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Relato de uma família devastada pela fome na África

agosto 5, 2011

Após oito meses sem escrever nesta bodega, resolvi retirar as teias de aranha. No entanto, ainda não decidi no que transformar este blog. Até mesmo porque a falta de tempo para escrever o inviabiliza um pouco. Em breve (espero), terei uma resposta sobre o que fazer com este espaço. Até lá, envio um texto enviado pela assessoria de imprensa da Acnur (Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados) do Brasil. Bom pra você que se acha perseguido por Deus porque tomou um pé da namorada ou sujou o terno novo ao cair em uma poça de água.

O refugiado Abdulahi Haji Hassan olha para os rostos exaustos e confusos de sua família e contempla o dano que a seca e a fome provocaram em suas vidas. Madey, seu filho de dois anos, se apóia de forma apática no seio da mãe. Fama, sua filha de quatro anos, está coberta da poeira da caminhada de 27 dias pelo deserto – a família saiu de sua casa, no sul da Somália e caminhou até a fronteira com o Quênia.

Caminhar em direção ao refúgio não era uma questão de escolha. O sustento da família dependia dos rebanhos de animais. Suas 70 cabras e 30 vacas adoeceram e morreram uma a uma, à medida em que a pior seca negava água e alimentos aos animais. O rebanho era, em muitos aspectos, considerado parte de sua família e sua perda foi catastrófica.

Quando a última vaca morreu, todos sabiam que as crianças seriam as próximas. A mãe de Abdulahi lhe disse que deixasse o vilarejo. “Eu não quero que suas crianças morram de fome”, disse. “Vá a qualquer lugar onde possa conseguir ajuda e eu vou rezar para que você chegue lá a salvo”.

A família Hassan está entre os 1,3 mil refugiados somalis que chegam diariamente aos arredores dos campos de Dadaab, no nordeste do Quênia, incluindo Dagahaley. A capacidade do Acnur (Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados) para acomodar as pessoas recém-chegadas melhora a cada dia, mas a manutenção de uma cidade de 400 mil refugiados é assustadora. Recursos extras são necessários para proteger os vulneráveis, fornecer abrigo e garantir as necessidades de saúde.

Para aqueles que fogem da Somália, a primeira, e talvez a mais dolorosa missão, seja a jornada em si. A família Hassan organizou sua expedição junto com outras sete famílias. Eles levaram consigo tudo o que tinham; uma carroça feita a partir de um antigo eixo de carro, um saco de milho moído e um grande recipiente plástico contendo água.

Eles descansavam durante o dia e caminhavam durante a noite. Depois de uma semana, o tempo parecia duplicar. “Todas as noites que você viaja são iguais. Não existe noite boa ou noite ruim. Existe somente a noite”. disse Abdulahi. “Você pensa na situação de seus filhos, com qual deles você deve se preocupar. Eu me preocupava mais com o menor, é claro”. As crianças comiam pequenas porções de milho e água enquanto os pais na maioria das vezes ficavam sem nada.