais comum é dizer que haverá muita roubalheira. Mas se houver um grande volume de investimentos privados, a tendência é que a corrupção seja menor. Ademais, a fiscalização deve ser bem maior nesses eventos, o que pode criar um precedente importante para a melhoria das nossas instituições.

De resto, não podemos deixar de ousar por causa do medo. Sem dúvida a Copa do Mundo e a Olimpíada exigirão muito. Teremos um trabalho hercúleo para fazer um bom papel. Mas é assim que se cresce. Nós crescemos como pessoas quanto temos grandes desafios: um vestibular difícil, um emprego que exige capacidade, e por aí vai. Com os países é igual: muitos só atingiram um patamar superior depois de enfrentar grandes desafios. Sempre achei que a Copa do Mundo seria o “vai ou racha” do Brasil, a chance de sairmos definitivamente desse buraco em que nos encontramos desde 1500. Agora teremos uma outra grande chance. Resta aproveitarmos.

E, sim, falo na segunda pessoa do plural, porque somos eu e você quem elegeremos os governantes de 2014 e 2016. E todos nós temos um papel importante como fiscalizadores deste processo. Depois não adianta reclamar e dizer que político “é tudo ladrão”.

A Copa de 2014 e o jornalismo acrítico

setembro 11, 2009

Tá difícil...Acompanhar a imprensa esportiva hoje em dia é um esforço de paciência e boa vontade. Ao ler uma matéria em qualquer veículo, você vai encontrar reportagens com um peso e duas medidas, acusações sem provas e matérias abordando apenas um lado da noticia. E então surge a dúvida: os jornalistas estão cada vez mais despreparados ou eles são simplesmente tendenciosos mesmo?

Estas dúvidas ganharam ainda força com o início dos preparativos do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014. A cidade de São Paulo enfrenta problemas sérios por conta do local escolhido para receber os jogos, o estádio Cícero Pompeu de Toledo, mais conhecido como Morumbi.

O estádio do São Paulo Futebol Clube foi construído numa época em que era praxe construir praças de esporte gigantescas, com capacidade de público gigantesca, mas sem muitas preocupações com o conforto e/ou segurança. Além disso, tem graves desvantagens em relação a seus contemporâneos: não possui áreas livres em seu entorno, o que torna praticamente inviável atender a algumas exigências básicas da Fifa, como ampla área para estacionamento. E há muito tempo não vê uma reforma decente.

A solução seria apresentar um arrojado e caríssimo plano de reestruturação do estádio, com o apoio da iniciativa privada. O problema é que com o dinheiro necessário para tal reforma seria possível construir uma arena novinha em folha.

A cobertura é praticamente a única grande intervenção no incompleto projeto do Morumbi

A cobertura é praticamente a única grande intervenção no incompleto projeto do Morumbi

Sem outra saída, a diretoria do São Paulo tentou jogar o pó pra baixo do tapete: divulgou aos quatro ventos um projeto mal-feito porém chamativo, declarou que tinha cumprido 85% das exigências da Fifa para a Copa e que tinha condições de receber o jogo de abertura. Para completar, o presidente do clube, Juvenal Juvêncio, afirmou que tudo seria custeado com ajuda da iniciativa privada, já que várias empresas disputavam a primazia de tocar as obras.

E aí reside o problema. Nenhum jornalista questionou a diretoria do São Paulo sobre estes 85%. Ninguém averiguou quais itens estavam faltando no projeto e porque eles não estavam incluídos, tampouco sobre a ausência do estacionamento na documentação, algo difícil de ser ignorado.

Semanas depois, Juvenal Juvêncio veio a público alegar que o clube não teria condições de tocar o projeto sem contar com empréstimos do BNDES. Mas onde estavam as várias empresas que pretendiam reformar o Morumbi para a Copa? Bom, nenhum jornalista se deu ao trabalho de perguntar.

Em várias ocasiões, dirigentes da Fifa alegaram que a documentação enviada pelo São Paulo estava incompleta. Juvenal Juvêncio, porém, insistia no erro: dizia que o estádio estava 85% adequado e mais não dizia. Os repórteres, preguiçosos, se limitavam a defender o ponto de vista do dirigente brasileiro, sem checar os fatos e ver quem estava com a razão.

A situação chegou a um nível insustentável esta semana, quando Jérôme Valcke, o poderoso secretário-geral da Fifa, afirmou com todas as letras que o Morumbi não tinha a menor condição de receber a abertura da Copa e que a cidade de São Paulo deveria começar a procurar uma outra opção.

Juca Kfouri, aquele, saiu em defesa do São Paulo

Juca Kfouri, aquele, saiu em defesa do São Paulo

E o que fizeram os jornalistas? Em vez de questionarem a veracidade das declarações anteriores do presidente são-paulino, resolveram atacar Valcke, como se ele tivesse algum interesse em preterir este ou aquele estádio. Juca Kfouri, moralista de plantão, chegou a dizer, com todas as letras, em seu visitado blog, que o secretário-geral da Fifa estava “sabotando” o Morumbi.

A verdade é que os jornalistas de São Paulo, por bairrismo ou algum outro motivo desconhecido, defenderam o Morumbi de forma assustadoramente acrítica. E sequer se tocaram que, ao insistir em uma barca furada, a maior cidade do País corre sério risco de não sediar a abertura da Copa ou nenhum outro jogo importante.