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A revolta do Zen

agosto 26, 2009
Foto: Wilson Dias/ABr

Foto: Wilson Dias/ABr

Eduardo Suplicy é uma figura sui generis na política brasileira. De fala mansa, sempre muito tranquilo, chega a irritar os mais apressados e ansiosos. Especialmente quando leva alguns anos para completar um raciocínio e proferir uma frase, por mais simples que seja. Mas nas palestras que profere país afora, se torna praticamente um ídolo da juventude, ao lembrar os sonhos de um passado não tão distante e cantar músicas de Bob Dylan e Racionais MC’s. Sempre da forma mais esdrúxula possível.

Para muitos, Suplicy é a imagem pronta de um loser de escola. Um cara honesto que, por isso mesmo, é alvo de chacota. Eu mesmo chego a ter a impressão de que, um dia qualquer, algum senador do DEM vai colocar um bilhete escrito “me chute” em suas costas.

Por outro lado, sempre foi um cara que criticou abertamente as alianças espúrias do PT, o partido que ajudou a fundar. Enquanto seus velhos amigos lambiam o saco da escória do PMDB, ele se manteve à margem e não se escondeu. Ao contrário: fez questão de tornar pública sua opinião. Mesmo assim, se recusou a abandonar seu partido, alegando que precisava zelar por ele.

Pregando no deserto, infelizmente ele não conseguiu fazê-lo. Mas é emblemática a frase de Lula sobre ele, justamente quando o PT tentava se aproximar do PMDB. Alguns correligionários pediram que Suplicy participasse do processo mas o presidente da República recusou. “Não dá pra contar com o Suplicy porque ele segue apenas a consciência dele”, afirmou, como se isso fosse um pecado mortal, e não uma virtude cada vez mais rara hoje em dia.

No entanto, ontem o homem-paciência mostrou que tudo tem limite. Assim como muitos no Senado, ele subiu à tribuna para pedir a renúncia de José Sarney. Mas Suplicy não é um senador qualquer, e seus protestos teriam de se destacar pelo inusitado. Pois o homem surgiu armado de um cartão vermelho. Ergueu os braços com o acessório às mãos e fez a alegria dos fotógrafos e repórteres presentes. De quebra, bateu boca com o nojento Heráclito Fortes e demonstrou uma ira e revolta que nunca tinha presenciado partindo dele.

Por se tratar de Eduardo Suplicy, a teatralidade do gesto deixou de ser uma forma demagógica de chamar a atenção para se tornar apenas uma forma curiosa de demonstrar nojo pela situação atual do Senado. O senador paulista sempre se destacou pelas atitudes curiosas e, desta vez, não seria diferente. Porém, bem melhor que o cartão vermelho em si, foi presenciar o ódio sincero do sempre tranquilo senador. Desta forma, ele nos mostrou que, afinal, não estamos sozinhos em nossa ira.

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