Quando a maldade abunda no coração

Novembro 7, 2009 por Fábio Mendes

Casal caminha na Paulista. Ao passar por uma igreja, vê um carro em frente à entrada principal. Dentro dele, uma noiva conversando ao telefone.

- Nossa, que coisa. Usando celular na hora do casamento?
- Ela deve estar ligando pro amante, antes de ir pro altar.
- É, e daqui a pouco ela vai pegar o Blackberry e colocar no Twitter: “estou em frente à igreja, vou entrar pro meu casamento em dois minutos”.

*****

Casal caminha na Avenida Jabaquara. De repente, um pequeno grupo de garotos maltrapilhos passa correndo pela calçada. Entre eles, uma criança muito nova, que parecia ter acabado de aprender a correr.

- Olha que pequenininha…
- Pois é, tão novinha e já aprendendo a fazer arrastão…

*****

Casal passeia no Rio de Janeiro no feriado prolongado. Num domingo, dia de chuva, a cidade fica deserta, com todas as lojas fechadas. No dia seguinte, o tempo abre totalmente, mas às dez da manhã (ou da tarde, como preferirem), todas as lojas, inclusive o Shopping Center, continuam fechados.

- Putaquipariu, como assim? Tudo fechado de novo?
- Pois é, deve ser por causa do sol…
- Ah, não. Quando chove não abre nada, e quando o sol abre também não? Como pode estar tudo fechado numa cidade turística, em pleno feriado, com a cidade cheia de gente?
- Vai ver foi todo mundo pra praia…
- Porra, mas então quando esse povo trabalha? Será que eles fazem como no litoral paulista? Trabalham o triplo na alta temporada? No Carnaval, por exemplo?
- Lógico que não? Ou você acha que eles vão perder os desfiles?

Salve geral e a hipocrisia no cinema

Outubro 29, 2009 por Fábio Mendes

Não se trata de nenhuma “apologia ao crime”, como muita gente andou dizendo por aí. Mas a verdade é que “Salve Geral”, do diretor Sérgio Rezende, age como verdadeiro advogado do diabo. Ou do PCC, ao justificar os atentados provocados pela facção criminosa por todo o Estado de São Paulo, em março de 2006.

O filme conta o drama da viúva Lúcia (Andréa Beltrão), professora de piano endividada que se acaba se envolvendo com pessoas ligadas ao PCC para proteger seu filho, preso por assassinato. Tal história corre em paralelo com o momento em que os líderes da facção começam a se articular para desafiar o governo estadual, com rebeliões e atentados a políticos e magistrados.

O filme segue a tendência recente do cinema nacional de enfocar a violência urbana, que surgiu com o sucesso de “Cidade de Deus”. Por isso mesmo, tem ação de sobra, momentos de forte tensão e um grande esforço para criar diálogos reais. Sem falar nas boas atuações do elenco, especialmente de Andréa Beltrão. O grande problema do filme é mesmo seu conteúdo político.

Se por um lado Rezende acerta ao apontar a corrupção do estado como um dos alimentos do PCC nos presídios, por outro idealiza de força estúpida a mobilização dos presos por, aham, “melhores condições”. A citação constante do lema do PCC – Paz, Justiça e Liberdade – colabora para criar uma imagem distorcida da situação. O resultado é que os líderes do grupo aparecem como grandes heróis revolucionários, enquanto alguns dos detentos vestem a pele de idealistas românticos. É de dar engulhos.

O filme embarca em uma triste tendência do cinema nacional recente: crítica social vazia e demagógica, para fazer média com o público. Defender bandidos, de uma hora para outra, se tornou pré-requisito para quem deseja mostrar a todo mundo sua “consciência social”. No fundo, são as mesmas pessoas que maltratam a empregada doméstica ou reclamam que os pretos “não conhecem seu lugar”. Então tá bom, né?

Palmeiras, um time de bambis?

Outubro 26, 2009 por Fábio Mendes

bambisDurante muitos anos, minha diversão era irritar meu irmão são-paulino falando do São Paulo de 2001. Naquela época, bastava eu falar que o São Paulo era “um time de bambis” para ele vociferar em alto volume. E, depois de soltar seu rosário de impropérios, ele resmungava, bem baixinho. “Vou falar o quê? São um bando de bambis, mesmo. Time filho da puta…”

 

A equipe em questão era, ao menos no papel, um timaço. Tinha três jogadores que hoje estão na seleção brasileira: Luiz Fabiano, Kaká e Julio Baptista. Outros viviam bom momento, como França, Beletti e Gustavo Nery. Era time para ganhar vários títulos, mas tudo o que conseguiu foi um magro torneio Rio-São Paulo. De impactante, o único legado que deixou foi o estigma de freguês do Corinthians, que perdura até hoje. Foi nessa época que surgiu a famosa piadinha de que o estádio do Morumbi era o salão de festas do Corinthians. Restou também a pecha de time pipoqueiro: geralmente o time ia muito bem nas fases iniciais e capotava em qualquer jogo importante que aparecesse pela frente.

Pois bem: oito anos se passaram e tem um time disposto a ocupar o lugar dos são-paulinos: o Palmeiras. Uma equipe que tem Marcos, Pierre, Diego Souza, Cleiton Xavier e Vagner Love, além de Muricy no banco, lidera um campeonato com cinco pontos de vantagem sobre o segundo colocado e joga essa vantagem no lixo é um time que não merece respeito. Levando-se em conta que o clube não vence tal campeonato desde 1994, a coisa fica ainda mais séria.

Há quem diga: “ah, mas queda de rendimento é normal”. Sim, é normal: quando a causa é cansaço físico, problemas táticos ou simplesmente nervosismo. Mas não é o caso. Também não é dinheiro o problema: os salários têm sido pagos em dia e a premiação já foi fechada há muito tempo.

O que temos no Palmeiras é uma guerrinha de egos inadmissível até mesmo para ambientes tradicionalmente carregados de vaidade, como desfiles de moda, redações jornalísticas ou quetais. A chegada de Vagner Love fez com que jogadores como Cleiton Xavier e Diego Souza fossem corroídos pelo ciúme. E agora um não passa a bola para o outro.

Ciúme? Sim, ciúme. E como você chamaria um ser humano do sexo masculino de nutre ciúmes de outro ser do mesmo sexo: de bambi, oras!!!!

O Palmeiras pode ser campeão do mundo 70 vezes, pode ficar 134 anos ou 13 mil jogos sem perder do São Paulo, vencer cinco libertadores seguidas sem perder um jogo ou espancar todos os jogadores do Boca Juniors em plena Bombonera, mas se não ganhar esse Brasileirão vai se sacramentar para sempre como o time bambi, o time de bundas-moles, o time de garotas afetadas que não liga em perder o campeonato mais ganho da história do futebol, desde que apareça mais na TV do que aquela outra mocréia que joga no ataque. E nunca mais nenhum palmeirense vai ter moral ou razão para chamar um são-paulino de bambi.

A arte da superação

Outubro 22, 2009 por Fábio Mendes

Quando eu já começava a pensar que as capas da Veja eram as piores da imprensa brasileira, eis que uma outra turma chega disposta a usurpar o trono da “indispensável”.

 

E vocês da Época, querem um bom conselho, também?

MUDEM DE PROFISSÃO!!!

Comédia estreia sexta no Ruth Escobar

Outubro 15, 2009 por Fábio Mendes

Clique aqui, imprima e pague menosPelo visto, meu amigo Paulo F. curtiu trabalhar com comédias. Depois de dirigir a hilária peça “Mulheres, Bobeiras e um Ataque de Risos”, ele agora surge com mais uma carta na manga. Trata-se da peça “Sedutor por Acaso”, que estreia nesta sexta-feira, dia 16 de outubro, no Teatro Ruth Escobar.

“Sedutor por acaso” mostra a história de Daniel, um rapaz tímido e inseguro, que curte uma longa fossa por ter sido abandonado por Linda, sua ex-namorada. As confusões em sua vida começam depois que ele é hipnotizado por seu analista e se transforma em um sedutor irresistível.

A peça é uma divertida comédia de erros, que brinca com o temas como relacionamento entre homem e mulher, insegurança masculina e a necessidade de terapias e métodos alternativos para descobrir quem somos.

Se você está a fim de rir a valer, fica a recomendação. Todas as sextas, às 22h30, no Teatro Ruth Escobar. A peça tem duração de 60 minutos. Ou seja, dá tempo de pegar o metrô e voltar pra casa.

Se você quiser um desconto especial é só clicar no banner aí em cima e imprimir.

SAIBA MAIS

Sedutor por Acaso (comédia)
Texto e direção: Paulo F.
Teatro Ruth Escobar – Sala Miriam Muniz
Estréia: 16 de outubro
Até: 11 de dezembro
Censura: 14 anos
Em cartaz: Sextas, às 22h30
Elenco: Antonia Futuro, Géssica Alvarenga, Júlia Mariano, Paulo F. e Tadeu Pinheiro
Sinopse: Após uma experiência mal sucedida em sua sessão de terapia, um jovem nerd acaba se tornando um exímio conquistador, causando diversas confusões e maus entendidos em sua vida.
Duração: 60 minutos
Ingresso: R$ 30

O jornalista, depois do fim

Outubro 13, 2009 por Fábio Mendes

Se você, pessoa feliz e distraída, acha realmente que o fim do diploma vai contribuir para a liberdade de imprensa, veja só o tipo de anúncio de emprego que já começou a surgir depois da ação do nosso querido STF:

Veja bem: não é estágio, mas o salário é menor que o piso da profissão

Veja bem: não é estágio, mas o salário é menor que o piso da profissão

Eu que não ia ser louco de trabalhar com um chefe que ganhasse um salário destes...

Eu que não ia ser louco de trabalhar com um chefe que ganhasse um salário destes...

O pior de tudo é que no questionário para a segunda vaga há uma questão singela: “Como você espera se manter motivado?” Boa pergunta. Com um salário de merda desses, eu também gostaria de saber.

Paulo F. estreia espetáculo infantil

Outubro 9, 2009 por Fábio Mendes

Paulo F, o incansável homem do teatro, resolveu morrer por excesso de trabalho, e estréia nos próximos dias duas peças, por meio de sua Muro Companhia Teatral: a comédia “Sedutor por Acaso” e o infantil “O Livro dos Sonhos”. A primeira a estrear é o infantil, já neste sábado, dia 10 e segue em cartaz até 13 de dezembro. A peça – com texto e direção de Paulo F. – entra em cartaz no Teatro Ruth Escobar, integrando as comemorações do Dia das Crianças.

A peça já havia sido encenada com exclusividade na Semana Britânica da Cultura Inglesa – unidade Tatuapé, que acontece anualmente. Os elogios pela montagem motivaram a companhia a colocar a peça em cartaz.

O texto conta a história da jovem Lena que, para acabar com a tristeza existente na Terra, viaja pelo mundo dos contos de fadas e encontra em seu caminho personagens clássicos das histórias infantis, como o Capitão Gancho, o Coelho Branco (de “Alice no País das Maravilhas”) e Ariel, a pequena sereia, além de enfrentar o terrível Senhor dos Sonhos. O espetáculo utiliza recursos multimídia e efeitos especiais.

A Muro Companhia Teatral surgiu em 2006, oferecendo espetáculos de fácil assimilação e a preços populares, proporcionando momentos de diversão, entretenimento e reflexão para crianças, jovens e adultos que não têm o hábito de freqüentar teatros.

O primeiro espetáculo encenado pela companhia foi “Algo no Jeito Como Ela se Move”, contemplado pelo Programa VAI da Prefeitura de São Paulo, em 2007. Em 2008, além de “O Livro dos Sonho”, a Muro colocou em cartaz o excepcional “São de Cera as Luzes da Cidade”, comédia dramática e musical inspirada nas canções do músico gaúcho Nei Lisboa, que cumpriu temporada no Teatro Ruth Escobar.

SAIBA MAIS

O Livro dos Sonhos (infantil)
Texto e direção: Paulo F.
Teatro Ruth Escobar – Sala Miriam Muniz
Estréia: 10 de outubro
Até: 13 de dezembro
Censura: Livre
Em cartaz: Sábados e domingos, às 17h45
Elenco: Daniela Ferrari, Ferdi Mendonça e Flávia Suzuki
Sinopse: Lena precisa salvar o mundo da tristeza e para isso embarca em uma divertida viagem, acompanhada por personagens clássicos dos contos de fadas. O espetáculo utiliza recursos multimídia e efeitos especiais.
Duração: 60 minutos
Ingresso: R$ 20 (ou R$ 10 com até uma hora de antecedência)

Cada país tem o Barry* que merece

Outubro 5, 2009 por Fábio Mendes

O caso rolou no último sábado, quando tive a infeliz idéia de ir em uma loja de discos na qual nunca mais tinha ido. Fazia tanto tempo que não ia lá que havia até mesmo me esquecido da razão de ter sumido de lá. Mas acabei me lembrando rapidinho…

- Oi, você tem o disco solo do Stuart Murdoch?
- Olha, não é bem um disco solo…
- Eu sei, tem até outros caras do Belle and Sebastian participando do disco.
- Olha, ele não canta no disco…
- Mas eu sei disso, ué!

Reparem que, em momento algum, eu disse que era um disco em que o Stuart cantava. Tampouco perguntei como era o disco. Até porque sei muito bem como é o álbum. Perguntei apenas se ele tinha a bagaça. Continuando…

- Porque tem outras pessoas cantando e…
- Eu sei. Mas você tem o disco?
- Não é um disco solo, porque…
- Olha, eu sei muito bem como é esse disco. O Stuart Murdoch assina o disco como solo, mas tem outros caras do Belle participando. Tem o Stevie Jackson e o Richard Colburn. Ele não canta as músicas, porque ele chamou várias moças para cantar. Por isso que o disco se chama “God Help the Girl”!
- É…
- Então, tem o disco?
- Ah… não tenho. Mas eu posso reservar e…
- Então não tem o disco, né?
- Não..
- Então tá bom. Obrigado. Tchau.

Evidentemente, quando perguntarem a ele como estão as vendas ele dirá: “Ah, tá ruim, né? Ninguém mais compra disco, só baixa na internet”… 

* Personagem do romance “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby

Sim, Rio-2016 pode ser uma boa!

Outubro 2, 2009 por Fábio Mendes

A cidade do Rio de Janeiro conquistou nesta sexta-feira, 2 de outubro, o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Uma conquista histórica, sem dúvida nenhuma, não só por ser a primeira cidade da América do Sul a obter a honraria, mas também porque raramente uma cidade de um país subdesenvolvido convence o COI de sua capacidade para receber a Olimpíada – apenas a Cidade do México, em 1968, e Seul (Coréia do Sul), vinte anos depois, conseguiram.

E desde já começam os intermináveis debates sobre as organizações dos jogos. Será uma boa? Vai dar certo? Olha, eu acho que sim.

Faz muito tempo que penso em escrever um texto defendendo também a realização da Copa do Mundo no Brasil. Os motivos são vários e vão além dos lúdicos e mais óbvios (“que legal, vamos ter Copa aqui pertinho” etc.). E são perfeitamente aplicáveis à Olimpíada. Vamos a elas, homem-tópico:

1) Tanto Copa do Mundo quanto Olimpíada atraem um caminhão de investimentos. Isso significa dinheiro circulando no país. O que é sempre bom.

2) Um número considerável de obras devem ser construídas para os dois eventos. Isso significa geração de empregos.

3) Apesar do gigantesco potencial turístico, o Brasil atrai menos visitantes que cidades como Paris e Hong Kong. A realização desses torneios são uma grande chance para atrair novos turistas de todo o mundo. E, se o trabalho for bem feito, a Copa e a Olimpíada serão nossas melhores peças de propaganda. E turismo é sinônimo de mais dinheiro entrando no País e maior geração de empregos.

Mas acho que o impacto mais positivo será o aperfeiçoamento da infra-estrutura das grandes cidades brasileiras, e agora especialmente a do Rio de Janeiro. O Brasil receberá, em menos de 10 anos, melhorias que levariam ao menos meio século para chegarem. São Paulo é um exemplo acabado disso: nos próximos três anos o pequeno sistema metroviário da cidade saltará de 60 km para quase 100 km. Isso sem contar as melhorias nos trens de subúrbio. Sem Copa do Mundo, certamente estaríamos engatinhando nesse sentido.

Evidentemente, não faltam razões para quem se coloca contra esses eventos. O mais comum é dizer que haverá muita roubalheira. Mas se houver um grande volume de investimentos privados, a tendência é que a corrupção seja menor. Ademais, a fiscalização deve ser bem maior nesses eventos, o que pode criar um precedente importante para a melhoria das nossas instituições.

De resto, não podemos deixar de ousar por causa do medo. Sem dúvida a Copa do Mundo e a Olimpíada exigirão muito. Teremos um trabalho hercúleo para fazer um bom papel. Mas é assim que se cresce. Nós crescemos como pessoas quanto temos grandes desafios: um vestibular difícil, um emprego que exige capacidade, e por aí vai. Com os países é igual: muitos só atingiram um patamar superior depois de enfrentar grandes desafios. Sempre achei que a Copa do Mundo seria o “vai ou racha” do Brasil, a chance de sairmos definitivamente desse buraco em que nos encontramos desde 1500. Agora teremos uma outra grande chance. Resta aproveitarmos.

E, sim, falo na segunda pessoa do plural, porque somos eu e você quem elegeremos os governantes de 2014 e 2016. E todos nós temos um papel importante como fiscalizadores deste processo. Depois não adianta reclamar e dizer que político “é tudo ladrão”.

A realidade paralela de Veja

Setembro 29, 2009 por Fábio Mendes

Não é de hoje que o Brasil sofre com o mau jornalismo, seja em política, cultura, esportes ou qualquer outro assunto. Matérias mal escritas, apuradas nas coxas ou simplesmente tendenciosas sempre foram maioria, e não é de hoje. Mas há algum tempo que caminhamos para um terrível caminho: o do jornalismo de ficção. E não, não falo de “new jornalism”, Tom Wolfe, Gay Talese e afins. Me refiro à ficção, mesmo. A matérias que criam realidades paralelas e contam fatos inexistentes, em vez de focarem acontecimentos reais.

A revista Veja tem sido a expressão máxima deste tipo de jornalismo. Nas páginas do maior semanário do País, a notícia é alvo de uma impiedosa mutação genética. Seus editores e repórteres nunca pareceram se preocupar com a falta de exatidão nas informações, as barrigas gigantescas ou as contradições latentes. Mas desta vez eles extrapolaram os limites do bom senso.

A capa desta semana fala sobre a posição brasileira frente ao golpe de Estado em Honduras. Para quem não sabe, o Brasil foi o país que tomou a posição mais firme em relação à deposição ilegal do presidente Manuel Zelaya: se colocou frontalmente contra o fato e ainda acolheu o sujeito em sua embaixada em Tegucigalpa, o que tem rendido dissabores com os golpistas.

Como toda posição firme, o asilo político oferecido por Lula e pelo ministro Celso Amorim é polêmico e, por isso mesmo, passível de críticas. A Veja teve uma ótima oportunidade para fazer uma grande matéria sobre o assunto, com notícias reais, mostrando o quadro real de Honduras, criticando a ação do Brasil se assim prefere. Mas a revista preferiu investir na realidade paralela. Quem ler a reportagem sobre o assunto, verá que Honduras é um país que passa por uma transição democrática, que destituiu seu presidente de forma legal e que o novo governo é alvo da intransigência do Brasil, que está “na contramão do mundo”. E que Lula teria “quebrado sua tradição diplomática” por influência de, vejam só, Hugo Chávez. Depois de tanta ficção, vamos aos fatos:

1) Lula não quebrou tradição nenhuma. O Brasil sempre foi chegado em oferecer asilo pra meio mundo, inclusive criminosos, como Ronald Biggs, e ditadores sanguinários, como o general paraguaio Alfredo Stroessner. Porque não o faria a um presidente deposto ilegalmente?

Zelaya2) É bem verdade que Zelaya, como muitos outros presidentes latino-americanos, aprontou das suas. Desafiou as forças dominantes de seu país com um histrionismo patético e não conseguiu o apoio político e popular para alterar a constituição. Daí a achar que o golpe de estado foi uma ação legítima vai uma grande, uma enorme distância.

3) Nenhum país sério reconheceu o novo governo de Honduras. Os grande veículos de comunicação do mundo tratam o caso como golpe de fato. O jornal britânico “The Independent”, chama o atual presidente de “impostor”. Onde está a propalada “contramão do mundo”?

4) Dizer que o Brasil foi pressionado por Chávez no caso Honduras é como dizer que o Brasil tem mais poder político que os EUA, já que Obama não reconheceu o novo governo hondurenho, mas até agora ficou na dele. E, sim, Chávez é um chato de galochas. Mas reconhecer um governo golpista só pra contrariá-lo seria o cúmulo da infantilidade.

5) Até mesmo publicações hostis ao governo Lula, como a Folha de S. Paulo, tratam Honduras como um país sob golpe de estado. Aqui e ali surgem críticas à ação do Brasil, mas em nenhum momento tentam legalizar a situação hondurenha ou criar uma situação inexistente.

Essa reportagem mostra o quanto a Veja perdeu o senso de ridículo. Ela definitivamente abandonou o jornalismo e todas as responsabilidades advindas do fato de ser a revista de maior circulação no país e também a única fonte de informação para muita gente. São fatos como esse que dão força à tese de que, pior que não ler nenhum jornal ou revista, é ler apenas um.