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A vida, o Belle e tudo o mais…

novembro 11, 2010

(escrito ao som dos discos “Dear Catastrophe Waitress”, “The Boy With the Arab Strap” e “Fold Your Hands…”)

Foto: Ale Vianna/ News Free/ AE

Acho que já escrevi aqui – ou no velho blog O Monoglota – a sensação que tive ao ouvir Belle & Sebastian pela primeira vez, lá pelos idos de 1999/2000. Peguei o “Tigermilk”, primeiro disco da banda, em uma locadora de CDs. Fiquei aturdido com o som. Logo nas primeiras canções, era possível observar uma série de referências musicais que eu conhecia, mas toda aquela informação junta formava algo totalmente novo para mim. Era um som que eu jamais havia ouvido antes.

 

Não demorou muito para que eu ficasse fissurado pela banda. Comprava discos, camisetas, procurava informações na internet. Tentei driblar ao máximo minhas limitações com o idioma de Shakespeare, agravada pelo fortíssimo sotaque escocês dos cantores da banda.

Fiquei fascinado por aquelas baladas agridoces e melancólicas, além das letras que falavam sobre solidão, amor e a sempre atual sensação de inaptidão com as relações humanas. Não demorou para que Belle & Sebastian (ou simplesmente B&S) se tornasse a minha banda favorita em atividade.

Percebia-se com facilidade, então, que muito do que havia naquelas letras dizia respeito a mim e a como me sentia em relação ao mundo. Eu me via como um outsider, um peixe fora d’água, mesmo que estivesse rodeado de amigos.

O tempo passou e a vida foi caminhando, como tem de ser. Me formei, comecei a trabalhar como jornalista, enfrentando os perrengues de sempre. Mas continuava sendo um outsider, ouvindo Belle & Sebastian como se fosse um guru, alguém que me desse a mão e me dissesse o que fazer.

Minha procura por informações sobre a banda me fez entrar para uma lista de fãs. Ali, fiz muitos amigos espetaculares, com quem convivo até hoje. E em torno das pessoas desta lista, conheci outras e mais outras e, depois de muito tempo, me senti parte de um grupo, uma comunidade, uma turma.

Os anos se passaram e, mais uma vez, o mundo foi dando voltas. Tomei um susto ao ouvir o sexto disco do Belle & Sebastian, “Dear Catastrophe Waitress”. Senti a banda mudando, não parecia a mesma que eu havia conhecido anos atrás. A impressão se fortaleceu com o disco seguinte, “The Life Pursuit”, muito superior ao anterior e que solidificaria os novos rumos musicais. Era a banda amadurecendo.

 Demorou para eu perceber que a banda não era a única a ter mudado. Minha vida havia voado, como se carregada pelo vento, e passou por alterações profundas. Aprendi muito sobre como lidar com o mundo e as pessoas. Em alguns casos, me recusei a aprender. Mas não podia mais alegar inocência.

E tudo só serviu para tornar ainda mais forte os elos que tenho com o Belle & Sebastian. Porque ela não se tornou uma banda de uma época, que perderia sua relevância com o passar do tempo. Também não faziam aquele tipo de som tido como “atual”, mesmo quando imutável. A banda havia crescido, como eu também cresci.

Ao final das contas, ainda sou um adolescente escondido em um corpo de adulto. Continuo tendo muitas dúvidas, medos e angústias do passado. Mas hoje me sinto muito mais forte para resistir, por conta de tudo que passei e vivi. E percebi que, desde aquele dia perdido no final do século XX em que ouvi “The State I Am in” pela primeira vez, o Belle & Sebastian tem caminhado comigo, crescendo, falhando e insistindo da mesma maneira, quase que de forma sincronizada.

Tudo isso passou pela minha mente enquanto ouvia cada canção executada pela banda no maravilhoso show do Via Funchal, neste dia 10 de novembro. Dancei com as músicas dos discos mais recentes, vibrei ao ouvir as belíssimas faixas do disco recém-lançado, “Write About Love”. E me senti levitando ao ouvir as canções dos primeiros álbuns, que tanto me marcaram.

O show, que tinha tudo para ser espetacular, ganhou contornos ainda mais especiais. Primeiro por ter sido a primeira vez que eu os via ao vivo, pois havia perdido a antológica apresentação de 2001. E em segundo lugar porque eu passei o show todo ao lado da mulher da minha vida, que tem compartilhado todas as minhas vitórias e derrotas há seis anos.

Era também a nossa história que estava sendo cantada ali, naquele palco. As mesmas músicas que eu havia apresentado a ela logo que nos conhecemos e notamos nossas afinidades. A mesma música que escolhemos para ser tocada em nosso casamento, entre tantos outros momentos.

Na noite de 10 de novembro vi mais que um show. Presenciei a vida a passar diante dos meus olhos, como ocorre com as pessoas que encaram seus últimos momentos. No entanto, ao contrário do que diz a tradição, para mim a existência está apenas começando.

Waldick sem caetanismos

setembro 7, 2009
Waldick em seu habitat: o inferninho

Waldick em seu habitat: o inferninho

Faz um ano que assisti a “Waldick, Sempre no Meu Coração”, documentário sobre o cantor brega Waldick Soriano, durante a cobertura do Festival de Cinema e Meio Ambiente de Guararema. O filme, que entrou em cartaz na semana passada, marca a estréia da atriz Patrícia Pillar na direção e mostra o artista já combalido pelo câncer, que o mataria em 2008.

Fui para a exibição ao ar livre à espera de uma verdadeira bomba. Menos pela breguice extrema do biografado e mais pelo receio de caetanizarem o sujeito, assim como já fizeram com Odair José, Peninha e tantos outros, que de uma hora para outra viraram cult.

Na minha imaginação, o filme começaria com Caetano Veloso falando do quanto Waldick era injustiçado pelos “intelectuais da imprensa paulista” e como ele era um artista genuíno. Em seguida, apareceria o Tom Zé ou o Jorge Vercilo falando que ele é a “síntese do Brasil profundo” e que sua música era o retrato de um povo. Em dado momento, apareceria o Hermano Vianna ou coisa que o valha dizendo que Waldick Soriano lembrava Johnny Cash. Para encerrar o filme, várias bandas de rock descoladas fariam covers de “Eu não sou cachorro, não” e “Perfume de Gardênia”. Tétrico, pra dizer o mínimo.

Filme de Patrícia Pillar é um registro honesto sobre Waldick

Filme de Patrícia Pillar é um registro honesto sobre Waldick

Mas, graças a Deus, não foi nada disso o que vi em Guararema. O ambiente retratado no filme é uma cópia perfeita de seu personagem principal: ou seja, brega até a medula. Brega são as músicas, os locais onde Waldick se apresenta. Brega são seus fãs e, principalmente, boa parte das mulheres com quem se relacionou e que aparecem no filme.

Patrícia Pillar acompanha Waldick em vários shows. Nas cidades pequenas, ele canta na praça central, sempre lotada. Nas metrópoles, se apresenta em boates de quinta categoria, com aquele clima indefectível de inferninho, ainda mais realçado pelas suas músicas.

Entre uma apresentação e outra, a vida pessoal de Waldick vai se delineando na tela: boêmio e com fama de conquistador, o cantor vive sozinho no final da vida, por escolha própria, se afastando dos antigos amores e mesmo da família. Há cenas dele com seu filho, com quem tem uma relação tensa. Em dado momento, ele vira as costas, ignorando as queixas do filho, e começa a tomar um copão de uísque.

Os depoimentos dos fãs proporcionam os melhores momentos do filme: tiozinhos chapados se emocionam ao falar do ídolo. Prostitutas colocam vinis de Waldick para tocar enquanto esperam clientes na porta de casa. E por aí vai.

Ainda aparecem velhinhas acabadas lembrando de seu namoro com Waldick numa distante juventude, além da última grande paixão do artista, lamentando sua opção por continuar como um lobo solitário, mesmo corroído pelo câncer.

Patrícia Pillar estreou bem na direção, com um filme direto, sem frescuras, e que mostra o crepúsculo de um cabra macho, numa época em que, aliás, os homens vivem um tenebroso fim de feira.

All Star, canções e romances

agosto 28, 2009

Num universo literário repleto de livros de auto ajuda, esoterismos baratos e “minutos de inteligência” que beiram a demência, a literatura contemporânea vai se afundando em obras cada vez mais esquecíveis.

Entrar em uma livraria e procurar algo novo, mas de qualidade, é tarefa inglória. Talvez por isso o melhor da produção atual possa ser encontrada por outros meios. A internet, claro, é um deles. E é por meio dessa ferramenta que podemos encontrar algumas pequenas jóias.

Como por exemplo “Algo no jeito como ela se move”, romance do escritor, dramaturgo e chapa Paulo Ferro Júnior, ou simplesmente Paulo F. O livro traz aqueles ingredientes da vida pelas quais todos nós já passamos: a euforia, expectativa por algo bacana e importante que está por vir, as desilusões, a sensação de perder o chão sob os pés. Tudo descrito de forma cativante e especial.

Ric, Sky e tantos outros personagens deste romance são tão palpáveis como as pessoas que você pode encontrar pela rua. Nem por isso menos complexas, perdidas que estão nos sonhos produzidos pela grande cidade onde vivem, enquanto curtem seus livros, canções e amores prediletos.

O livro está à venda apenas pela internet, por um preço mais que camarada. Se antes de comprá-lo você quiser dar uma conferida, as dez primeiras páginas, incluindo o prefácio, estão disponíveis neste link.

Para comprar, é só dar uma clicada aqui. O livro é sensacional, recomendo!

Vanzolini e o fim da MPB

agosto 17, 2009

“Então eu queria deixar um testemunho, de um amor com a cidade e com o povo. Do povo, de cada um pessoalmente, eu não gosto, mas do povo no geral eu gosto muito”.

É com essa frase lapidar do velho zoólogo e compositor Paulo Vanzolini que tem início o documentário “Um Homem de Moral”, de Ricardo Dias sobre o próprio sambista. Não poderia ser melhor cartão de visitas para um filme interessantíssimo para quem gosta de samba e/ou se delicia com bons personagens reais retratados na telona. Nesta frase temos uma pequena síntese do trabalho: um belo filme sobre um personagem carismático e especial.

Paulo Vanzolini não é sambista profissional. Seu ganha-pão é a biologia. Mas com as músicas que compôs ganhou um espaço especial na música brasileira e sobretudo na paulista. Com clássicos como “Volta por Cima”, “Praça Clóvis” e “Ronda”, ele derrubaria a tese de Vinícius de Moraes de que São Paulo era o “túmulo do samba”.

Como cantor, Vanzolini era ótimo compositor...

Como cantor, Vanzolini era ótimo compositor...

O filme mostra cenas do cotidiano de Vanzolini, entrevistas em que ele como criou suas mais conhecidas canções e encontros musicais de todos os tipos. Entre uma cena e outra, aparecem trechos de espetáculos de anos anteriores feitos em homenagem ao cantor e cenas preciosas, como uma entrevista com seu amigo Adoniran Barbosa, falecido em 1982, e Paulinho Nogueira, também já falecido, interpretando “Valsa das 3 da manhã” .

“Um Homem de Moral” serviu não só para curtir um belíssimo filme, mas também para conhecer um pouco mais da obra do compositor, do qual sabia muito pouco. Serviu também para reforçar alguns conceitos, como o de grandes canções e compositores escasseiam com velocidade absurda, e que a MPB caminha célere para um fim indigno. Hoje só se vêem “filhos de peixe” sem criatividade alguma, cantores medíocres que se esmeram na arte da cópia e letristas metidos a Caetano Veloso – se o original é ruim, imaginem as cópias…

Ultimamente tenho me sentido um tiozinho, daqueles que só ouvem coisas velhas. Os sons novos são raros. Mas é de se pensar se isso é um reflexo da maturidade/velhice ou se é resultado da decadência musical de nossos dias.

Bom, vou pensar nisso ouvindo o tio Vanzolini, porque esse sabia das coisas.

John Willians é o cara!!!!

julho 20, 2009

Estava eu conversando com a patroa enquanto assistíamos a uns DVDs e eis que, num dos extras, aparece uma entrevista com John Willians, responsável pelas trilhas sonoras das trilogias “Star Wars” e “Indiana Jones”. Na minha modestíssima opinião, os temas originais estão entre os melhores da história de cinema: são empolgantes, muito bem executados, mas principalmente, se tornaram peças indissociáveis de seus filmes. Alguém consegue pensar nesses filmes sem que as canções-tema venham imediatamente à memória, e vice-versa?

Com o avanço da conversa, percebemos que tais qualidades têm surgido com frequencia cada vez menor. Boas trilhas existem, claro, mas nada que se torne uma marca registrada tão forte. Tanto que tivemos que queimar massa cinzenta para lembrar de outros trabalhos. Demorou, mas acabamos fazendo uma lista de Top Ten:

10) 2001: Uma odisséia no espaço: O número dez da lista, admitamos, foge um pouco das regras da lista (canções compostas exclusivamente para um filme). Mas a impactante “Thus Spoke Zarathustra”, de Richard Strauss, se tornou praticamente um personagem do filme dirigido por Stanley Kubrick. Hoje, a canção virou alvo de citações diversas em séries, em outros filmes e até em blasfemos comerciais de fogão no Brasil, sempre tendo como base a película de 1969. Strauss talvez ficasse muito puto, mas a verdade é que o tema foi vítima de uma curiosa apropriação indevida.

9) Superman – O Filme: Demorou um pouco para nos lembrarmos de outros temas clássicos para esta lista, mas quando a memória começou a esquentar, percebemos que dois mestres teriam seus nomes repetidos várias vezes. Um deles é Spielberg. O outro é ninguém menos que John Willians, que também assinou a trilha de Superman (dirigido por Richard Donner) e compôs sua música-tema. Willians, aliás, trabalhou na maior parte dos filmes de Spielberg, incluindo alguns que não estão na lista, mas também possuem grandes trilhas, como “Jurassic Park” e “A Lista de Schindler”

8) … E o Vento Levou: Para fãs de Trash 80’s e afins, a famosa canção composta por Max Steiner se reduziu ao tema de amor do Professor Girafales e da Dona Florinda. Mas para muitas gerações ela é a marca registrada do filme “… E o Vento Levou”, responsável por décadas pela maior bilheteria da história do cinema. O austríaco já era um famoso compositor de trilhas, responsável por musicar clássicos como o faroeste “Cimarron” e o primeiro “King Kong”, quando foi encarregado de compor os temas do épico sobre a Guerra de Secessão norte-americana. Steiner ainda seria responsável pela adaptação orquestral de outra canção que integra a lista.

7) Tubarão: Quem nunca se arrepiou com as ótimas cenas de suspense deste filme de 1975, devidamente acompanhadas de sua sensacional música-tema? Esta é mais uma das muitas parcerias entre Steven Spielberg e John Willians, sendo a mais antiga delas a fazer parte deste Top Ten. Em uma época em que os filmes-catástrofe eram moda, a dupla fez com que o filme atingisse um patamar superior, em parte graças ao aspecto musical.

6) Casablanca: A exemplo do que acontece em “2001”, aqui temos outra apropriação indevida, a belíssima canção “As Time Goes By”, de Herman Hupfeld. Mas o filme de Michael Curtiz praticamente abduziu a canção, que mais parece ter sido composta especialmente para ele, casando-se com perfeição com todo o ambiente anos 40 do filme e com as frases que também entraram para história do cinema (inclusive a célebre “Play it again, Sam”, que em nenhum momento é dita no filme). Max Steiner, autor do tema de “… E o Vento Levou”, ficou encarregado dos arranjos da versão orquestrada da música.

5) Psicose: Ok, não é bem uma “música-tema”, mas se a cena do chuveiro deste grande filme de Alfred Hitchcock tornou-se antológica, é graças ao seu não menos inesquecível fundo musical, que praticamente se tornou a trilha sonora original do medo. Tente ouvir esta música como fundo de alguma cena bonitinha e lúdica e verá como você ficará apavorado até mesmo com um inofensivo campo de flores. Cortesia de Bernard Herrmann.

4) O Poderoso Chefão: Se essa lista fosse sobre as melhores trilhas sonoras, Nino Rota certamente teria outros filmes citados. Mas foi na trilogia de Francis Ford Coppola que o genial parceiro de Fellini conseguiu criar um tema tão forte quando os inesquecíveis personagens da trilogia. E olha que estamos falando de filmes que têm Marlon Brando, Robert de Niro e Al Pacino representando os protagonistas. O ponto negativo para a canção-tema é que ela já havia aparecido em um antigo filme de Fellini, precisando ser adaptada para fazer parte da série sobre os mafiosos italianos.

3) ET, o Extraterrestre: Olha a dupla aqui de novo!!!! Em mais um filme de Spielberg, John Willians mostra como sabe criar canções que marcam profunda e definitivamente os filmes para o quais foram compostos. A cena em que Elliot e seus amigos conseguem voar em suas bicicletas para salvar o ET da polícia está, sem dúvida nenhuma, entre as maiores da história. E a canção-tema é parte indissociável deste quadro. Por tudo isso, o pódio é de Willians!!!

2) Star Wars, Uma Nova Esperança: Se eu não tinha dúvida de quais eram as duas melhores trilhas para esta lista, confesso que passei um bom tempo pensando quem ficaria com a medalha de prata. E a escolhida foi Star Wars por um motivo simples: a série criada por George Lucas é espetacular em todos os sentidos. E por mais brilhante que seja a música, ela não supera outros elementos da história, como as referências mitológicas, as personagens e armas fantásticas. De qualquer forma, ouvir a música, executada pelo orquestra sinfônica de Londres, logo após o “A Long Time Ago in a Galaxy Far, Far Away…”, é de arrepiar. Em tempo: quem apresentou John Willians para Lucas foi Spielberg.

1) Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida: No final dos anos 70 e início dos 80, a dupla Steven Spielberg e George Lucas começava a dar as cartas no cinema norte-americano. Aqui, eles trabalham juntos, o primeiro como diretor e o segundo na produção. Mais uma vez, John Willians é responsável pela trilha, e realiza um trabalho matador. É praticamente impossível dissociar a imagem de Indiana Jones da magnífica canção-tema. Assim como não dá para ouví-la sem se lembrar das empolgantes aventuras do arqueólogo bom de briga e fã de confusão. O final de “Indiana Jones e a Última Cruzada” é um bom exemplo de porque este tema é inesquecível.

Evidentemente, há outros filmes com canções tão importantes quanto. E muita gente vai lembrar de alguns ótimos exemplares, como “Golpe de Mestre”, “Star Trek”, “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, “De Volta para o Futuro” e tantos outros.

Classificados musicais*

maio 15, 2009

Uma das coisas mais curiosas da música são as “bandas de classificados”. Um grupo de amigos precisa de um baixista e anuncia no jornal. De repente, um bando de malucos aparece em busca da vaga, como se fossem office-boys em uma agência de emprego ou executivos em um disputado processo de seleção. Mais pitoresco ainda é quando um único sujeito resolve contratar a banda inteira por este meio. O curioso é que, muitas vezes, a banda faz sucesso.

Com certeza, este foi o recurso utilizado por algumas gravadoras para recrutar artistas que compõem a dita “Nova MPB”. Nova só no nome, pois a música que essa galera jovem e descolada faz é tão mofada quanto as músicas do Vicente Celestino, com a diferença que este ao menos era um cantor e compositor honesto. O que temos hoje são cópias deslavadas de artistas consagrados pelo público, pela crítica ou pelos dois. E tome clones de Jorge Ben, Tim Maia, Djavan, Clube da Esquina e quetais. Alguém aí falou em Música Pastiche Brasileira?

São tantos que não deve ter sido difícil recrutá-los. Bastou soltar uns anúnciozinhos em algum Primeiramão da vida. Rápido, fácil e barato. Dá pra imaginar alguns dos anúncios:

PROCURA-SE – Afro-americano orgulhoso de sua negritude, com cabelo estiloso, para cantar, tocar e compor. É imprescindível discurso fechado de louvor à música negra norte-americana e, principalmente, à brasileira. Testes de aptidão incluem questões sobre a discografia da Banda Black Rio e a contribuição dos mesmos para a Nova MPB. Mande um e-mail para jorgebenémeupastor@querosertim.com.br

MUSA GAY – Procuramos mulher corajosa, evoluída e de voz tão forte quanto seu temperamento para se tornar uma estrela folk brasileira. Damos preferência para lésbicas e bissexuais, não necessariamente nesta ordem. Importante alardear sempre que possível sua posição sexual e usá-la como escudo contra críticas musicais. Mande carta para rua das bolachas s/n, Campo Largo.

ARTISTA SENSÍVEL – Queremos contratar cantor e compositor que seja fã do Djavan para compor doces canções acompanhadas de letras ininteligíveis, mas repletas de insípidas citações artísticas. Discurso marcado por loas às mulheres, engajamento social e cabecice caetânica são requisitos aceitáveis. E-mail para meame@soulegal.com.br.

RIPONGA – Jovem, esta é a sua chance! Queremos cantor e compositor que adora curtir a natureza, o reggae e seus subprodutos – incluindo a maconha. Gravamos músicas cheias de menções a cachoeiras, praias, Jah e críticas ao sistema. Exigimos traje de gala – camiseta estampada com coqueiros, folhas de maconha ou frases de Bob Marley e bermudão de praia. Chapéus de palha são uma boa alternativa aos dreadlocks. Telefone… qual era o número mesmo?

SOBRENOME – Aceitamos filhos de artistas famosos para seguir os passos dos pais, com ou sem o sobrenome-grife. Negue semelhanças do seu estilo com o de seus progenitores. Experiência anterior na música, mesmo em carreira infantil, contam pontos. Peça para o seu pai, digo, empresário, nos procurar.

* Texto antigo (já postado em site de um amigo) que encontrei dia desses perdido no meu computador

Mudanças

maio 13, 2009

Tinha publicado aqui um texto sobre música, mas o jornalismo falou mais alto. Uma nova postagem ocupará este espaço em breve. Não sumam!!!

Oasis e a síndrome do terceiro disco

maio 8, 2009

A crítica musical consagrou a expressão “síndrome do segundo disco” para classificar bandas que estréiam com um grande disco e, depois, somem ou não conseguem repetir o êxito no álbum seguinte. Mas poucos devem ter percebido que muito mais grave é a “síndrome do terceiro disco”. Afinal, 90% das bandas que pipocam num segundo disco não tinham lá tanto conteúdo mesmo. Em geral, levaram uns dez anos para conseguirem gravar um disco recente. Para repetir a dose, precisariam de outro tanto. Como não dispõem desse luxo, o resultado é sabido.

No entanto, se uma banda apresenta dois bons (ou ótimos discos) e patina no terceiro, é sinal de que algo mais grave aconteceu. E quem perde somos nós, ouvintes, que de uma hora para outra podemos deixar de ouvir canções antológicas para aguentar mais do mesmo ou uma queda acentuada de qualidade nos trabalhos seguintes.

NirvanaO Nirvana talvez corresse tal risco, se Kurt Kobain não tivesse se matado há quinze anos (sim, crianças, preparem os lenços que os necrófilos vão abrir o baú). Depois de gravar um disco ótimo (“Bleach”, que passou batido) e outro sensacional (“Nevermind”, que explodiu), o trio de Seattle gravou o confuso “In Utero”, negativamente influenciado pelas brigas entre a banda e o diretor Steve Albini, a intromissão desmedida de Courtney Love no estúdio e os excessos do vocalista com a heroína. Se a coisa continuasse nesse ritmo e Kurt vivesse um pouquinho mais, o Nirvana certamente gravaria um belo cocô em seguida.

oasisComo Kurt resolveu o problema a tempo, sobrou para os irmãos Gallagher que, apesar de abusar das drogas, tiveram o azar de continuar vivos. Na esteira da vinda do Oasis ao Brasil, muita gente tem se agitado com a possibilidade de ouvir grandes canções como “Champagne Supernova”, “Supersonic”, “Live Forever” e, claro “Wonderwall”, que chegou a ser eleita em uma eleição a “canção da década”. Mas a coisa vai desandar se eles resolverem privilegiar músicas dos discos mais recentes.

E eis aí um exemplo cabal da “síndrome do terceiro disco”. Uma banda que produz dois álbuns como “Definitely Maybe” e “(What’s the Story) Morning Glory” não pode ser considerada uma banda ruim, certo? Mas e uma banda que cria duas obras-primas do rock contemporâneo e depois passa uma década sem fazer nada que preste? Ok, “Don’t believe the Truth” é um disco bonzinho, mas só isso. E “The Masterplan” é um disco de sobras dos dois primeiros, não conta. E fica a pergunta: por que uma banda que tinha tudo para ser sensacional não acerta a mão há tanto tempo? Talvez tenham sido alguns fatores similares aos que acometeram o Nirvana. Mas a verdade é que, passado todo esse tempo, o Oasis se tornou uma banda passadista.

O artista “competente”

maio 4, 2009

Calma, pessoal. Faz de conta que tá tudo bem!!!De rótulos a música está cheia, mas a verdade é que, com a mistureba de sons, rotular uma banda ou um artista pelo estilo musical é quase sempre uma roubada.

Por estes e outros motivos, prefiro classificar a música como boa ou ruim. Mas, vira e mexe, acabo sendo apresentado a artistas que não entrariam em nenhuma dessas duas categorias. São os ARTISTAS COMPETENTES.

Para traçar o perfil, podemos tomar uma “banda competente” como exemplo. O vocalista é afinadíssimo. Seus colegas de banda são invariavelmente ótimos instrumentistas. Tocam muito bem, dominam seus instrumentos etc. Juntos, são sempre entrosados e a música flui bem, sem erros. As músicas são boas, as letras são ok. E os arranjos não decepcionam: as canções saem redondinhas, sem breguices nem exageros. Ou seja: é uma puta banda, não?

 Não. São apenas uma “banda competente”.

 O que diferencia um puta artista de um apenas competente é que o segundo tem quase tudo o que é necessário para cativar. Mas esse quase não vem de jeito nenhum. Trata-se de um único ingrediente numa receita que podia muito bem dar certo, mas não dá. E esse condimento pode vir de várias maneiras: carisma, criatividade, versatilidade ou alguma outra coisa. Às vezes o que falta é mesmo uma pitadinha de alma e coração. Em certos casos nem isso: uma camadinha de guitarras a mais ou de cordas a menos resolveria o problema. Muitos desses artistas competentes parecem ótimos até o momento em que você percebe que ele parece feito em laboratório.

E o destino de muitas dessas bandas é tão previsível quanto sua fórmula: como fazem um som muitas vezes agradável, atraem como fãs todo tipo de desavisados, inclusive aqueles que tentam fugir de lixos como funk carioca, sertanejo de butique e pagode. Vendem bem, mesmo não sendo campeões de vendas, mantêm uma carreira estável e previsível e fica tudo naquela pasmaceira até que a banda, por algum motivo, acaba.

Evidentemente, uma ou outra consegue se diferenciar por algum motivo. O exemplo mais emblemático é do 10.000 Maniacs, que conseguiu se virar bem enquanto manteve a ótima vocalista Natalie Merchant. Depois disso, desceram celeremente a ladeira e vivem hoje de uma regravação do Roxy Music.

A lista de bandas e artistas “competentes” é extensa, mas seguem alguns deles: Wallflowers, The Corrs, Matchbox 20, Dave Matthews Band etc… Alguém lembra de mais algumas?