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A vida, o Belle e tudo o mais…

novembro 11, 2010

(escrito ao som dos discos “Dear Catastrophe Waitress”, “The Boy With the Arab Strap” e “Fold Your Hands…”)

Foto: Ale Vianna/ News Free/ AE

Acho que já escrevi aqui – ou no velho blog O Monoglota – a sensação que tive ao ouvir Belle & Sebastian pela primeira vez, lá pelos idos de 1999/2000. Peguei o “Tigermilk”, primeiro disco da banda, em uma locadora de CDs. Fiquei aturdido com o som. Logo nas primeiras canções, era possível observar uma série de referências musicais que eu conhecia, mas toda aquela informação junta formava algo totalmente novo para mim. Era um som que eu jamais havia ouvido antes.

 

Não demorou muito para que eu ficasse fissurado pela banda. Comprava discos, camisetas, procurava informações na internet. Tentei driblar ao máximo minhas limitações com o idioma de Shakespeare, agravada pelo fortíssimo sotaque escocês dos cantores da banda.

Fiquei fascinado por aquelas baladas agridoces e melancólicas, além das letras que falavam sobre solidão, amor e a sempre atual sensação de inaptidão com as relações humanas. Não demorou para que Belle & Sebastian (ou simplesmente B&S) se tornasse a minha banda favorita em atividade.

Percebia-se com facilidade, então, que muito do que havia naquelas letras dizia respeito a mim e a como me sentia em relação ao mundo. Eu me via como um outsider, um peixe fora d’água, mesmo que estivesse rodeado de amigos.

O tempo passou e a vida foi caminhando, como tem de ser. Me formei, comecei a trabalhar como jornalista, enfrentando os perrengues de sempre. Mas continuava sendo um outsider, ouvindo Belle & Sebastian como se fosse um guru, alguém que me desse a mão e me dissesse o que fazer.

Minha procura por informações sobre a banda me fez entrar para uma lista de fãs. Ali, fiz muitos amigos espetaculares, com quem convivo até hoje. E em torno das pessoas desta lista, conheci outras e mais outras e, depois de muito tempo, me senti parte de um grupo, uma comunidade, uma turma.

Os anos se passaram e, mais uma vez, o mundo foi dando voltas. Tomei um susto ao ouvir o sexto disco do Belle & Sebastian, “Dear Catastrophe Waitress”. Senti a banda mudando, não parecia a mesma que eu havia conhecido anos atrás. A impressão se fortaleceu com o disco seguinte, “The Life Pursuit”, muito superior ao anterior e que solidificaria os novos rumos musicais. Era a banda amadurecendo.

 Demorou para eu perceber que a banda não era a única a ter mudado. Minha vida havia voado, como se carregada pelo vento, e passou por alterações profundas. Aprendi muito sobre como lidar com o mundo e as pessoas. Em alguns casos, me recusei a aprender. Mas não podia mais alegar inocência.

E tudo só serviu para tornar ainda mais forte os elos que tenho com o Belle & Sebastian. Porque ela não se tornou uma banda de uma época, que perderia sua relevância com o passar do tempo. Também não faziam aquele tipo de som tido como “atual”, mesmo quando imutável. A banda havia crescido, como eu também cresci.

Ao final das contas, ainda sou um adolescente escondido em um corpo de adulto. Continuo tendo muitas dúvidas, medos e angústias do passado. Mas hoje me sinto muito mais forte para resistir, por conta de tudo que passei e vivi. E percebi que, desde aquele dia perdido no final do século XX em que ouvi “The State I Am in” pela primeira vez, o Belle & Sebastian tem caminhado comigo, crescendo, falhando e insistindo da mesma maneira, quase que de forma sincronizada.

Tudo isso passou pela minha mente enquanto ouvia cada canção executada pela banda no maravilhoso show do Via Funchal, neste dia 10 de novembro. Dancei com as músicas dos discos mais recentes, vibrei ao ouvir as belíssimas faixas do disco recém-lançado, “Write About Love”. E me senti levitando ao ouvir as canções dos primeiros álbuns, que tanto me marcaram.

O show, que tinha tudo para ser espetacular, ganhou contornos ainda mais especiais. Primeiro por ter sido a primeira vez que eu os via ao vivo, pois havia perdido a antológica apresentação de 2001. E em segundo lugar porque eu passei o show todo ao lado da mulher da minha vida, que tem compartilhado todas as minhas vitórias e derrotas há seis anos.

Era também a nossa história que estava sendo cantada ali, naquele palco. As mesmas músicas que eu havia apresentado a ela logo que nos conhecemos e notamos nossas afinidades. A mesma música que escolhemos para ser tocada em nosso casamento, entre tantos outros momentos.

Na noite de 10 de novembro vi mais que um show. Presenciei a vida a passar diante dos meus olhos, como ocorre com as pessoas que encaram seus últimos momentos. No entanto, ao contrário do que diz a tradição, para mim a existência está apenas começando.

Cada país tem o Barry* que merece

outubro 5, 2009

O caso rolou no último sábado, quando tive a infeliz idéia de ir em uma loja de discos na qual nunca mais tinha ido. Fazia tanto tempo que não ia lá que havia até mesmo me esquecido da razão de ter sumido de lá. Mas acabei me lembrando rapidinho…

– Oi, você tem o disco solo do Stuart Murdoch?
– Olha, não é bem um disco solo…
– Eu sei, tem até outros caras do Belle and Sebastian participando do disco.
– Olha, ele não canta no disco…
– Mas eu sei disso, ué!

Reparem que, em momento algum, eu disse que era um disco em que o Stuart cantava. Tampouco perguntei como era o disco. Até porque sei muito bem como é o álbum. Perguntei apenas se ele tinha a bagaça. Continuando…

– Porque tem outras pessoas cantando e…
– Eu sei. Mas você tem o disco?
– Não é um disco solo, porque…
– Olha, eu sei muito bem como é esse disco. O Stuart Murdoch assina o disco como solo, mas tem outros caras do Belle participando. Tem o Stevie Jackson e o Richard Colburn. Ele não canta as músicas, porque ele chamou várias moças para cantar. Por isso que o disco se chama “God Help the Girl”!
– É…
– Então, tem o disco?
– Ah… não tenho. Mas eu posso reservar e…
– Então não tem o disco, né?
– Não..
– Então tá bom. Obrigado. Tchau.

Evidentemente, quando perguntarem a ele como estão as vendas ele dirá: “Ah, tá ruim, né? Ninguém mais compra disco, só baixa na internet”… 

* Personagem do romance “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby

All Star, canções e romances

agosto 28, 2009

Num universo literário repleto de livros de auto ajuda, esoterismos baratos e “minutos de inteligência” que beiram a demência, a literatura contemporânea vai se afundando em obras cada vez mais esquecíveis.

Entrar em uma livraria e procurar algo novo, mas de qualidade, é tarefa inglória. Talvez por isso o melhor da produção atual possa ser encontrada por outros meios. A internet, claro, é um deles. E é por meio dessa ferramenta que podemos encontrar algumas pequenas jóias.

Como por exemplo “Algo no jeito como ela se move”, romance do escritor, dramaturgo e chapa Paulo Ferro Júnior, ou simplesmente Paulo F. O livro traz aqueles ingredientes da vida pelas quais todos nós já passamos: a euforia, expectativa por algo bacana e importante que está por vir, as desilusões, a sensação de perder o chão sob os pés. Tudo descrito de forma cativante e especial.

Ric, Sky e tantos outros personagens deste romance são tão palpáveis como as pessoas que você pode encontrar pela rua. Nem por isso menos complexas, perdidas que estão nos sonhos produzidos pela grande cidade onde vivem, enquanto curtem seus livros, canções e amores prediletos.

O livro está à venda apenas pela internet, por um preço mais que camarada. Se antes de comprá-lo você quiser dar uma conferida, as dez primeiras páginas, incluindo o prefácio, estão disponíveis neste link.

Para comprar, é só dar uma clicada aqui. O livro é sensacional, recomendo!

Crítico musical e o humor involuntário

maio 27, 2009

Comer Caetano? Tô fora!!!O grande Walter Carrilho fez uma postagem hilária desancando a última obra sanitária de Caetano Veloso, “Zii e Zie” (Que porra é essa? Nome de videogame da Nintendo?), aproveitando também para esculhambar com os críticos musicais mela-cueca. No texto, ele pinça algumas das mais absurdas resenhas escritas sobre o disco, com os devidos comentários acerca das notas, digamos, eruditas.

 Dei muita risada com as frases, mas uma me chamou a atenção: falava sobre “devoração gozosa” e “levar ao âmago da criação de Caetano”. Achei que de onde veio essa teria muito mais. E resolvi procurar o texto, que está transcrito aí embaixo. Algumas recomendações são importantes. 1) Evite ler quando o chefe estiver por perto. O texto é garantia de risadas, e elas podem não ser bem recebidas; 2) O texto está na íntegra, justamente para ninguém lincar no texto original. Seria dar publicidade demais para tal cretino. 3) Procurem o “Dicionário do Crítico Metido a Besta”. Você vai precisar dele.

Que Caetano Veloso é atemporal e multimídia, que sua obra se renova a cada trabalho, que suas opiniões podem ser por vezes controversas e, quem sabe, acintosamente “erráticas”, que sua presença é fundamental para a compreensão da história cultural do país, tudo isso e mais um pouco constituem fatores de conhecimento geral, mesmo para aqueles que se Não é assim que vão comer Caetano...dizem enfastiados do artista mas que, às escuras, busca Caetano em suas inúmeras interfaces – e, saiba-se, temos “Caetanos” para todos os gostos, como na canção antropofágica de Adriana Calcanhoto para o poeta – Vamos comer Caetano?

Sim, porque só uma “devoração” gozosa é capaz de nos levar ao âmago da criação de Caetano, principalmente desse “novo” que se apresenta em Zii e Zie (Universal Music), recente álbum que expõe algumas de suas composições experimentadas anteriormente na internet (em blogs e sites).

E agora adjuntas a um bojo de outras canções que, ao serem contempladas na ordem seqüencial do disco, traçam conceitualmente um quadro de nossa condição humana atual, a do homem contemporâneo diante de uma realidade universal, cerceado pela necessidade de uma atitude que, simbolicamente, torna-se cada vez mais inatingível.

Numa tênue contigüidade experimental similar ao antológico Cê, de 2006, o novo Zii e Zie se amplia em diferentes abordagens temáticas, conseguindo explorar nuances anímicas constantes na obra do compositor – a presença do amor, do erotismo, do desejo -, porém articuladas, e vinculadas, a temas densamente políticos e sociais, como em Perdeu, na qual se pari, cospi e expeli “um deus, um bicho, um homem”, personagem assumidamente situado entre a mítica pândega e a marginalidade destino-único da vida real, sem a alegoria de um Meu Guri, de Chico Buarque, cujas temáticas se assemelham, mas em Perdeu com foco condicionado distanciadamente, como numa narrativa filmográfica.

Flashs e retratos nesse mesmo viés temático reaparecem na corrosiva Falso Leblon, na qual o interlocutor se desnorteia entre “ecstasy (bala), balada”, “drogas” e a “vã cocaína” à qual se nega, inventário obscuro que se contrapõe ao idílico teor poético do refrão: “Ai amor /Chuva num canto de praia no fim / Da manhã / E depois de amanhã?”. A “Pasárgada, “Youkali”, ou a “Maracangalha” do poeta se revela como uma ponta de expectação no caos de uma Leblon falseada.

Cosmovisão? Guantánamo?Mas a acidez crítica dessa cosmovisão atinge seu ápice em A Base de Guantánamo, na qual Caetano traz à tona, e ao conhecimento de novas gerações, a existência duradoura da base naval criada pelos norte-americanos, no sudeste de Cuba (antes da entrada de Fidel Castro – a ocupação fora em 1903), onde prisioneiros iraquianos, do Afeganistão, entre outros, mantêm-se exilados e torturados, com seus direitos humanos desacatados pelas forças norte-americanas (tampouco a ONU consegue intervir nessa nevralgia histórica). Se em Haiti, política canção em parceria com Gilberto Gil (de 1993), a narrativa fazia emergir a realidade miserável tragicamente elidida pela soleira americana numa comparativa equivalência com a terra brasilis, A Base de Guantánamo sinteticamente anuncia a tônica histórica quase como um depoimento confessional, crua e curta, seguido de um refrão que, inevitavelmente, reitera-se numa ação hipnotizante.

A tessitura já desgastada pelo “simbólico” não abala o compositor, que penetra nas nervruras impactantes de uma situação histórica cruelmente real e impensável. O dramaturgo alemão Bertolt Brecht perguntara: “em tempos sombrios se cantará também?” E a resposta do escritor, muitas décadas depois, conjumina com a de Caetano: “também se cantará sobre os tempos sombrios”.

Sem perder a ternura, mas mantendo o estoicismo por ser um dos principais pensadores de nossa geração, Caetano consegue matizar o CD com leves canções, não como uma forma de atenuar a tensão temática trabalhada nas referidas, mas sim para reiterar que sua fala poética é por demais abrangente diante do turbilhão-mundo que se perfaz sob seus olhos, captando belezas e horrores, proezas e façanhas, contradições e verossimilhanças.

Deste modo, faz coexistirem “meninas pretas de biquini amarelo” com moças “em aparição transatlântica”, dá razão ao roqueiro Lobão em sua sentença “chega de verdade” atribuída à mulher, diz desentender uma canção de Madona, desacredita em Deus “diferentemente de Osama e Condolezza”, e dependura oniricamente, nos arcos da velha Lapa, Guinga, Pedro Sá e o presidente Lula, num matulão que só mesmo Caetano, sempre jovem e aguçadamente atento, pode sentenciar ao pronunciar “amar nosso tempo”.

E num arremate não menos poético, reverencia e traz de volta à nossa memória a grande Clementina de Jesus, foz-matricial de toda uma negritude desfeita no fazimento do Brasil, ao regravar os sambas Ingenuidade (do desconhecido Serafim Adriano) e Incompatibilidade de Gênios (de João Bosco e Aldir Blanc), duas peças emblemáticas da obra de Rainha Quelé.

Levado e acompanhado pela bandaCÊ, em arrojados e modernos arranjos de Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado (além do próprio autor), Caetano Veloso consegue transar sambas e rocks, legando mais um antológico disco para nossa atual carente cultura brasileira.

Alguém entendeu alguma coisa. Eu também não…

Classificados musicais*

maio 15, 2009

Uma das coisas mais curiosas da música são as “bandas de classificados”. Um grupo de amigos precisa de um baixista e anuncia no jornal. De repente, um bando de malucos aparece em busca da vaga, como se fossem office-boys em uma agência de emprego ou executivos em um disputado processo de seleção. Mais pitoresco ainda é quando um único sujeito resolve contratar a banda inteira por este meio. O curioso é que, muitas vezes, a banda faz sucesso.

Com certeza, este foi o recurso utilizado por algumas gravadoras para recrutar artistas que compõem a dita “Nova MPB”. Nova só no nome, pois a música que essa galera jovem e descolada faz é tão mofada quanto as músicas do Vicente Celestino, com a diferença que este ao menos era um cantor e compositor honesto. O que temos hoje são cópias deslavadas de artistas consagrados pelo público, pela crítica ou pelos dois. E tome clones de Jorge Ben, Tim Maia, Djavan, Clube da Esquina e quetais. Alguém aí falou em Música Pastiche Brasileira?

São tantos que não deve ter sido difícil recrutá-los. Bastou soltar uns anúnciozinhos em algum Primeiramão da vida. Rápido, fácil e barato. Dá pra imaginar alguns dos anúncios:

PROCURA-SE – Afro-americano orgulhoso de sua negritude, com cabelo estiloso, para cantar, tocar e compor. É imprescindível discurso fechado de louvor à música negra norte-americana e, principalmente, à brasileira. Testes de aptidão incluem questões sobre a discografia da Banda Black Rio e a contribuição dos mesmos para a Nova MPB. Mande um e-mail para jorgebenémeupastor@querosertim.com.br

MUSA GAY – Procuramos mulher corajosa, evoluída e de voz tão forte quanto seu temperamento para se tornar uma estrela folk brasileira. Damos preferência para lésbicas e bissexuais, não necessariamente nesta ordem. Importante alardear sempre que possível sua posição sexual e usá-la como escudo contra críticas musicais. Mande carta para rua das bolachas s/n, Campo Largo.

ARTISTA SENSÍVEL – Queremos contratar cantor e compositor que seja fã do Djavan para compor doces canções acompanhadas de letras ininteligíveis, mas repletas de insípidas citações artísticas. Discurso marcado por loas às mulheres, engajamento social e cabecice caetânica são requisitos aceitáveis. E-mail para meame@soulegal.com.br.

RIPONGA – Jovem, esta é a sua chance! Queremos cantor e compositor que adora curtir a natureza, o reggae e seus subprodutos – incluindo a maconha. Gravamos músicas cheias de menções a cachoeiras, praias, Jah e críticas ao sistema. Exigimos traje de gala – camiseta estampada com coqueiros, folhas de maconha ou frases de Bob Marley e bermudão de praia. Chapéus de palha são uma boa alternativa aos dreadlocks. Telefone… qual era o número mesmo?

SOBRENOME – Aceitamos filhos de artistas famosos para seguir os passos dos pais, com ou sem o sobrenome-grife. Negue semelhanças do seu estilo com o de seus progenitores. Experiência anterior na música, mesmo em carreira infantil, contam pontos. Peça para o seu pai, digo, empresário, nos procurar.

* Texto antigo (já postado em site de um amigo) que encontrei dia desses perdido no meu computador

Oasis e a síndrome do terceiro disco

maio 8, 2009

A crítica musical consagrou a expressão “síndrome do segundo disco” para classificar bandas que estréiam com um grande disco e, depois, somem ou não conseguem repetir o êxito no álbum seguinte. Mas poucos devem ter percebido que muito mais grave é a “síndrome do terceiro disco”. Afinal, 90% das bandas que pipocam num segundo disco não tinham lá tanto conteúdo mesmo. Em geral, levaram uns dez anos para conseguirem gravar um disco recente. Para repetir a dose, precisariam de outro tanto. Como não dispõem desse luxo, o resultado é sabido.

No entanto, se uma banda apresenta dois bons (ou ótimos discos) e patina no terceiro, é sinal de que algo mais grave aconteceu. E quem perde somos nós, ouvintes, que de uma hora para outra podemos deixar de ouvir canções antológicas para aguentar mais do mesmo ou uma queda acentuada de qualidade nos trabalhos seguintes.

NirvanaO Nirvana talvez corresse tal risco, se Kurt Kobain não tivesse se matado há quinze anos (sim, crianças, preparem os lenços que os necrófilos vão abrir o baú). Depois de gravar um disco ótimo (“Bleach”, que passou batido) e outro sensacional (“Nevermind”, que explodiu), o trio de Seattle gravou o confuso “In Utero”, negativamente influenciado pelas brigas entre a banda e o diretor Steve Albini, a intromissão desmedida de Courtney Love no estúdio e os excessos do vocalista com a heroína. Se a coisa continuasse nesse ritmo e Kurt vivesse um pouquinho mais, o Nirvana certamente gravaria um belo cocô em seguida.

oasisComo Kurt resolveu o problema a tempo, sobrou para os irmãos Gallagher que, apesar de abusar das drogas, tiveram o azar de continuar vivos. Na esteira da vinda do Oasis ao Brasil, muita gente tem se agitado com a possibilidade de ouvir grandes canções como “Champagne Supernova”, “Supersonic”, “Live Forever” e, claro “Wonderwall”, que chegou a ser eleita em uma eleição a “canção da década”. Mas a coisa vai desandar se eles resolverem privilegiar músicas dos discos mais recentes.

E eis aí um exemplo cabal da “síndrome do terceiro disco”. Uma banda que produz dois álbuns como “Definitely Maybe” e “(What’s the Story) Morning Glory” não pode ser considerada uma banda ruim, certo? Mas e uma banda que cria duas obras-primas do rock contemporâneo e depois passa uma década sem fazer nada que preste? Ok, “Don’t believe the Truth” é um disco bonzinho, mas só isso. E “The Masterplan” é um disco de sobras dos dois primeiros, não conta. E fica a pergunta: por que uma banda que tinha tudo para ser sensacional não acerta a mão há tanto tempo? Talvez tenham sido alguns fatores similares aos que acometeram o Nirvana. Mas a verdade é que, passado todo esse tempo, o Oasis se tornou uma banda passadista.